Publicado 18/10/2019 - 11h40 - Atualizado 18/10/2019 - 11h40

Por Daniel de Camargo

Artigo - Saúde: recursos limitados e escolhas necessárias

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Artigo - Saúde: recursos limitados e escolhas necessárias

O Brasil é um país de oportunidades. No tratamento e diagnóstico de câncer, por exemplo, temos acesso às tecnologias avançadas, como testes moleculares, cirurgia robótica ou radioterapia com intensidade modulada. Por outro lado, convivemos também com filas, infraestrutura precária, excesso de burocracia, que culminam em falta de acesso à saúde.
O orçamento destinado à saúde no Brasil é escasso não só no SUS, mas também na saúde suplementar. Então, em um ambiente em que os recursos são restritos, saber utilizá-los com inteligência é uma virtude. E os médicos têm visto que precisam mudar suas atitudes frente aos pacientes e, principalmente, aos gestores.
Antes, um bom médico era preocupado somente em se atualizar com conhecimentos técnicos. Com o encarecimento da Medicina e o surgimento de terapias de altíssimo custo, se tornou necessário entender os sistemas de saúde, a incorporação de tecnologias e a avaliação crítica da informação. Assim, surgiu o conceito de Medicina Baseada em Valores, que visa integrar a melhor evidência externa, a experiência do médico e a disponibilidade no sistema de saúde. Isso porque quando lidamos com recursos limitados escolhas precisam ser feitas.
A estrutura criada no Brasil com as agências reguladoras (Anvisa, ANS e Conitec), na maioria das vezes, não é efetiva. Definições básicas sobre o que “funciona” ou “não funciona” frequentemente são divergentes. E o resultado são regras desconexas, definições questionáveis e decisões finais com falta de transparência. E isso acontece para aplicações de tratamentos tanto nos planos de saúde quanto no SUS, ainda que na saúde suplementar a velocidade das determinações seja mais rápida. De toda forma, vemos – diariamente – pacientes à mercê de terapias completamente ineficazes.
Não adianta somente reclamar. Todos precisam entender que incorporações “automáticas” de tecnologias não são possíveis. Profissionais de saúde precisam ser treinados em conceitos de Medicina Baseada em Valores a fim de avaliarem a viabilidade das novidades. A participação conjunta de governo, indústria farmacêutica, médicos e pacientes precisa acontecer para enriquecer o processo e definir prioridades. Afinal, esforços coordenados sempre levam mais longe.
André Deeke Sasse, oncologista, professor de pós-graduação na FCM-Unicamp, fundador do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia e coordenador da Oncologia Clínica do Hospital PUC-Campina. Faz a preceptoria dos residentes do hospital.

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Daniel de Camargo