Publicado 10/09/2019 - 13h09 - Atualizado 10/09/2019 - 13h11

Por Estadão Conteúdo

Conhecido internacionalmente, Pantanal rouba à cena no Centro-Oeste do País, porém está longe de ser o único roteiro dessa região espetacular

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Conhecido internacionalmente, Pantanal rouba à cena no Centro-Oeste do País, porém está longe de ser o único roteiro dessa região espetacular

A qualquer momento, araras, onças ou outra das centenas de espécies da região podem aparecer no horizonte - ou, logo ali, a alguns metros de distância. Uma nova descoberta rapidamente se espalha em avisos, cutucões ou gestos, que apontam para o céu, as árvores, o mato, o rio, a estrada, todos os lados. No Mato Grosso, paciência, tempo e sentidos aguçados guiam viajantes por cidades nos arredores de Cuiabá.
Visitamos o Estado em junho, já considerado período de seca. A temperatura beirou os 30 graus durante o dia, o céu se manteve aberto e nenhuma gota de chuva se apresentou. Foi assim que percorremos o Pantanal Norte, a Chapada dos Guimarães e a ainda pouco conhecida região de Nobres, repleta de nascentes e rios cristalinos. O primeiro e um dos principais atrativos da viagem não foi um ponto de parada, mas uma travessia: a da Transpantaneira, que liga Poconé a Porto Jofre. A região faz parte do Complexo de Preservação do Pantanal, considerado Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera pela Unesco.
De chão batido e em meio a solavancos, atravessar os 147 kms da Transpantaneira tem um pouco de safári: é comum avistar animais, especialmente jacarés e aves. Em um trecho, o nosso carro parou. O motivo? Um tuiuiú de um metro e tanto de altura parado no meio da estrada. De plumagem branca, pescoço vermelho e cabeça preta, a ave - tal qual um personagem em fuga em um filme de ação - desfilava pela estrada até considerar seguir pelas margens da via. Foi nesse momento, de um voo breve, que exibiu seus cerca de dois metros de envergadura.
Embora a distância seja curta, atravessar a Transpantaneira leva quase quatro horas. Por isso, o ideal é fazer a viagem sem pressa, com pernoite nas fazendas e paradas para fotografar a paisagem e o portal de madeira que dá boas-vindas aos viajantes. O Pantanal perpassa pouco mais de 200 quilômetros quadrados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, além de Paraguai e Bolívia. É banhado por águas oriundas das cabeceiras do Rio Paraguai, que levam quatro meses para atravessar o território e criar as áreas inundadas.
São elas que garantem as paisagens mais características, formando corixos, canais criados nas depressões de terrenos e que viram quase espelhos d’água. É no período da vazante e seca (maio a outubro), contudo, que as visitas à região se tornam mais populares: a Transpantaneira está transitável e os animais retornam à cabeceira dos rios. Por ali circulam cerca de 300 espécies de peixes, 150 de répteis e anfíbios, 460 de aves e 130 de mamíferos, dentre outras. Parte delas (como os jacarés) é avistável em qualquer período do dia, mas outra é mais evidente no alvorecer e entardecer. O tuiuiú (ou jaburu) é um dos animais mais presentes - e lembrados na decoração de pousadas e lembrancinhas. O único que rouba essa atenção é a onça-pintada - atrativo de safáris fluviais, com partida no começo da manhã e se estendendo por horas (ou dias).
De cara com a onça
De Porto Jofre, partimos para um passeio pelo Rio Cuiabá. No píer, um funcionários nos apresentou ao barqueiro e garantiu: nós iríamos ver onças naquela manhã. Os barqueiros costumam se comunicar ao encontrarem algum felino. Logo no início da expedição, o rádio da nossa embarcação foi acionado e seguimos com mais velocidade até uma área onde outros grupos estavam parados. Tentamos achar a onça, mas nada. Após a tentativa frustrada, voltamos um trecho. Foi quando o guia apontou para um canto. Não vimos nada de imediato, mas, depois, enxergamos o vulto de uma onça em meio à vegetação.
Conforme a mata se tornava menos densa, a onça ficava mais visível. Mais do que isso: descobrimos que outra vinha logo atrás. A dupla se aproximou da praia e, por alguns instante, nos fitou enquanto era fotografada por uma dezena de câmeras. Inesquecível. Fizemos nossa expedição com o Hotel Pantanal Norte ( R$ 1.900 o tour de 10h para quatro pessoas; diária a R$ 1.055 o casal, com pensão completa). Outra opção é a Pousada Pantanal Norte: o passeio de 6 a 8 horas custa R$ 1 mil (até 4 hóspedes; diária R$ 950 o casal).
Antas e jacarés
Fizemos outro passeio de barco em Poconé, esse com o objetivo de assistir ao entardecer refletido no espelho d’água. Logo no início, o barqueiro faz uma graça para os visitantes atraindo um jacaré para fora d’água, usando uma piranha de isca. Mas a atração foi mesmo a travessia surpresa de uma anta de ponta a ponta, que lentamente nadou até sumir do outro lado do rio. O nosso passeio foi pela Pousada Rio Claro, no Km 42 da Transpantaneira. Na versão de duas horas, custa de R$ 85 (por hóspede) a R$ 410 (individual), mas também é possível r um day-use de R$ 165 (que inclui passeio e almoço).
A repórter viajou a convite do Sebrae/MT
SAIBA MAIS
Como ir: de Cuiabá a Poconé são 104 km, num trajeto de aproximadamente 1h30. De ônibus, o trajeto dura quase 3h e a passagem custa R$ 27,51 (é possível comprar online em sites como o GuicheVirtual.com.br). Para pegar a Transpantaneira, é preciso estar com um 4X4. Outra opção é combinar o transfer e os passeios direto com a pousada.
Bom Jardim (distrito de Nobres) fica a 2h de Cuiabá - a estrada é boa e você pode ir de carro alugado ou usar o transfer dos passeios. A Chapada dos Guimarães está a 1h de Cuiabá. Vale alugar carro e colocar ambas em um mesmo roteiro.
Um paraíso na Terra chamado Bom Jardim
Águas de uma transparência azulada, que permitem a contemplação de peixes coloridos, são o principal atrativo do distrito de Bom Jardim, em Nobres, a cerca de 2 horas de Cuiabá. Por vezes comparada a Bonito, a região tem uma estrutura mais rústica, quase caseira, e aposta nos passeios de flutuação.
Começamos o dia na cidade com um almoço seguido de uma breve sesta em redes de couro e madeira, enquanto aguardávamos o passeio no Reino Encantado. Antes de fazer a flutuação no Rio Salobra, pusemos colete salva-vidas, uma bota especial e pegamos o snorkel e os óculos de mergulho. Filtro solar e repelente são proibidos, para não contaminar o rio.
As águas são límpidas, azuis-turquesa. Ao entrar, já percebemos que são menos geladas do que a das cachoeiras da Chapada dos Guimarães, mas enfrentamos outro desafio: não colocar o pé no chão durante a flutuação. Para não deixar a água turva, disputamos espaço sobre troncos enquanto tentávamos nos equilibrar para uma foto em grupo.
Logo na entrada, os funcionários jogaram ração para atrair os peixes. Depois, o passeio seguiu o curso do rio, que nos levava quase naturalmente pelo caminho, sem exigir esforço, mas dificultando algum retorno para um ponto que chamasse a atenção
Com o rosto para fora da água, conseguimos observar melhor a vegetação no entorno do rio e evitar trapalhadas com troncos. Mas a graça é usar o snorkel e os óculos para procurar os peixes, que são de tamanhos e cores distintos.
O passeio pelo Aquário Encantado é bem semelhante. As principais diferenças são que a trilha segue por um caminho repleto de macacos-prego e, eventualmente, alguns quatis. Além disso, os funcionários costumam jogar milho para atrair os peixes, que tentam transportar os grãos na boca.
Ambas as opções de flutuação custam R$ 90. Em Nobres, o ingresso para os atrativos é comercializado exclusivamente por agências de turismo, isto é, não adianta ir diretamente até a atração turística.
Pôr do sol
Hospedados em Bom Jardim, saímos da pousada de quadriciclo até a Lagoa das Araras. O caminho é tranquilo e passa ao lado de um terreno de pastagem de gado. A condução pode ser feita até por quem não sabe dirigir, após um breve treinamento. O custo é de R$ 120 por pessoa, por 1h30. A trilha até a lagoa é curta e autoguiada. Lá, encontramos dois deques, dos quais observamos o entardecer e o retorno de mais de uma dezena de araras até os ninhos - feitos no topo de buritis, palmeiras que chegam a ter 30 metros de altura. A entrada custa R$ 20 e também precisa ser comprada em agência.
Além de Nobres, visitamos também o Sesc Serra Azul, que leva o nome de sua principal atração: uma cachoeira de 46 metros de altura. O acesso até a queda d’água é por uma escadaria de mais de 400 degraus. Embora o número assuste, os degraus são baixos e apenas uma parte do trajeto é de subida. A entrada na cachoeira pode ser feita apenas com colete de flutuação e o ingresso inclui ainda óculos para contemplação dos peixes.
Da cachoeira, é possível fazer parte do trajeto de regresso por uma tirolesa de 700 metros de extensão e 50 metros de altura. A descida passa pela copa das árvores, aterrissando em campo aberto. A tirolesa custa R$ 60, enquanto a flutuação na cachoeira tem o preço de R$ 80. Há, ainda, um pacote combinado das duas por R$ 130, com desconto para comerciários, além de opções de cicloturismo e arvorismo. Ali também é preciso comprar o ingresso nas agências da cidade.
Chapada agrega cachoeiras e paredões gigantescos
O acesso fácil de Cuiabá, distante apenas 50 quilômetros, faz com que o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães seja um destino democrático. Frequentada tanto pela população quanto por turistas, tem farta oferta de cachoeiras, belas paisagens e infraestrutura, com muitas opções de pousadas, hotéis e restaurantes. O principal cartão-postal é o mirante da cachoeira Véu de Noiva, com acesso livre e gratuito entre 9h e 16h. A queda d’água, de 86 metros de altura, pode ser admirada do alto, em uma trilha curta e fácil. Ainda é possível avistar (ou, na falta de um binóculo, pelo menos ouvir) as araras-vermelhas que mantêm ninhos nos paredões. Não é permitido se aproximar do Véu de Noiva, mas há outras duas cachoeiras para se refrescar do calor: a dos Namorados e a Cachoeirinha. Para chegar a elas, as trilhas são simples e dispensam a companhia de um guia. Com tempo livre, dá para investir no Circuito das Cachoeiras, percurso que percorre seis quedas d’água (7 de Setembro, Pulo, Degraus, Prainha, Andorinhas e Independência) e duas piscinas naturais. Com exceção da Independência, todas as cachoeiras permitem banho. O circuito tem seis quilômetros (ida e volta) e somente pode ser percorrido com guia credenciado. Os valores podem variar de R$ 140 a R$ 250 para duas pessoas. A entrada é permitida a partir das 8h30, com saída até as 17 horas. A trilha atravessa vegetação característica, como as canelas-de-ema, espécie de arbusto símbolo do cerrado e conhecida por entrar em autocombustão no clima seco. O caminho exige esforço moderado, com poucas subidas. As águas são gélidas e transparentes, com locais mais rasos para andar.

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