Publicado 02/09/2019 - 14h36 - Atualizado 02/09/2019 - 14h56

Por Alisson Negrinho

Daniela Galli iniciou sua formação artística pela música aos 5 anos, formou-se em arquitetura pela PUC-Campinas, foi cenógrafa em Nova York, e hoje atua em novela global

Arquivo Pessoal

Daniela Galli iniciou sua formação artística pela música aos 5 anos, formou-se em arquitetura pela PUC-Campinas, foi cenógrafa em Nova York, e hoje atua em novela global

Uma campineira com talento para dançar, atuar, desenhar e tocar. Alguém que, desde a infância, já percebia a veia artística e buscava caminhos para fazer o que lhe desse vontade. Aliás, viver várias vidas em uma só, e de maneira intensa, faz parte de sua trajetória até hoje. Esta é Daniela Galli, que interpreta Stephanie na novela A Dona do Pedaço, na Globo, é formada em arquitetura e urbanismo, além de ter sido oboísta da Orquestra Sinfônica Jovem de Campinas.
A pluralidade está no DNA da atriz. Ainda criança, já dava os primeiros sinais do amor pela arte, inclusive criando “shows” para apresentar aos parentes e amigos. Os pais, percebendo o gosto da pequena, a colocaram no curso de iniciação artística do Conservatório Carlos Gomes, aos 5 anos. Três anos mais tarde, passou a ter aulas de flauta com a professora Léa Ziggiatti, de quem tem boas recordações.
“Uma pessoa muito querida na minha formação. Lembro com carinho desse período e dos outros que se seguiram. Participei de vários concertos e fui integrante do conjunto Ré-nascer, de música renascentista. Depois de tocar flauta por um tempo, a Dra. Léa me sugeriu escolher um instrumento de orquestra. Como eu tinha facilidade pra instrumentos de sopro, ela pensou no oboé. Eu não dei muita bola... Nunca havia ouvido falar desse instrumento e queria, na verdade, estudar violoncelo. Mas o único horário vago era às segundas-feiras bem à noite e ficava complicado”, explica Daniela, que, depois acabou se encantando com o som do oboé e aprendendo a tocar.
O tempo passou, e a talentosa oboísta se formou em arquitetura e urbanismo pela PUC-Campinas. Em dúvida entre tantas profissões, optar pelo curso não foi lá uma escolha das mais simples, mas se deu de maneira lógica, por abrigar muitos de seus interesses: arte, criatividade, desenho, espaço e seus efeitos sobre o comportamento humano. A campineira gostava de desenvolver projetos arquitetônicos e chegou a trabalhar em alguns escritórios.
“Foi uma experiência interessante, mas vivia uma vida dupla: arquitetando e dançando. Foi quando pensei na cenografia como caminho para misturar os dois mundos, da criação e performance. Fui atrás de fazer acontecer. Montei um portfólio, juntei um dinheiro e segui para Nova York, com a cara e a coragem. Bati na porta de alguns cenógrafos e cheguei a trabalhar por alguns dias numa construtora de cenários para ter acesso à eles, até conhecer Tony Walton. Trabalhei como sua assistente e depois cenógrafa associada na Broadway, e fiz projetos para peças off-Broadway. Foi quando tive contato direto com o teatro e a arte da interpretação.”
Presente inesperado
A cidade de Nova York, aliás, protagonizou um momento especial em sua vida. Daniela tinha muita vontade de fazer um monólogo e vinha pensando sobre o assunto. Foi quando uma grande amiga, Clarisse Abujamra, falou sobre uma peça que seria perfeita para ela. Se tratava de The Other Mozart, que contava a história de Nannerl Mozart, a irmã de Amadeus, uma menina extremamente talentosa, excelente pianista, cravista e compositora, que teve seu trabalho visto - e elogiado - por toda Europa, mas cujo a vida se perdeu no tempo, devido ao seu gênero.
“Foi um presente inesperado e maravilhoso. Me interessei pelo tema, a chance de dar voz para uma entre tantas mulheres esquecidas, o figurino/cenário inteligente e deslumbrante”, conta.
A atriz então entrou em contato com Sylvia Milo, autora da peça, com a intenção de comprar os direitos e produzi-la no Brasil. Por se tratar de um solo, Sylvia e o diretor Isaac Byrne enviaram três cenas em inglês para fazer um teste. Daniela filmou o material direto do Brasil e enviou para eles. Dias depois veio o inesperado: gostaram tanto do seu trabalho que a convidaram para fazer uma nova temporada da peça off-Broadway, em Nova York, alternando apresentações com Sylvia.
“Me preparei sozinha aqui no Brasil com base no texto e em vídeos da produção original e parti pra Nova York onde, depois de 15 dias de intensos ensaios com o diretor, estreei no The Players Theatre. Foi incrível. O espetáculo recebeu vários prêmios e a reação da plateia foi muito tocante.Voltei para mais duas temporadas nova iorquinas e, no momento, trabalho com a produtora teatral MorenteForte, de São Paulo, para finalmente contar a história de Nannerl em português, no Brasil. Devemos estrear no fim desse ano ou início do ano que vem e, claro, quero levar o espetáculo para Campinas”, diz.
Trabalhos na televisão
De volta ao Brasil para participar de um projeto cinematográfico que acabou não acontecendo, Daniela se viu tendo que recomeçar do zero. Preparou um material e foi atrás de produtoras e agências, para fazer testes. Depois de gravar seu registro para a Globo, acabou sendo chamada para um teste pro elenco de Páginas da Vida, de Manoel Carlos. Foi desta maneira que recebeu o convite para sua primeira personagem na televisão, a Dra. Marília.
O primeiro teste é guardado com bom humor. “Eu estava muito nervosa, me preparei bem, mas no dia, não acordei com borboletas no estômago... Eram foguetes, aviões, zarabatanas (risos). Foi um teste incomum, porque o Jayme Monjardim (diretor) não me deu texto algum. Ele disse: te darei alguns minutos de câmera para preparar e apresentar o que quiser. Escolhi dois textos que conhecia e fiz uma mistura entre eles.”
Para quem já viveu tantas personagens, como uma terapeuta que se apaixona pelo paciente; policial que se passa por prostituta de luxo; professora de teatro e mãe solteira; condessa italiana; rainha persa; dançarina de boate; psicanalista bipolar, eleger os papéis mais marcantes não é fácil. A atriz, porém, relembra quatro trabalhos que a marcaram por diferentes motivos.
No telefilme Tragédia da Rua das Flores, Daniela dá vida a Jô Lisboa, uma mulher que abandona seu bebê e vai tentar a vida na Europa. Anos depois retorna ao Brasil em outra situação social e vive um romance com um rapaz mais novo, sem saber que é o filho que abandonou. “Foi um projeto muito intenso, marcado pela dedicação e generosidade de todos os envolvidos. Precisávamos disso para contar uma história tão delicada, trágica e profunda. Vivi nesse projeto uma das cenas mais fortes do meu trabalho como atriz.”
Outro trabalho especial foi na série Plano Alto, em que viveu Julia, uma advogada e deputada estadual, bastante manipuladora e estrategista. “Me rendeu uma indicação ao prêmio Contigo! de melhor atriz em série. Novamente, resultado da parceria cênica, generosa e sensivelmente dirigida por Ivan Zetel.”
Já Malhação Viva a Diferença marcou seu retorno à Globo. Na ocasião, interpretou a vilã Malu, que contou com grande repercussão nas ruas e rendeu diversos xingamentos tamanha a capacidade de atuação da atriz. “Recebi muitas mensagens e me chamavam de 'malvada favorita”, se recorda.
Por fim, O Matador foi o primeiro filme brasileiro da Netflix, dirigido por outro campineiro, Marcelo Galvão. “Tive a chance improvável de interpretar uma nordestina em 1910. Emagreci três quilos, tingi os cabelos e coloquei aplique, amarelei os dentes e passei 20 dias imersa no interior de Pernambuco, conversando com os moradores de Cimbres para incorporar seus costumes, modos e sotaques. Fui muito bem recebida pelas pessoas, que me ajudaram e me ensinaram muito. Uma senhora me abrigou em sua casa numa vila indígena.”
Com Stephanie, em A Dona do Pedaço, revela que tudo aconteceu de modo rápido. Recebeu o convite e, em poucos dias, estava no set de gravação. “Acho que o maior desafio numa situação dessas, além de encontrar a personagem rapidamente, é entrar em sintonia com o tom da novela e o resto da equipe, que já trabalha junto desde o início da trama e possui dinâmica específica. Mas fui muito bem recebida e tudo fluiu de modo gostoso”, afirma.
Amor por Campinas
Nascida e criada em Campinas, Daniela viveu na cidade até 1999. Sempre que pode, retorna para visitar, e o sentimento é o mais genuíno amor. “É a minha terra, minha casa, meu porto seguro. É o lugar para onde vou e recupero minhas energias ao lado da família e dos amigos queridos. Isso é um tesouro que levo comigo em minhas viagens e andanças, e essa saudade me alimenta, me norteia. Quando estou em Campinas, gosto de sair caminhando pelas ruas sozinha, devagar... Sinto falta do céu sempre azul e aberto, dos ipês e flamboyants, e do cheiro das ruas. Parece brincadeira, mas é verdade. Impressiona como o cheiro do lugar onde crescemos está marcado dentro da gente, só percebemos quando voltamos depois de um tempo fora.”
Quando está em cartaz, ela faz de tudo para levar a peça até Campinas, sempre vivendo grande emoção em compartilhar aquelas horas no teatro com pessoas que foram e são tão significativas em sua vida, como família, amigos e mentores. É um modo de agradecer e homenagear quem cultivou essa arte. Ver o estado do Centro de Convivência, no entanto, a entristece.
“Um patrimônio arquitetônico e artístico, um lugar que foi residência da Orquestra Sinfônica de Campinas, que sediou tantos eventos artísticos e propiciou encontros importantes para a vida cultural da cidade, merecia melhor destino... Deveria continuar vivo e vibrante, como lembro dele.”
Em Campinas ela ainda teve a honraria de vencer o concurso nacional de esculturas em homenagem ao maestro Carlos Gomes, ao lado dos amigos Carlos Adriano Lazanha e Pedro Paulo Mainieri, com quem estudou na faculdade.
“Eu morava em Nova York, mas trabalhamos durante um mês em que eu estava em Campinas de férias. O concurso tinha no júri Joaquim Guedes e Agnaldo Farias, e ter nossas obras escolhidas para serem realizadas foi uma grande satisfação... A cereja do bolo num processo de criação que havia sido extremamente gratificante e prazeroso.”
A experiência se mostrou bastante especial também por conta da infância que Daniela passou no Conservatório Carlos Gomes. “Lembro de visitar o museu durante os intervalos dos ensaios e me encantar com a história daquele gênio da música operática que havia nascido na mesma cidade que eu. Fiquei feliz em ter a oportunidade de homenagear algumas de suas obras com esculturas criadas junto com dois grandes amigos”, conclui.

Escrito por:

Alisson Negrinho