Publicado 21/09/2019 - 10h37 - Atualizado 21/09/2019 - 10h40

Por Gilson Rei

Fernando Souza Cunha, de 34 anos, que nasceu com paralisia e depois foi atropelado, sobrevive vendendo balas em semáforos de Campinas

Wagner Souza/AAN

Fernando Souza Cunha, de 34 anos, que nasceu com paralisia e depois foi atropelado, sobrevive vendendo balas em semáforos de Campinas

A mobilidade e o acesso ao emprego são dois dos principais desafios que pessoas com deficiência enfrentam cotidianamente em Campinas. De um lado, faltam rampas, construções acessíveis e calçadas em bom estado, fatores que impedem os deslocamentos na maioria das vezes. De outro, falta interesse por parte das empresas na oferta de empregos, atitude que impede a liberdade do cidadão de ter sua autonomia no trabalho e na renda.
A população de Campinas de 1,2 milhão de habitantes conta com aproximadamente 350 mil pessoas com algum tipo de deficiência, segundo projeções sobre os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, que na época tinha 1 milhão de habitantes e já contava com 300 mil pessoas com deficiência.
Na tentativa de garantir mais oportunidades de emprego e para divulgar o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência - que é comemorado hoje - foi realizado em Campinas, o Dia D para a inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho, ontem, no Centro Público de Apoio ao Trabalhador (CPAT). A ação foi realizada pela Secretarias de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos em parceria com a Secretaria de Trabalho e Renda.
A procura por trabalho foi intensa e muita fila se formou no CPAT. Gente como Flávio Vendimiatto, cadeirante, de 46 anos, que tem uma lesão na medula, adquirida em um acidente automobilístico há 29 anos. Formado em Farmácia e Biogênese, Vendimiatto disse que não consegue vaga de emprego porque muitas empresas não têm interesse em dar oportunidade e outras não tem nem instalações para cadeirantes, como rampas, elevadores e portas mais largas. “Infelizmente não existe igualdade de condições para as pessoas com deficiência. Há muito ainda por fazer para mudar esta realidade”, disse.
O secretário de Trabalho e Renda, Luis Yabiku disse ontem que, apesar de crescer ainda abaixo da demanda, o índice de empregabilidade tem aumentado em Campinas. “O Ministério Público do Trabalho tem feito um trabalho muito bom, atuando e estimulando as empresas a abrirem vagas de trabalho”, avaliou.
Segundo Yabiku, no Dia D, foram abertas 131 vagas, com 31 empresas inscritas. O balanço final só será conhecido na segunda-feira, mas ele disse que até o meio dia de ontem, restavam apenas 16 vagas em aberto.
A falta de emprego e acessibilidade são os desafios também de Fernando Souza Cunha, de 34 anos, que tentava ontem vendendo balas no semáforo, em frente ao Hospital Mário Gatti para sobreviver. Ele disse que nasceu com paralisia infantil, mas conseguiu ter mobilidade razoável até os 30 anos, quando foi atropelado por conta de uma calçada esburacada. “Fui desviar do buraco na calçada e um carro me atropelou e agora não consigo usar nem cadeira de rodas. Para locomover agora é só com o andador”, disse.
Cunha reclamou das calçadas e da falta de rampas, além de sentir dificuldades em muitos prédios e casas que não têm adaptações para cadeirantes e pessoas de baixa mobilidade. “Ninguém pensa nas pessoas com deficiência antes de fazer calçadas, casas ou prédios”, desabafou.
Poder Público investe em mobilidade e trabalho
A acessibilidade e o emprego para pessoas com deficiência estão também entre os desafios do Poder Público, segundo Eliane Jocelaine Pereira, secretária de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos. Eliane disse que as ações desenvolvidas pela Pasta buscam a solução destes dois fatores e conseguiu avançar em diversas frentes. “Avanços são visíveis nos últimos seis anos, fruto das políticas adotadas”, disse.
Segundo Eliane, as ações são realizadas de forma transversal, ou seja, feitas em conjunto com outras Secretarias, principalmente, Saúde; Trabalho e Renda; Transportes; Serviços Públicos; Infraestrutura; Planejamento entre outras.
Entre os avanços, destacou a criação da Central de Libras para surdos, atendendo e acompanhando 48,3 mil pessoas em todos os órgãos e serviços públicos municipais. Criou a Tecla Samu para surdos em situações de emergência, com um aplicativo desenvolvido e doado por uma start up, que permite o uso de teclas com desenhos para comunicação dos surdos com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Destacou também a ampliação do Cartão Nutrir, que disponibiliza cartão magnético para pessoas com deficiência com crédito para compra de alimentos, passando de 3 mil para 7 mil cadastros. Outro avanço foi o aumento de uma para três residências inclusivas, que acolhem, formam e fazem a inclusão de aproximadamente 40 pessoas atualmente. O programa Juventude Conectada inclui também pessoas com deficiência em bolsas de estudo e estágios.
Ampliou os serviços de convivência e fortalecimento de vínculos que atendem atualmente 16 mil famílias, das quais a metade com pessoas com deficiência. Aumentou os serviços de cuidador domiciliar, passando de 40 para 100 pessoas atendidas e expandiu de três para quatro Centros de Referência Especializada de Assistência Social na cidade, com previsão de criar mais um centro até o final do ano.

Escrito por:

Gilson Rei