Publicado 07/09/2019 - 19h20 - Atualizado 07/09/2019 - 19h24

Por Gilson Rei

Horta localizada no Tancredão, nos Campos Elíseos, e frequentada diariamente pela população, que ainda recebe orientações específicas

Leandro Torres/AAN

Horta localizada no Tancredão, nos Campos Elíseos, e frequentada diariamente pela população, que ainda recebe orientações específicas

Hortas comunitárias com plantas medicinais começam a se espalhar nas unidades municipais de Saúde de Campinas para valorizar o conhecimento popular e tradicional, buscar tratamentos menos agressivos, conscientizar a sociedade sobre hábitos de vida mais saudáveis e práticas sustentáveis entre tantas outras ações terapêuticas.
Trata-se do projeto Farmácia Viva que está em 18 das 66 unidades de Saúde de Campinas e envolve profissionais da Saúde e a comunidade de diversos bairros da cidade. E já recebeu dois prêmios de relevância em Congressos: um no Estado de São Paulo e outro em Brasília.
A implementação do projeto teve início em 2016, mas ampliado em 2017, devido ao recebimento de recurso vindo por meio do Grupo de Plantas Medicinais e Fitoterapia do Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas em Saúde (Lapacis) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Renata Cavalcante Carnevale, vice-coordenadora do Grupo de Plantas Medicinais e Fitoterapia do Lapacis-Unicamp, disse que a Farmácia Viva foi para a rede municipal de Saúde porque a prática da Medicina à base de plantas medicinais como terapêutica na Atenção Primária em Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma realidade adotada na rede municipal desde 1990 por meio de vários projetos.
Entre os projetos da rede de Campinas estão: o Hortos - fornecimento das plantas pelo Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da Unicamp (viveiro de mudas e plantio); o “Ciranda das Ervas” (distribuição de medicamentos fitoterápicos); e o Botica da Família (farmácia de manipulação municipal de fitoterápicos denominada).
Em dezembro de 2017, o projeto Farmácia Viva foi apresentado para as unidades de Saúde de Campinas que tinham o objetivo de participar e foram iniciadas visitas técnicas. Em março de 2018, foram iniciadas as coletas para análises de solo nos locais que decidiram aderir ao projeto. As coletas foram realizadas com o objetivo de aquisição de insumos para a correção do solo.
Receitas Caseiras
Érica Mayumi Tanaka, coordenadora da unidade Botica da Família e Farmácia Municipal de Manipulação, explicou que a Farmácia Viva é a Medicina por meio das plantas medicinais. “Na horta comunitária há o cultivo e o tratamento de plantas medicinais que são usadas em receitas caseiras, incluindo xaropes, chás e compressas com folhas em ferimentos entre outras ações que incentivam a alimentação saudável”, explicou. "Realiza todas as etapas, desde o cultivo, a coleta, o processamento, o armazenamento de plantas medicinais, a manipulação e a dispensação de preparações magistrais e oficinais de plantas medicinais e fitoterápicos", afirmou.
Tanaka explicou que foi publicada uma cartilha para auxiliar no projeto, a cartilha de Plantas Medicinais da Botica da Família. “É usada como base para garantir o uso seguro das plantas, pois contém muitas informações sobre as plantas e está disponível no site para os interessados baixarem”, disse.
Segundo Tanaka, o projeto tem o objetivo também de resgatar as práticas do passado de uso terapêutico com receitas dos nossos avós, trazendo de volta para casa as receitas caseiras. “Não só pela ação terapêutica com eficácia comprovada de seu uso, mas também pelo resgate do contato com a natureza, com a terra, com as plantas. Resgata também os saberes perdidos e a valorização dos conhecimentos tradicionais e populares, que são fundamentais nas plantas medicinais”, disse Renata. “Por isso, é visto como um projeto terapêutico, social e ambiental”, explicou Tanaka.
Comunidade
Erika Cândido, culinarista e usuária dos medicamentos na unidade de Saúde do Tacredão, no Campos Elíseos, disse que sempre teve interesse em lidar com plantas medicinais não convencionais e ficou sabendo que havia este projeto. “Isto me chamou a atenção porque não era uma horta apenas de verduras e legumes, mas vi que era também de plantas medicinais”, afirmou. “ Ao frequentar a horta comecei a aprender um pouco mais sobre o cultivo de várias plantas e conhecer várias que eu não tinha conhecimento”, explicou.
Segundo Erika, muitas pessoas chegam curiosas para saber como funciona a horta e verificam que tem algo além do tradicional. “Recebem toda uma explicação sobre o uso das plantas medicinais e de uso alimentício. Depois, começam a participar voluntariamente, trazendo para manutenção da horta restos de cascas de ovo, de cascas de frutas, pó de café e terra vegetal. Funciona como uma troca, pois elas recebem depois uma quantidade para uso pessoal de alimentos e as plantas nascidas na horta”, disse.
As equipes que cuidam da horta e os voluntários têm informações sobre cada tipo de planta e alimento e, quando alguém começa a participar do processo, há uma orientação sobre o uso adequado de tudo que está disponível, desde a forma de cultivo e de corte até o consumo na quantidade certa e na maneira que deve ser utilizada a planta e o alimento.
Janaína Franco, coordenadora da unidade de Saúde do Tancredão, no Campos Elíseos, disse que no início foram plantados gêneros alimentícios e hortaliças, e depois houve um refinamento e foram introduzidas plantas medicinais, concentrando os plantios e a manutenção neste propósito de medicamentos fitoterápicos e de plantas alimentícias não convencionais.
Segundo Janaína, o objetivo sempre foi de orientar as pessoas da comunidade sobre a alimentação saudável e de incentivar o uso de medicamentos fitoterápicos. “Desde o início, a horta teve a meta também de criar um espaço de convívio para as pessoas cuidarem da terra e ampliar o conhecimento das terapias de plantas medicinais”, disse. “É um trabalho de conscientização e de sensibilização, incluindo também os próprios trabalha+dores da unidade de atendimento à Saúde”, afirmou.
Segundo Janaína, escolas da região levam constantemente crianças de diversas faixas etárias para conhecer de perto o processo e é um multiplicador das práticas saudáveis. “O desafio maior é tirar um pouco o foco da receita feita exclusivamente com remédios de laboratório e mostrar que é importante também ter as plantas medicinais como complemento nos tratamentos, desde os casos de cicatrização de feridas e dores musculares até os casos de ansiedade e insônia, entre outros tipos de enfermidades”, disse.
ONDE TEM FARMÁCIA VIVA
As hortas estão distribuídas em cinco Distritos de Saúde:
- Sudoeste: Campos Elíseos Tancredão; DIC 1; DIC 3 ;Vila União; Santo Antônio; e Vista Alegre.
- Noroeste: Ipaussurama.
- Sul: Campo Belo; Santa Odila; Carvalho de Moura; Jardim Fernanda.
- Leste: Joaquim Egídio; São Quirino; Boa Esperança; 31 de Março; e CR em Reabilitação.
- Norte: San Martin; Jardim Aurélia; Rosália.
Fonte: Secretaria Municipal de Saúde.
 

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Gilson Rei