Publicado 12/08/2019 - 14h48 - Atualizado // - h

Por Daniela Nucci

 fisioterapeuta Liliane Cristina de Paiva Mota, de 39 anos, passou 69 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal da Maternidade de Campinas com os gêmeos Danilo e Melissa e se sentiu uma leoa para dar o leite materno para os filhos quando estavam internados e depois conseguir amamentar em casa

Arquivo Pessoal

fisioterapeuta Liliane Cristina de Paiva Mota, de 39 anos, passou 69 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal da Maternidade de Campinas com os gêmeos Danilo e Melissa e se sentiu uma leoa para dar o leite materno para os filhos quando estavam internados e depois conseguir amamentar em casa

Nada mais emocionante para uma mãe do que sentir o bebê na pele logo após seu nascimento e amamentá-lo na primeira hora de vida. Muitas mães fazem isso intuitivamente desde sempre, no entanto, o ato é mais importante do que se pode imaginar. No Agosto Dourado, mês de conscientização dos benefícios do aleitamento materno, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que todas as rotinas com o recém-nascido sejam postergadas até ele que ele mame antes de completar a primeira hora de vida. Além de contribuir para salvar muitos bebês, o aleitamento materno na primeira hora ajuda a mulher a ter leite mais rapidamente e auxilia nas contrações uterinas, diminuindo o risco de hemorragia pós-parto. Para a mãe, oferecer a pele e o seio ao bebê logo após o nascimento proporciona intensa gratificação emocional e estimula a produção e liberação inicial de uma verdadeira “vacina”, que é o colostro. O líquido viscoso amarelo-dourado que precede a saída do leite, é 20 vezes mais rico em anticorpos do que o sangue da mãe (por exemplo, nos teores de gamaglobulinas) bem como mais concentrado em proteínas, vitaminas, sais minerais, entre outros.

O ato foi feito com todo o amor e cuidado pela psicóloga Aline Lazinho Scapucin, de 37 anos, mãe de Arthur, de 2 anos e 2 meses. “Amamentei até o sexto mês, porém voltei a trabalhar quando Arthur tinha 5 meses e contei com o apoio e amor de minha mãe e sogra para concluir a árdua tarefa de oferecer apenas o leite materno. Não foi fácil ordenhar e armazenar o leite, mas mais que isso, não foi fácil voltar a trabalhar”, recorda Aline, que sempre produziu muito leite e teve a compreensão do marido, “que é um grande companheiro e incentivador da amamentação”. Mesmo com a importância do gesto, a psicóloga ainda recebe críticas por amamentar o filho. “Ele mama em horários ainda importantes para ele, não como no início. Trabalho como psicóloga em uma operadora de saúde, faço orientação e palestras inclusive para gestantes, sempre buscando desmistificar os mitos e incentivar a realidade que envolve a gestação, puerpério e, principalmente, a amamentação. E mesmo assim me deparo com comentários e indiretas sobre ainda amamentar, que não serve para mais nada, que esse leite de agora é pura água, que esse menino vai ser mimado, que não é bom para a criança mamar tanto assim, que vai estragar os dentes, nada que apoie, nada que acrescente. A OMS recomenda a amamentação exclusiva até os seis meses e amamentação complementar por dois anos ou mais, ou seja, por quanto tempo mãe e filho sentirem que é importante”, diz. “Leite materno é a poção mágica mais maravilhosa que existe, é gratuito, é perfeito para o bebê, mas muitas pessoas e profissionais da área da saúde ainda insistem em não valorizar, não apoiar e ridicularizar esse vínculo tão importante entre mãe e filho”, conta Aline, que ainda destaca. “Entre o início e o fim da amamentação, independentemente do tempo que durar, existe amor, afeto, acolhimento, entrega e confiança. Excluir o dito popular “ainda mama” já seria o início de um apoio mais acolhedor, porque realmente não é fácil amamentar, mas mais difícil ainda é ter que se justificar. Viva o tete!”, alerta.
A fisioterapeuta Liliane Cristina de Paiva Mota, de 39 anos, também preserva a importância da amamentação, principalmente para os bebês prematuros, como foi seu caso. Ela passou 69 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal da Maternidade de Campinas com os gêmeos Danilo e Melissa, prematuros de 31 semanas. Durante o período, Liliane tirava o leite seis vezes por dia para poder suprir os filhos. “Fazia estoque do meu leite quando chegava em casa para não faltar. Para o prematuro, o leite protege de uma série de infecções que ele está sujeito no hospital. Foi por isso que meus filhos conseguiram sair bem e saudáveis da UTI”, destaca a mãezona. Hoje, os dois estão com 1 ano e 4 meses e bem fortes. “Virei uma leoa porque tinha que amamentar meus filhos e me desdobrei para conseguir. Além disso, achei forças também com as doadoras de leite da Maternidade porque elas amamentavam os filhos em casa e ainda mandavam o excesso para doação. Faz muita diferença para os bebês que estão internados”, diz Liliane.

Banco de leite
Para incentivar a conscientização sobre a importância da amamentação e da nutrição dos bebês, o Hospital Maternidade de Campinas já se preocupava com essa questão desde 1993, quando inaugurou as atividades de seu Centro de Lactação - Banco de Leite Humano (BLH). O esforço nacional da campanha está sendo usado pela Maternidade para intensificar o estímulo às mães a doarem sua produção excedente para alimentar, principalmente, os bebês internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e na Unidade de Cuidados Intermediários Neonatal (UCI). O hospital tem 40 leitos para bebês prematuros, dos quais 22 são destinados à saúde pública (Sistema Único de Saúde - SUS). O estoque ideal para suprir a demanda é de 200 litros mensais, mas, durante o Inverno, há uma queda significativa, que varia de 30% a 50% nas doações. “A campanha mundial é feita para empoderar mães e pais, favorecer a amamentação para hoje e o futuro. O nome Agosto Dourado é porque o leite é considerado como um ouro para nutrir o bebê, sendo o único alimento mais rico e suficiente para a criança”, diz a coordenadora do Banco de Leite Humano, Olívia Favaro, que lista as vantagens do aleitamento materno. “Para as crianças, diminui quadros de infecção, alergias, fortalece o bebê porque recebe os anticorpos da mãe, evita diarréias e pneumonias. Crianças amamentadas são mais inteligentes”, pontua. Já para as mães, diminui a chance de câncer de mama e útero. O leite materno só é liberado para a doação após passar por um processo de pasteurização e análise de qualidade.

Como doar
Para ser doadora é necessário que a mãe seja saudável, que esteja amamentando o próprio filho e que tenha uma produção excedente de leite após a mamada. O contato pode ser feito diretamente com o Banco de Leite Humano da Maternidade de Campinas pelo telefone (19) 3306-6039, para o preenchimento do cadastro. A coleta de leite materno não se limita às mães que tenham feito seus partos na Maternidade de Campinas. As doações também podem ser retiradas nas residências das mães que moram em outros municípios da Região Metropolitana de Campinas. Todo o material necessário para a coleta e a estocagem - que podem ser feitas pela doadora em sua própria residência - é fornecido pelo hospital. O leite doado é transportado para o Banco de Leite em caixas isotérmicas com gelo (geloc) e com controle de temperatura feito por termômetro digital. Para ampliar a coleta na região, o ideal seria que o hospital também tivesse um veículo exclusivo para isso. “O hospital precisa da ajuda da sociedade e da iniciativa privada para conseguir recursos para a compra de um novo veículo para esse fim”, explica o presidente da Maternidade de Campinas, Dr. Carlos Ferraz.

Sobre o Banco de Leite Humano
O Banco de Leite Humano da Maternidade de Campinas iniciou suas atividades em fevereiro de 1993, a partir da necessidade de manter o aleitamento materno, principalmente para os bebês internados na UTI Neonatal, além de prestar auxílio às mães no pós-parto com dificuldade para amamentar. O serviço conta com estrutura e equipamentos específicos para o processamento e armazenamento do leite, além de uma sala de Apoio à Amamentação. Um dos diferenciais do BLH da Maternidade é o uso, desde junho de 2016, de bombas elétricas para auxiliar no processo. A tecnologia permitiu aumentar a captação e, consequentemente, a distribuição do leite materno aos recém-nascidos prematuros.

Escrito por:

Daniela Nucci