Publicado 24/08/2019 - 16h12 - Atualizado 24/08/2019 - 16h12

Por Estadão Conteúdo

Yara de Novaes (à esquerda) e Débora Falabella em cena da peça 'Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante'

Vitor Zorzal/Divulgação

Yara de Novaes (à esquerda) e Débora Falabella em cena da peça 'Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante'

Em uma rodovia abandonada, exatamente no km 23, uma vigia encontra, jogada no asfalto, uma garota que delira, depois de ter sido violentada naquela noite, lindamente estrelada. "O fato não é tão espantoso porque justamente naquele quilômetro é comum as mulheres serem estupradas", observa a atriz Yara de Novaes, que interpreta a vigia em "Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante", texto inédito de Silvia Gomez que estreou na sexta-feira, 23, no Sesc Consolação.
A sensação de estranhamento, portanto, que inicialmente se espalha pelo público, logo é amainada pela descoberta do jogo entre as duas mulheres: trata-se, na verdade, de uma encenação, em que uma linguagem não realista e poética, temperada por um humor ácido, é o caminho para o texto discutir as relações de dominação e resistência, de conflito e poder, praticadas pela humanidade desde tempos imemoriais. "O assunto é grave, com certeza. Mas tratamos com um certo distanciamento, um pouco de ironia e uma trilha sonora marcada por música pop", completa Débora Falabella, que vive a garota delirante.
A referência musical não é à toa: além das duas atrizes, o palco é também ocupado pela banda boliviana Las Majas, que toca ao vivo a trilha composta por Lucas Santtana dialogando com as personagens. "Nós as conhecemos quando fizemos a primeira leitura do texto, justamente na Bolívia, em Santa Cruz de la Sierra", explica o diretor Gabriel Fontes Paiva. "O texto da Silvia sugere a presença de um grupo musical em cena e logo percebemos que essas moças, que têm uma formação clássica, ofereciam o som esperado."
Assim, quando os espectadores entram no teatro, encontram a dupla de atrizes e as quatro musicistas executando um aquecimento com varas de bambu, coreografia criada por Ana Paula Lopez. Logo, o clima dramatúrgico se estabelece, mas é constantemente quebrado por elas. "Em determinados momentos, a vigia assume a direção, palpitando na iluminação, pedindo outras canções para a banda", conta Yara, que forma, ao lado de Débora e Gabriel Paiva, o Grupo 3 de Teatro, responsável por alguns dos mais instigantes espetáculos dos últimos anos, como Contrações (2013), com direção de Grace Passô, e Love Love Love (2017), dirigido por Eric Lenate.
"Será meu primeiro texto encenado pelo grupo, o que me deixa nervosa", brinca Silvia Gomez, cujas peças marcadas pela forte presença de alegorias a transformam em uma das principais dramaturgas brasileiras contemporâneas - ela assina textos com títulos instigantes, como O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade, O Amor e Outros Estranhos Rumores, Marte, Você Está Aí? e Mantenha Fora do Alcance do Bebê.
Em "Neste Mundo Louco...", ela se inspirou em uma tragédia ocorrida no Piauí, em 2015, quando quatro meninas foram estupradas e jogadas em um abismo. "Acho que a peça é um desabafo, alegoria, uma resposta artística a essa realidade, buscando falar dela em outra camada: escrevo sobre um encontro entre duas mulheres num km abandonado do Brasil", comenta. "Uma delas acaba de ser violentada e, no delírio da violência, fala. Busco no delírio um diálogo com a realidade impossível de alcançar. De que sintoma complexo do nosso tempo e do nosso País as estatísticas falam? Não tenho respostas exatas, mas muita perplexidade e perguntas que procuro elaborar na cena absurda."
O tema é delicado, duro, difícil de ser absorvido, mas as mulheres em cena e a que assina o texto optaram pela via do humor ácido para lidar com uma linguagem não realista, mas extremamente poética. "A graça nasce justamente do impasse em que as personagens se colocam", explica Débora. "Daí o fato de ser involuntário", completa Yara.
Segundo elas, a peça é um espelho de uma realidade que, de tão difícil de ser enfrentada, encontra saída pela arte teatral. "É a liberdade que temos em cena que nos permite lidar com o presente e até imaginar o futuro", comenta Gabriel Paiva.
À medida em que é apresentado, o texto revela sua dualidade ao se mostrar ao mesmo tempo político e psicológico, local e universal. "Em geral, encontro personagens em situações de limite pessoal, emocional, às vezes, físico. Nesse lugar, onde as convenções parecem de repente suspensas, uma espécie de lucidez-delirante - assim mesmo, contraditória - toma corpo nas relações e na fala perplexa. Aquilo que não gostamos de dizer vem à tona, as palavras ficam perigosas e, ao mesmo tempo, quase engraçadas - há uma espécie de humor instável nascido do impasse", acrescenta a dramaturga, em texto de divulgação do espetáculo.
Serviço
O quê: peça "Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante"
Quando: às sextas e sábados, 21h; domingos, 18h. Até 8/10
Onde: Teatro Anchieta - Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo) 
Quanto: R$ 20,00

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Estadão Conteúdo