Publicado 15/08/2019 - 12h23 - Atualizado 15/08/2019 - 12h24

Por Cláudia Antonelli

Pais e filhas

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Pais e filhas

Ele lia Santo Agostinho sentado à cama do hospital. Pousou o pequeno livro sobre o lençol branco em seu colo, levantou o olhar à frente, pensativo, por cima dos óculos de leitura.
Era um homem forte, por dentro e por fora; de caráter e de corpo. Tinha sido também um homem bastante atraente; ainda era. Não que fosse intencional – era até bastante indiferente às coisas da beleza pessoal. Mas era bonito, naturalmente. E era também alguém sensível na alma - sempre gostara de boas leituras. Gostava de ler algumas passagens à filha, quando ainda moravam juntos em família.
Havia se apaixonado algumas vezes. Amado, talvez uma: sua mulher. Amor, ele sabia a esta altura, era uma construção; um se construir junto, para além da paixão. Não eram estas as palavras que ele usava quando pensava sobre isto. Mas o sentia, e o vivia: estar junto de alguém, era um compromisso. E com Adélia, ele havia se comprometido.
Tiveram uma filha - que o observava neste momento, encostada ao batente da porta do quarto. Ele seguia olhando o nada e o tudo à sua frente, pensativo, e ela o observava em silêncio.
Era difícil este momento. Como deixá-lo ir? Não haviam lhe dado uma opção. Como romper a convivência com uma vida como aquela – tão próxima à dela; tão próximo a ela. Ele era o seu pai.
Deixá-lo ir, era mais do que ela poderia conseguir. Não. A palavra, enroscada na garganta, surda mas alta como em cem alto falantes, era não.
Ambos permaneciam em silêncio. O hospital, apesar de hospital, era silencioso também. Às vezes alguma palavra de um pensamento dele saía balbuciada naqueles lábios agora um pouco ressecados. “Viajantes”, ela reconheceu.
Ele lia para si:
“Não vês que somos viajantes?
E tu me perguntas: Que é viajar?
Eu respondo com uma palavra: é avançar!
Experimentais isto em ti:
Que nunca te satisfaças com aquilo que és
Para que sejas um dia aquilo que ainda não és.
Avança sempre! Não fiques parado no caminho.”
Ah essas fatalidades que arrancam a vida de quem não se espera. Como se de um momento a outro, devêssemos nos entregar ou entregar alguém, a este todo desconhecido. Sem preparo, sem tempo, sem força - sem nenhum alento.
Laura se lembrava de quando, muito pequena, se sentava sobre seus ombros, as pernas soltas à frente, os bracinhos agarrados à sua cabeça. Poderiam andar o mundo todo assim, ela pensava – naquele tempo em que ainda não pensava muito, mas sentia, como agora. Ou de quando ela, dentro da piscina, se segurava aos pés dele sentado à borda. Os pés fortes de seu pai na água fresca e frágil da piscina, como ela.
Tantos foram os momentos em que ela se segurou a ele. Ele a ensinara a dirigir, quando ela ainda precisava colocar uma almofada sobre o banco do motorista para enxergar o asfalto. Ele queria que ela soubesse fazer tudo aquilo – ou bastante daquilo - que um homem fazia; “não queria vê-la em desvantagem”. Entre tantas outras coisas, ele a ensinara a entender as direções e as coordenadas geográficas; o nome de algumas estrelas; a gostar de ler.
Em realidade, no fundo, ele a ensinara a ser livre e a viver. A não ter medo de viver. “Somente depois, tempos depois, entenderemos tantos momentos de nossa vida”, ele lhe dizia. Era verdade, ela pensou ainda encostada naquele prédio frio e de paredes claras. Ele seguia lendo. Era um pequeno exemplar antigo, de páginas um pouco amareladas, que quase cabiam em uma única mão. A mesma mão que ela havia segurado tantas e tantas vezes ao longo de sua vida de criança e de jovem.
Ela seguia olhando-o, sem nenhum outro compromisso ou pensamento. Como se tentasse absorver ali, naquele momento, sua presença por inteiro – quisera que para sempre. Uma lágrima saiu de seus olhos, sem esforço; e dos dele também. Às vezes a vida nos pede demais, ela pensou agora atravessada por uma mistura de raiva e indignação.
Ele abaixou novamente o livro sobre o colo. Sem vê-los, ela parecia enxergar seus olhos verdes, e seu olhar. Ultimamente, era um homem de poucos gestos, seus movimentos agora mais econômicos.
Ela agora pensou em entrar; este exercício de silêncio e ausência já lhe havia sido longo demais. Ela se aproximou, ao lado do leito; um feixe de sol incidia sobre ele. Era dolorido vê-lo – este feixe de sol quente, macio, sobre o corpo de seu pai coberto por lençóis brancos. Ele a viu, retirou os óculos, e esboçou seu belo sorriso.
Num lapso momentâneo, sabe-se lá de onde saído, talvez dos meandros de seu mundo interno mais profundo, deslizando suas mãos sobre seu próprio ventre, ela lhe disse:
- Seu filho, pai.
Foi um breve momento de confusão, talvez. Não era filho dele, era o filho dela. Por um instante humano, ela havia cortado as distâncias que separavam as gerações e o tempo. Ela sempre soube que ele quisera também um menino, depois de Laura. Um menino que até então, não tinha vindo. Mas agora, um dia logo, um menino - seu neto -chegaria. Talvez ele não o visse.
Ele entendeu. E calmamente, juntou sua mão às dela.

Escrito por:

Cláudia Antonelli