Publicado 14/08/2019 - 11h42 - Atualizado 14/08/2019 - 11h42

Por Aquiles Reis

A voz e o violão de Zé Luiz Mazziotti

Divulgação

A voz e o violão de Zé Luiz Mazziotti

Uma ótima notícia aos que têm o privilégio de conhecer o cantor, violonista e compositor José Luiz Mazziotti. Para quem ainda não desfrutou do talento desse paulista de Rio Claro, convém ouvir depressa o seu recém-lançado A Roma (Kuarup) – CD gravado na Itália em 1992, mas que somente agora, dezenove anos depois, chega aos fãs.
A voz de Zé Luiz Mazziotti tem o poder de ser duas: ao vivo, quando necessário, tem a potência de um cantar aberto – daquele que pode até prescindir de um microfone. E pode também cantar com a mesma delicadeza com a qual João Gilberto estabeleceu um novo jeito de interpretar. A sonoridade da voz do Zé tem um timbre que é só dele, e ninguém tasca!
E o que é o violão tocado pelo Zé? Vixe! Conhecido como cantor e compositor, fiz questão de acrescentar o violão como mais um de seus atributos. E dos bons!
O repertório do álbum está à altura de sua voz aveludada, nos graves e nos agudos, o que faz com que as catorze músicas selecionadas pareçam ter nascido para serem cantadas por ele. Como se tivessem aguardado sua voz para se fazerem definitivas. E é a simplicidade da voz com o violão que atinge o mérito de descrever a música como foi concebida.
Mar de Copacabana (Gilberto Gil) tem intro do violão. Logo Zé Luiz Mazziotti apresenta sua voz anasalada, encorpada.
Na Boca da Noite (Toquinho e Paulo Vanzolini): o violão vem delicado como a voz – em crescente emoção. Beleza indo até aonde a vista alcança.
Choro Bandido (Edu Lobo e Chico Buarque) tem ZLM entregando seus atributos à obra-prima, que agora tem a sua assinatura.
Cobras e Lagartos (Suely Costa e Hermínio Bello de Carvalho) tem a despedida como tema tratado com doçura por ZLM.
Outra Vez, um Tom Jobim que marcou a bossa nova, e que hoje é revigorada pelo violão e pela voz do Zé, com divisões supimpas.
Lembrança (Ivan Lins, Vitor Martins e Gilson Peranzzetta): ZLM mostra sua classe.
Todos os Mares (Moacyr Luz e Aldir Blanc) traz a clareza da dicção de ZLM. E a afinação surfa na busca correta pelas notas que ondulam no swell.
Anos Dourados (Tom Jobim e Chico Buarque): outra obra-prima à qual Zé agregou ainda mais virtudes.
Dança da Solidão (Paulinho da Viola): indo à beleza como se fosse um prato de comida, ZLM confirma sua capacidade de tornar um clássico ainda mais belo.
Deixei para o final Amor ao Ofício (Zé Luiz Mazziotti e Sérgio Natureza). Música confessional com a força de versos explosivos, de esperança e de desilusão, de cantar ou de calar: “(...) Eu choro até mais que rio/ Mas canto, e consigo por isso ficar vivo/ E viver do que faço/ Da magia, do encanto,/ Do prazer de cantar/ Tanto quanto for preciso (...)”.
A Roma é disco para ser ouvido como se Mazziotti estivesse em sua casa. Entre um drinque e outro, você papeia com ele e sente que o cara canta como fala: voz harmônica rolando garganta afora, atenta a harmonias e melodias – mas sem esquecer o poder das palavras e seus significados.

Escrito por:

Aquiles Reis