Publicado 18/08/2019 - 13h25 - Atualizado 18/08/2019 - 13h25

Por Daniel de Camargo

A Azul Linhas Aéreas informou que os preços de seus bilhetes variam de acordo com alguns fatores importantes, como trecho e sazonalidade

Cedoc/RAC

A Azul Linhas Aéreas informou que os preços de seus bilhetes variam de acordo com alguns fatores importantes, como trecho e sazonalidade

Os altos valores praticados pela Azul Linhas Aéreas na comercialização de bilhetes no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, se comparados aos das companhias que operam em Congonhas e Cumbica, são motivo de indignação de passageiros da Região Metropolitana de Campinas (RMC) há mais de um ano. O vice-presidente do Conselho de Desenvolvimento da RMC e prefeito de Jaguariúna, Gustavo Reis (MDB), reforça o coro dos descontentes com a diferença de preços.
Gustavo Reis reforça o coro dos descontentes com a diferença de preços
Reis revela que em 2018, os chefes do Executivo da região cobraram explicações de um superintendente da Aeroportos Brasil Viracopos, concessionária que administra o terminal. "Na oportunidade, nos foi esclarecido que Viracopos não tem interferência nisso. O problema é o monopólio da Azul", comentou. "Posteriormente, buscamos por meio da Agência Metropolitana de Campinas (Agemcamp) agendar uma reunião com o José Mario Caprioli, presidente executivo da Azul. Até hoje, não se concretizou", completou.
A intenção do encontro era sensibilizar a companhia aérea de que um custo final menor seria mais acessível e, consequentemente, poderia gerar aumento na demanda de passageiros. No caso, ampliando o faturamento. Como o cenário permanece o mesmo do ano passado, nas palavras de Reis, a população da RMC segue sendo "penalizada" há muito tempo. O assunto será retomado no próximo encontro do colegiado, que acontece nesta terça, em Campinas.
De acordo com o vice-presidente do Conselho da RMC, Viracopos dispõe de estrutura fantástica, que propicia conforto aos seus passageiros. Contudo, a diferença de valores, que em diversos casos é considerável — ainda mais no momento de crise que o País atravessa —, obriga muitas pessoas a realizar o deslocamento para embarcar por Congonhas ou Cumbica — e ainda assim ecomizar na viagem aérea.
No último dia 31, durante o Fórum RAC 2019, evento idealizado e organizado pelo Grupo RAC, que debateu os desafios e oportunidades para os setores de transporte e logística no Estado de São Paulo, Reis questionou o diretor de operações da Aeroportos Brasil Viracopos, Marcelo Oliveira Mota, sobre o assunto. O executivo revelou que a concessionária já trabalha para quebrar o controle da Azul, trazendo novas companhias. "Estamos até oferecendo incentivos: abrindo mão de receitas", destacou, na ocasião, sobre as negociações já abertas com outras empresas do setor.
A Azul Linhas Aéreas informou, em nota, que "os preços praticados na comercialização de seus bilhetes variam de acordo com alguns fatores importantes, como trecho, sazonalidade, compra antecipada, disponibilidade de assentos, entre outros. Além disso, a companhia ressalta que as altas do dólar e do combustível também são elementos que influenciam nos valores das passagens". A Azul não informou por que não se reuniu com o Conselho de Desenvolvimento da RMC.
Mais caro
Na tarde da última sexta-feira, a Azul Linhas Áreas registrava, segundo seu próprio site, bilhetes cerca de 17% mais caros no voo da companhia com partida de Viracopos, se comparado ao do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, com destino ao Aeroporto Internacional de Salvador, na capital baiana. Essa diferença foi constatada numa simulação de compra de uma passagem só de ida para a próxima sexta-feira, ou seja, uma semana depois.
Para quem adquiriu o bilhete e vai partir de Guarulhos, houve uma economia de R$ 136,32. No caso, o passageiro pagou R$ 707,86. Quem optou por sair de Campinas desembolsou R$ 844,18. Ambas as operações dão direito ao viajante levar uma bagagem de até 23 kg. Outra opção com partida de Guarulhos, o voo da companhia Latam para a mesma data e destino custava R$ 591,96, também com a taxa de embarque. Nesta comparação, o voo com saída de Viracopos ficou R$ 252,22 mais caro.
A diferença é mais gritante nos voos internacionais. Uma viagem pela Azul com uma escala saindo de Campinas para Fort Lauderdale, na Flórida, nos Estados Unidos, custava R$ 3.486,97. Já pela Avianca, também com uma escala, partindo de Guarulhos, R$ 2.394,46, ou seja, quase 68% (R$ 1.092,51) a menos.
Companhias é que definem as tarifas
Consultada sobre a situação, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) frisou, em nota, que a Azul Linhas Aéreas não é membro da entidade criada em 2012, com a missão de estimular o hábito de voar no Brasil. Sobre a composição do preço dos bilhetes, esclareceu que não há nada fixo. "Os valores das passagens são definidos por cada companhia aérea utilizando sistemas dinâmicos de precificação, ferramentas captam as muitas possíveis variáveis do mercado”, detalha o texto.
Na prática, de acordo com a Abear, as tarifas oscilam também devido a relação entre os níveis de oferta e demanda. A instituição recomenda que os consumidores que buscam viajar de avião pelos preços mais econômicos possíveis, planejem suas viagens, comprando os bilhetes com antecedência e aproveitem promoções, entre outros. Procurada, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) não retornou o contato até o fechamento da edição.
Novas aéreas ajudariam o mercado
Para o presidente da Associação das Agências de Viagens do Interior do Estado de São Paulo (Aviesp), Marcos Antônio Carvalho Lucas, seria saudável para todo o mercado que novas companhias aéreas passem a operar em Viracopos. “Quanto maior a concorrência, a tendência é termos preços menores e serviços melhores”, pondera. Marcos Lucas cita Congonhas como exemplo. “Havia uma grande discussão lá por conta da alta nos preços da ponte aérea após a saída da Avianca Brasil. Em abril, as tarifas chegaram a ter uma alta de 69%, segundo a Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (Abracorp)”, recorda.
“Apenas um dia após a Azul anunciar a sua entrada na rota, os preços caíram 42%”, relembra. O presidente da Aviesp assegura que quando não há concorrência, todo mundo perde. Marcos Lucas garante que a Aviesp não tem como interferir junto a Azul, mas que batalha para melhorar as condições do mercado em todas as suas vertentes. “A Aviesp também acompanha a atuação do órgão regulador (Anac), que em diversos momentos se mostra lenta nas intervenções para fazer valer os direitos do consumidor, especialmente quando da inexecução de serviços concedidos”, encerra.
Ônibus é uma das opções de deslocamento
Julia Zink (à esq.) e Vivian Queiroz: preços menores em Congonhas
Muitos moradores da RMC que fogem das altas tarifas aéreas praticadas pela Azul em Viracopos preferem não dirigir até a Capital ou Guarulhos. Por essa razão, tanto quanto para evitar possíveis gastos com estacionamento, acabam optando por viajar com a viação LiraBus, que faz o serviço de transporte para os aeroportos dessas cidades durante a madrugada, manhã, tarde e noite.
A empresa, segundo dados do seu site oficial, realiza 20 viagens diárias, nos dias úteis, de Campinas para o Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos. Desse total, duas são diretas, com partida da rodoviária, e outras 18 fazem parada no ponto da empresa na Avenida Francisco Glicério, nº 431, próximo ao Largo do Pará, no Centro.
A demanda é alta também aos sábados, domingos e feriados, quando o número de viagens cai para 16. Já para o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a viação oferta nove viagens diárias, nos dias úteis, todas com parada no Largo do Pará. Aos sábados, domingos e feriados, são oito viagens. Para ambos os destinos, a LiraBus estima duas horas como tempo de viagem e cobra passagens em torno de R$ 40.
Na manhã da última sexta-feira, duas amigas que aguardavam um dos ônibus da empresa para ir até Congonhas, de onde embarcariam para o Rio de Janeiro, reforçaram que viajar por Viracopos é “muito” mais caro. Ambas foram para a capital carioca para passar o final de semana, onde iriam curtir a despedida de solteira de uma colega em comum. Vivian Queiroz, engenheira civil de 28 anos, que mora na Vila Brandina, comentou que após pesquisa em sites de viagem, constatou que optando pelo aeroporto paulistano conseguiria economizar até R$ 300.
Julia Zink, educadora física de 29 anos, moradora do Guanabara, pontuou que outros convidados que também são de Campinas fizeram a mesma opção. “Vamos nos encontrar todos em Congonhas. Aqui o bilhete aéreo é sempre mais caro. Viracopos tem ótima estrutura, mas o valor das passagens da Azul não compensa”, afirmou.
As jovens revelaram que os bilhetes aéreos foram adquiridos com, no mínimo, dois meses de antecedência da data da viagem. A assessoria de imprensa da LiraBus informou, em nota, que nos primeiros sete meses de 2019, registrou média diária de mais de mil passageiros transportados de Campinas para o Aeroporto de Cumbica. Para Congonhas, a quantidade foi sempre superior à 250 passageiros.

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Daniel de Camargo