Publicado 06/08/2019 - 11h02 - Atualizado 06/08/2019 - 11h03

Por Francisco Lima Neto

O combate ao desperdício de água é uma das ações que contribuem para a conservação dos mananciais

Leandro Ferreira/AAN

O combate ao desperdício de água é uma das ações que contribuem para a conservação dos mananciais

A falta de água que milhões de brasileiros, de diversas regiões, enfrentam diariamente e que afeta a produção de energia hidroelétrica, acaba de ser comprovada pelo novo relatório do World Resources Institute (Instituto Mundial de Recursos, em tradução livre). O trabalho mapeou 189 países do mundo, incluindo seus estados e municípios. O estudo mostra que o Brasil, como um todo, não está entre os que mais sofrerão com a falta de água no futuro. Porém algumas de suas principais cidades, sim: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, Recife, Vitória e Campinas, estão em áreas de risco hídrico alto, de acordo com o estudo.
"O estresse hídrico é a maior crise, da qual ninguém fala. Suas consequências estão à vista sob a forma de insegurança alimentar, conflitos, migração e instabilidade financeira" , alerta Andrew Steer, presidente e CEO do World Resources Institute.
O estresse hídrico, em poucas palavras, é quando há maior consumo de água do que a natureza é capaz de oferecer. "A região de Campinas tem risco de sofrer com isso porque tem uma população metropolitana significativa e poucos reservatórios. A maior parte da captação vem a fio d'água, o que depende do fluxo hídrico dos rios da região", explica Rafael Barbieri, biólogo e economista do WRI.
Ainda segundo ele, outro fator que agrava o problema na região tem a ver com o uso e ocupação do solo e o baixo percentual de vegetação nativa. "A cobertura vegetal é muito aquém do que deveria ter, principalmente, nas cabeceiras dos rios. Além disso, há um grande uso industrial e agrícola. A combinação desses fatores faz com que a região esteja em sinal de alerta", ressalta o biólogo, lembrando que as perdas nos sistemas de distribuição também contribui para a situação.
O estudo é feito a partir de vários bancos de dados e os principais itens analisados são a quantidade de água no subsolo, sazonalidade climática, proteção das cabeceiras dos rios e a quantidade de anfíbios ameaçados.
O mapa do risco da água no Brasil mostra áreas no interior do Nordeste, com um longo histórico de estresse hídrico em função de suas condições de clima e geologia, mas também regiões onde esse risco é claramente resultado da ação humana. Fatores como consumo excessivo, desperdício, a atual crise climática, a degradação das áreas de captação dos sistemas de fornecimento e o desmatamento Amazônia, que tem papel regulador das chuvas no país, estão colocando as regiões mais populosas do Brasil em risco.
O Atlas Aqueduct de Risco Hídrico mostra que 17 países, que abrigam um quarto da população mundial, enfrentam um estresse hídrico "extremamente alto". Nesses países, a agricultura, a indústria e municipalidades estão consumindo 80% das águas superficiais e subterrâneas disponíveis em um ano médio. Quando a demanda rivaliza com a oferta, mesmo pequenos choques de secas — que devem aumentar devido à crise climática — podem produzir consequências terríveis.
O relatório do WRI também identifica os pontos onde há maior risco de falta d’água no mundo, como, por exemplo, na região do Oriente Médio e Norte da África (MENA), onde ficam 12 dos 17 países que enfrentam estresse "extremamente alto". Nelas, especialistas identificaram a escassez de água como um dos principais fatores de conflito e migração. O norte da Índia, por sua vez, enfrenta um severo esgotamento da água subterrânea que pode ser visualizado nos mapas do Aqueduct e, por isso, a região foi incluída em cálculos de estresse hídrico pela primeira vez. No caso do Brasil, esses pontos estão mais concentrados no Nordeste, onde fica o semiárido, mas também no Planalto Central e ao leste da região Sudeste, onde ficam São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Campinas.
O Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), informou que trata as Bacias PCJ como estresse hídrico crônico desde que foi fundado, em 1989.
Recuperação
O estudo aponta que já há tecnologias capazes de reduzir ou reverter o problema. "No caso do Brasil, por exemplo, nossos estudos mostram que investir em infraestrutura natural, ou seja, na restauração florestal para oferta de serviços ambientais, melhora a qualidade da água que chega aos reservatórios, o que pode facilitar a capacidade dos governos a se prepararem para crises", destaca Rachel Biderman, diretora-executiva do WRI Brasil.
"Temos estudos que mostram como o investimento na recuperação florestal de áreas de captação de água em São Paulo e no Rio de Janeiro torna os sistemas de abastecimento mais eficientes e resilientes" , informa Rachel. "Estamos finalizando um estudo em Vitória com resultados igualmente animadores. Ou seja, sabemos como enfrentar esse risco hídrico sistêmico que tende a se agravar com a crise climática. Basta vontade política para fazer" , completa.
Ferramenta Aqueduct é uma referência mundial
Lançada em 2013 pelo WRI, a ferramenta Aqueduct é usada por mais de 50 mil pessoas e 300 empresas por ano. Ela utiliza uma metodologia robusta, revisada por pares, e as melhores informações disponíveis para criar mapas globais personalizáveis. A ferramenta classifica estresse hídrico, risco de seca e risco de inundações ribeirinhas em 189 países e suas regiões subnacionais, como estados e municípios.
"A ferramenta Aqueduct foi atualizada e agora permite que os usuários vejam e compreendam melhor os riscos hídricos e tomem melhores decisões para gerenciar esses riscos. Uma nova geração de soluções está surgindo, mas precisamos de uma resposta que seja proporcional ao estresse que estamos vendo", ressalta Andrew Steer, Presidente e CEO do World Resources Institute.
O WRI Brasil é um instituto que transforma ideias em ações para promover a proteção do meio ambiente. Alia excelência técnica à articulação política e trabalha em parceria com governos, empresas, academia e sociedade civil.

Escrito por:

Francisco Lima Neto