Publicado 04/08/2019 - 08h41 - Atualizado 04/08/2019 - 08h51

Por Francisco Lima Neto

"Comecei todo o projeto em 1982, ficou pronto em 1984 e em 1985 começou a funcionar", conta Tojal

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"Comecei todo o projeto em 1982, ficou pronto em 1984 e em 1985 começou a funcionar", conta Tojal

O campineiro João Batista Tojal, uma lenda por ter fundado a Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, o que abriu caminho para a criação da profissão de educador físico, no alto de seus 75 anos, acaba de se tornar um imortal. Desde janeiro, Tojal passou a integrar a recém-criada Academia Brasileira de Educação Física (Abef).
A Abef foi criada no dia 11 de janeiro deste ano, na cidade Foz do Iguaçu, no Paraná, durante evento de comemoração dos 70 anos da Fédération Internationale d’Education Physique (Fiep). O projeto vinha sendo idealizado desde 2008, com o objetivo de imortalizar os profissionais que são referência na profissão por suas obras, lutas e legados.
A Academia conta com 34 cadeiras. Foram nomeados 34 importantes profissionais já falecidos. Apenas dois vivos receberam essa honra até agora. Nada mais justo que Tojal tenha sido o primeiro deles.
Tojal é um ícone no seu meio de atuação, praticamente uma lenda. Graças a ele, em julho de 1985, foi fundada a Faculdade de Educação Física da Unicamp, criando assim o primeiro bacharelado na área em todo o País e, consequentemente, a profissão.
O icônico docente, ainda jovem, sempre quis trabalhar com esportes. Um professor o levou para estudar na capital, na então Faculdade de Educação do Estado de São Paulo. “O curso era embaixo da arquibancada no Ibirapuera. Depois virou a Universidade de São Paulo (USP)”, lembra.
“Eu falei para ele que não ia estudar em São Paulo, porque tinha que ficar em Campinas para ajudar meu pai. No ano seguinte, 1968, ele falou que eu ia fazer educação física no Clube da Mogiana em Campinas” conta.
Também não deu certo e ele acabou indo estudar na PUC-Campinas. Se formou em Ciências e Letras, curso Educação Física, em 1970.
Em 69, Tojal começou a trabalhar na Unicamp, no Centro Adolfo Lutz, na área de Medicina. Em 71, um decreto federal tornava obrigatória a Educação Física em todos os níveis e, no Ensino Superior, deveria ser desenvolvida como prática desportiva.
Logo, ele foi convidado para trabalhar na Assessoria Técnica da Reitoria para a Educação Física e Esportes (Atrefe). Começou a nascer ali um embrião da FEF, mas havia resistência de todos os lados.
O curso era visto pelo como “coisa de tecnólogo”. O preconceito, em parte, vinha do fato de o curso de Educação Física só ter adquirido o status de nível superior na segunda metade da década de 50.
Todas as propostas de instalação da unidade eram podadas pelo reitor Zeferino Vaz. Ofícios nesse sentido voltavam com o recado curto e grosso: “lamento, mas impossível atender”, segundo a própria Unicamp.
De acordo com a universidade, o núcleo inicial do que mais tarde seria a FEF começou a se delinear em 1968/69, quando os professores João Batista Tojal e Carlos Luiz Mossa davam aulas de treinamento esportivo para as turmas de Medicina no Clube Fonte São Paulo, localizado no Guanabara.
Três anos depois, quando foi criada a Atrefe, cuja sede funcionava no Colégio Técnico Bento Quirino (Rua Culto à Ciência), as aulas passaram a ser ministradas na então longínqua praça de esportes do bairro São Bernardo.
A situação dos alunos e dos professores só não era mais desconfortável porque, na época, algumas unidades funcionavam na região central de Campinas, e a universidade oferecia ônibus fretados para esse deslocamento.
O campus não passava de um canavial sem fim. Entretanto, o rápido crescimento da universidade, com a instalação das primeiras unidades em Barão Geraldo, tornava urgente uma solução.
Quadras
Atento à crescente demanda, o primeiro coordenador da Atrefe, professor Idílio Alcântara de Oliveira Abate, solicitou a Zeferino um local adequado para a prática esportiva. Em dois anos - 1972 e 1973 - foram construídas 13 quadras, dois vestiários e um prédio para abrigar a sede da unidade, cujo funcionamento teve início em 1974.
Três professores foram destacados para auxiliar Tojal e Mossa: Maria Lúcia Guedes Pinto Francischetti, Otávio Nogueira de Camargo - que já atuavam no Colégio Técnico - e Milton Arrivabene, que foi contratado. À medida que novos cursos foram sendo criados, à Atrefe eram incorporados professores para dar conta do grande número de alunos, a tal ponto que o órgão, vinculado à Reitoria, chegou a ter 33 profissionais para ministrar aulas de Educação Física nos campi de Campinas, Limeira e Piracicaba.
Tojal, no entanto, não tinha desistido de sua ideia inicial. Em 81, durante um jantar na casa do cirurgião vascular John Cook Lane, que naquele dia defendera sua tese de doutorado, o professor revelou ao médico José Aristodemo Pinotti, então diretor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a intenção de criar uma faculdade.
Em abril de 82, Pinotti se tornou reitor. Ele visitou a Atrefe e questionou Tojal se o seu desejo ainda estava em pé. “Eu respondi que claro que sim, e expliquei o processo, e ele me autorizou. Comecei todo o projeto em 82, ficou pronto em 84 e em 85 começou a funcionar” fala orgulhoso.
Durante dois anos, Tojal e os professores Wagner Wey Moreira, Ídico Luiz Pelegrinotti, Bráulio Araújo Júnior e Milton Arrivabene, debruçaram-se sobre as diretrizes do futuro curso. Tojal redigiu de próprio punho o texto que foi entregue ao Conselho Universitário em agosto de 1984, propondo a criação da unidade.
Ele ainda deu aulas durante muito tempo no Culto à Ciência e é vice-presidente do Conselho Federal de Educação Física (Confef) desde a sua fundação, quando a profissão foi regulamentada.

Escrito por:

Francisco Lima Neto