Publicado 09/07/2019 - 14h41 - Atualizado 09/07/2019 - 18h07

Por Do Correio

João Gilberto, junto com Tom Jobim e Vinicius de Moraes, comandou a revolução musical que nasceu no Brasil e se estendeu pelo mundo

AFP

João Gilberto, junto com Tom Jobim e Vinicius de Moraes, comandou a revolução musical que nasceu no Brasil e se estendeu pelo mundo

O Brasil se despediu de João Gilberto nesta segunda-feira. O pai da Bossa Nova morreu no último sábado (6), aos 88 anos. Várias coroas de flores prestaram homenagem ao "mestre dos mestres", como indicava a que foi enviada pela cantora e compositora Rita Lee. Foram inúmeras as homenagens prestadas ao homem que encarnou, junto com o compositor Tom Jobim e o poeta Vinicius de Moraes, a revolução musical que nasceu no Brasil e se estendeu pelo mundo no fim dos anos 1950.
Uma missa foi oficiada pelo padre Omar, reitor do Cristo Redentor do Corcovado. O caixão foi retirado no início da tarde, para ser trasladado à cidade vizinha de Niterói, onde o músico foi enterrado.
Veja o depoimento de dois renomados artistas campineiros sobre a grande perda para o cenário mundial da música.
João Nunes, escritor e jornalista: "João Gilberto é um monumento a ser reverenciado"
Depoimento de João Nunes (foto), escritor e jornalista
Jamais tentei tocar violão. Sabia cantar. Bem. Afinado e boa voz. Mas aos 23 anos, em 1974, decidi aprender a tocar um instrumento. Ajeitei-me na cadeira, fiz posse e comecei a brincar com as cordas, com o som, mão esquerda desenhando posições do manual. De repente, inventei de dar cadência à brincadeira e, sem perceber, estava tocando bossa nova. Na batida do João. Pretensioso, inventei uma música, pois não sabia tocar 'Doralice' nem 'Pra Machucar meu Coração'. Sabia cantar e imitava o sussurro dele, exibindo técnica na emissão do som, mas carregado de emoção: “tá fazendo um ano e meio amor...”, a voz do João feito acalanto dialogando com o sax de Stan Getz, beleza de composição do Tom. Abandonei o violão na cama e pus o disco. Melhor ouvir o LP. Muitas e muitas vezes, até morrer de escutar a nota perfeita, a batida inusitada, a colocação da voz no lugar, tom e dimensão exatas. João Gilberto é um monumento a ser reverenciado. E sem muito discurso. Basta ser econômico e essencial como ele foi.
Maestro Paulo Rowlands: "João Gilberto foi um gênio e, como tal, criou e fez escola"
Depoimento do maestro Paulo Rowlands (foto)
Onde estava a voz aguda de João quando inventou a Bossa Nova? Nos idos de quando cantava como 'crooner' nos Namorados da Lua, talvez, mas por uma boa razão. João Gilberto foi um gênio e, como tal, criou e fez escola com uma sonoridade vocal única, inédita, sussurrada, extremamente afinada e emitida com a habilidade de um cantor de ópera, uma ópera às avessas, claro, de uma voz pequena, precisa e que gerou uma legião de seguidores – ouso imitadores – logo que lançou a novidade (Chico Buarque que o diga!).
A Bossa Nova foi um movimento, uma Escola com ‘E’ maiúscula mesmo, um jeito novo de arranjar, de interpretar e de pensar o samba e a canção popular brasileira. Não é à toa que João brigava se dançassem enquanto cantava. Digo por mim! A música de João eu ouço como quem ouve uma sinfonia, numa sala de concerto!

Escrito por:

Do Correio