Publicado 18/07/2019 - 13h04 - Atualizado 18/07/2019 - 13h04

Por Cláudia Antonelli

Na metade

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Na metade

Estamos na metade do ano. “Incrível como o tempo passa, já estamos na metade do ano!”, ouvimos bastante nesta época. Essa história da metade sempre nos inquieta um pouco. A metade do ano, a metade do jogo, a metade da vida. A meia-idade: “já vivi mais do que irei viver”, também ouvimos bastante, em tom preocupado e a partir daí, geralmente irreversível. A chegada dos 50 anos – a tal metade de um século - geralmente marca presença, física e emocional; por ela ninguém costuma passar muito ileso.
Em realidade, percebo que qualquer coisa na metade costuma ‘causar-nos’ algo. A metade de um curso – “já estamos na metade; agora falta só a outra” – e até mesmo do dia: “Nem vi a manhã passar”.
No entanto, a metade não é o fim e nem significa que as coisas não mudam, ou que o jogo não vira. Pelo contrário. Na emocionante final da Copa América na semana passada, nos últimos minutos do primeiro tempo – portanto, na metade do jogo - tudo estava “em paz” para nós: Brasil vencendo, até ser anunciado um pênalti a favor do Peru, aos 44 minutos – praticamente o último do primeiro tempo. Aí o jogo empatou, e a tensão se instalou. Mas, assim não bastou, e tudo mudou novamente. Houve uma pequena prorrogação e neste pequeno ínterim de alguns minutos ainda no finalzinho do primeiro tempo, o Brasil retomou a honra e a liderança: segundo gol. Que convidou a um terceiro, no segundo tempo, para coroar a bonita vitória. Foi à metade do jogo que tudo mudou. Precisou coragem e garra, mas mudou.
Na metade, muito pode ainda mudar. Importante lembrar-nos a diferença talvez evidente de que “na metade” não é o mesmo que pela metade. Na metade do jogo, do caminho, da vida, tudo pode ainda ser mais intenso, mais verdadeiro, mais de acordo com nós mesmos.
Pela metade seria a contradição disto tudo. É o mal feito, o ruim, o não dedicado – como a meia-verdade, o meio-pronto, o meio-feliz, a meia-garrafa, ou seja, a “meia-boca”. Aqui, a preposição faz toda a diferença (e sempre faz). Na metade ou no meio, muitas vezes é indicativo de ponderação, uma espécie de ‘caminho do meio’ (o que é diferente de no meio do caminho). O termo vem do budismo: a expressão Caminho do Meio teria sido usada por Buda ele mesmo, em seu primeiro discurso para descrever o Nobre Caminho, como o caminho para alcançar o nirvana – que então levaria à libertação, importante princípio norteador da prática budista: o equilíbrio, em vez de se tomar extremos quer seja de austeridades e rigores, quer seja de indulgência sensual (prazeres) somente. Nem tão lá, nem tão cá: o caminho do meio.
Mas o ser humano é por natureza paradoxal e, por outro lado, nem tudo ‘no meio’ tampouco é bom. O demônio do meio-dia (Andrew Solomon, 2000), foi o título de um best-seller que fala sobre a Depressão sob diversos aspectos. O autor (ele mesmo protagonista de uma difícil depressão) se refere ao horário (no título), que costuma ser descrito como ‘o pior do dia’ segundo o relato de muitas pessoas deprimidas. Momento em que a luz do sol incide em seu ângulo mais curto com a Terra, e tudo fica mais nítido, mais claro. E isto pode ser ofuscante – concreta ou metaforicamente falando -, para alguns. “A imagem serve para conjurar a terrível sensação de invasão que acompanha a situação difícil do depressivo(...). A maioria dos demônios – a maioria das formas de angústia – apoia-se na cobertura da noite. A depressão apresenta-se ao fulgor total do sol”, diz o autor.
Esse é um meio, uma metade, nada fértil. Um meio que é de fato a parcialidade da vida. A vida pela metade – a outra, de alguma maneira, roubada do próprio sujeito.
Um dia Freud em sua meia-vida, caminhava e conversava com um jovem poeta, ao largo de um jardim. O jovem lhe dizia que não admirava a beleza das flores, porque estavam fadadas a dali a pouco, morrerem. Freud surpreso, no entanto, lhe assegurou: era preciso usufruir da vida e de todas as coisas, cada vez mais, precisamente porque são efêmeras, exatamente porque não irão durar. O desafio estará aí. Tudo está de passagem e é transitório. Tudo está na vida constantemente se modificando – se aceitarmos enxergar a mudança, no outro, e em nós. Mesmo que na metade do caminho.
Somente sei que cada vez mais, à medida que o dia passa, que o ano avança, que a vida desliza, me identifico com as conhecidas palavras de Fernando Pessoa (em Odes de Ricardo Reis, 1933): “Para ser grande, sê inteiro: Nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.”
Não é fácil, mas quem sabe no segundo tempo deste ano - e da vida, não importando o tempo que ela nos reserva - consigamos ser, na medida do possível, mais intensa, inteira e verdadeiramente nós mesmos. Precisaremos sempre mais coragem. Mas que assim seja, se este for o nosso desejo.

Escrito por:

Cláudia Antonelli