Publicado 17 de Março de 2019 - 10h50

Por Delma Medeiros

O esboço 'Condor', exposto na mostra 'Palimpsesto Mágico', produzidos em cerca de uma hora de sessão de terapia com os autores do livro homônimo

Egas Francisco/Reproduções

O esboço 'Condor', exposto na mostra 'Palimpsesto Mágico', produzidos em cerca de uma hora de sessão de terapia com os autores do livro homônimo

O talento impar do pintor Egas Francisco, paulistano de nascimento e campineiro por escolha, não é novidade para ninguém. Em dezembro passado, o artista completou 80 anos de uma vida dedicada às artes plásticas e traz a público novamente suas obras mais recentes na exposição Palimpsesto Mágico, em cartaz a partir de terça-feira, na galeria do Tribunal Regional do Trabalho (TRT). A novidade nesta mostra é que as obras revelam uma face ainda mais íntima do artista: as aquarelas foram produzidas dos dois últimos anos, durante suas sessões de terapia.

A mostra apresenta 170 esboços, aquarelados com as cores da alma e dos segredos mais abissais, revelados nas sessões e alinhavados à interpretação, em palavras, do psiquiatra Isac Karniol e da psicóloga Patrícia Karniol, que idealizaram o evento e autores do livro homônimo, que será lançado no vernissage. No livro, apenas a capa, também de Egas Francisco, não foi produzida nas sessões.

”A aquarela A Vida e a Morte foi feita no ateliê. É do Isac e ele pediu que ela se juntasse às outras “, explica Egas. Segundo ele, as obras feitas durante as sessões dão uma dimensão maior de seu trabalho, “são óvulos do que seriam os trabalhos acabados”.

“Fui pintando enquanto conversava com eles. Fiz sessões uma vez por semana por cerca de 2 anos e cada uma delas rendeu uma aquarela”, coloca Egas, frisando que as peças não receberam retoque. “Elas foram finalizadas nas sessões, não receberam qualquer retoque ou acabamento depois. São trabalhos genuínos, totalmente intuitivos”, afirma.

“Dedico minha vida à procura do definitivo que nunca se completa. Não somente o resultado passageiro, mas a vida que desabrocha em sucessivos momentos, parecendo procurar uma forma que, alcançada, também acaba sendo passageira. O desejado é a cada instante sentir-se livre, vivo, participando e participante”, diz Karniol, psiquiatra, cientista e psicanalista.

“Levando em conta os esboços, procuramos, numa linguagem verbal, traduzir em sonho acordado o que teria ocorrido nas sessões. Não é uma verdade absoluta, historicismo rigoroso, apenas uma tentativa”, completa Patrícia Karniol.

Karniol afirma sentir-se também em terapia quando em sessão com o artista. Egas tem a mesma percepção. “Tenho uma relação de amizade com o Isac. Dizem que isso atrapalha o processo, mas não vejo assim. Em momentos sinto que a situação se inverte e parece que sou o analista e ele o paciente. É um trabalho de inteligência e sensibilidade.” Segundo o artista, as cores são as protagonistas dos esboços, os laranjas, verde, cores intensas.

“Estes esboços não são minha arte, aquela que sempre produzi e que me tornou reconhecido. São linguagens espontâneas que me vêm à consciência, executadas em poucos minutos’, explica Egas, cintado que as sessões duravam entre uma e uma hora e meia, no máximo. Mas, apesar da rápida execução, vendo o livro, percebe-se que toda sua sensibilidade vem à tona artisticamente.

“Às vezes, saio à procura do abstrato e, eventualmente, o figurativo predomina; cores vibrantes, sentimentos e emoções que espocam não ficam somente no ar, mas aparecem visíveis no papel”, complementa o artista, frisando que nesta mostra sua ansiedade não é diferente das muitas outras que fez. “É sempre como se fosse a primeira vez, o nervosismo é enorme”, revela.

Produção antiga

Além da mostra dos esboços, serão apresentadas seis aquarelas mais antigas feitas no ateliê. “Em princípio seriam seis telas de grandes dimensões. Mas em conversa com a Lígia (Testa, que assina a coprodução do evento) e o artista Fabrícius Nery, concluímos que seria melhor reduzir a mostra às aquarelas. O Fabrícius colocou que isso daria mais fluidez e clareza ao conjunto”, explica Egas.

“São aquarelas expostas poucas vezes e que nunca coloquei a venda, apesar de serem muito cobiçadas”, diz. Egas destaca que são obras mais antigas (tem um autorretrato de 1970). “Algumas estão até com o paspatour manchado. Mas isso não prejudica a apresentação, pelo contrário, mostra o que tem de mais autêntico, as suas condições atuais das obras”, avalia.

Ele destaca que, ao contrário dos esboços feitos nas sessões que não serão comercializados, as aquarelas antigas estarão à venda. “As obras antigas dão maior amplitude à exposição, assim como as gravuras finearts (em impressão museológica e papel importado), uma novidade recém lançada, com preços muito mais acessíveis, possibilitanto maior disseminação da obra deste artista tão nosso”, completa Ligia Testa.

O livro Palimpsesto Mágico, de Isac e Patricia Karniol, com os esboços de Egas, também estarão à venda no dia (Zagodoni Editora, 176 páginas, R$ 120,00 ). Os psicanalistas reforçam o que lhes motivou à idealização do evento: “compartilhar o momento em que a criatividade-vida se inicia e se expressa através da Arte”.

Palimpsesto

No Egito antigo, pintura e escrita eram feitas em papiros. As linguagens neles contidas muitas vezes eram raspadas e os papiros usados para novas produções, os chamados palimpsestos. O casal Karniol imaginou para traduzir o que ocorria na produção dos esboços de Egas a existência de um “palimpsesto mágico”, no qual imagens raspadas eram rapidamente substituídas por outras; concomitantemente as primeiras retornavam, sem que as últimas desaparecessem.

Aumentavam para o infinito o número dessas imagens em constante movimento, substituindo-se e retornando, acrescentando a influência de outras variáveis tão dinâmicas quanto emoções, sentimentos, memórias, escolha de pincéis, movimento deles, tintas e cores, além do espectro da consciência.

AGENDE-SE

O quê: Lançamento do livro Palimsesto Mágico e exposição homônima de aquarelas e esboços de Egas Francisco

Quando: Terça-feira (19), das 17h30 às 22h. Até 26/4, de segunda a sexta, das 9h às 17h

Onde: Tribunal Regional do Trabalho (Rua Barão de Jaguara, 901, Centro)

Quanto: Entrada franca

Escrito por:

Delma Medeiros