Publicado 17/03/2019 - 10h38 - Atualizado 17/03/2019 - 10h39

Por Rogério Verzignasse

Caniato e o equipamento portátil que ensinava os alunos a entender a localização dos astros: experiência barata e eficiente, que ganhou elogios da comunidade científica mundial

Matheus Pereira/Especial para a AAN

Caniato e o equipamento portátil que ensinava os alunos a entender a localização dos astros: experiência barata e eficiente, que ganhou elogios da comunidade científica mundial

O cidadão entra na sala, puxa a cadeira, ajeita os óculos com a ponta dos dedos, se apresenta. É um senhor magro, de barbas brancas, respeitáveis 90 anos de idade. Mas de uma vitalidade impressionante. Ali, diante do repórter, está uma celebridade. Rodolpho Caniato foi muito importante no desenvolvimento da física e da astronomia. Lecionou nas universidades mais importantes do Brasil, integrou ações científicas da Unesco, desenvolveu e difundiu no mundo inteiro ferramentas que popularizaram a ciência.
Caniato, enfim, construiu na vida uma carreira profissional reconhecida, premiada. Radicado em Campinas, virou até nome de um planetário, na região do Alphaville. Mas ele não veio até a redação para debater mecânica celeste. Veio para divulgar dois livros autobiográficos que acaba de lançar. Detalhe: ele não vai embolsar um centavo com a venda dos exemplares.
Vai doar tudo o que arrecadar para o Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA), polo cultural fundado há quase 120 anos em Campinas, e que sempre sobreviveu da ajuda voluntária de agentes culturais, historiadores e pesquisadores.
Ação nobre a do Caniato. O que pouca gente imagina, no entanto, é que a trajetória romântica do menino que viveu na roça foi fundamental para a sua própria carreira.
Rodolpho Caniato planta muda de guatambu no Parque Nacional de Itatiaia, em 1953, quando ele partia para Campinas
Caniato nasceu no Rio, lá em 1929. A velha maternidade, na Rua da Passagem, continua lá, no coração do Botafogo. Firme e Forte. Menino, ele viu até o zepelin passar. O pai, Antônio, era gerente de um hotel importante, o Atalaia, que funcionava na região do badalado Copacabana Palace.
Mas a vida tem dessas coisas. O pai abriu mão da profissão na cidade para morar na roça, perto de Jundiaí, onde a família tinha umas terrinhas e plantava uva. Rodolpho Caniato, o "Rudy" , tinha só 9 anos de idade. O garoto urbano que tinha estudado na escola alemã de repente se viu em um bairro rural chamado Corrupira, a quilômetros de onde havia luz elétrica e asfalto. Por cinco anos, aliás, o menino ficou fora da escola. Tudo era longe. Tudo era difícil.
Pois foi que nasceu o pesquisador. Ele conta que passava as noites ali, observando o céu forrado de estrelas. E foi acompanhando a lavoura que aprendeu as noções básicas de física. Viu como a alavanca e os planos inclinados ajudavam o homem a embarcar as sacas pesadas. Aprendeu como a carroça tinha de ser equipada para não ferir a coluna do cavalo. Se impressionou com a precisão e a eficiência das ferramentas.
Rodolpho Caniato, menino, pedala em frente ao badalado Copacabana Palace
Quando voltou a morar no Rio de Janeiro, aos 14 anos, já tinha uma vocação profissional na cabeça. O garoto cresceu e então começou a faculdade de matemática. Como trabalhava na petroleira Atlantic, ele acabou transferido para Campinas e se formou na PUC. Lá mesmo, aliás, ele planejou e executou a instalação do primeiro telescópio brasileiro, em meados dos anos 50. Aqui nasceram os cinco filhos. E ele só saiu da cidade para lecionar em contratos pontuais com a USP, Unesp, UFRJ. No fim de cada contrato, voltava para Campinas.
A invenção
Mas o reconhecimento veio mesmo com o lançamento de um projeto inovador para o ensino de física. Na defesa da própria tese de doutorado na Unicamp, ele apresentou um planetário portátil, de vidro, onde podia explicar, em detalhes, o movimento dos astros no céu. Ferramenta que podia ensinar astronomia para alunos de qualquer escola, mesmo que as comunidades pobres não pudessem contar com telescópios ou equipamentos de alta tecnologia. Um exemplar da ferramenta, de vidro, ele guarda em casa até hoje. Inovação que rendeu elogios no mundo todo.
E Caniato não parou de estudar. Hoje, se aprofunda em navegação, marés, embarcações… O mundão está aí, à sua volta, instigando a curiosidade e motivando pesquisas.
Em Campinas, professor foi até cantor de ópera
Rodolpho Caniato fez fama falando de física e astronomia. Mas também sempre foi ligado em ações ambientais e culturais. Moço no Rio, por exemplo, ele curtia escaladas e participava de ações de reflorestamento. Já em Campinas, também esbanjava talento cantando. Participou, por exemplo, em 1970, da encenação histórica de O Guarani, quando se comemorava o centenário da estreia da ópera do Teatro Scala de Milão. E vem da paixão histórica pela arte o desejo de ajudar o CCLA, que vai ficar com a arrecadação resultante da venda dos seus livros de memória.
SAIBA MAIS
O lançamento dos livros autobiográficos Corrupira e Abrindo as Asas, de Rodolpho Caniato, acontecem a partir das 19h30 do dia 28 de março, no CCLA, na Rua Bernardino de Campos, 989, Centro de Campinas. São textos humanizados, ilustrados com imagens de época, que remetem à história do desenvolvimento científico no Brasil. Juntos, os dois livros serão vendidos a R$ 60,00. Toda a arrecadação vai ajudar a manter aquele espaço cultural, fundado há nada menos que 118 anos. Mais informações no (19) 3231-2567.

Escrito por:

Rogério Verzignasse