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Publicado 03/02/2019 - 17h28 - Atualizado 03/02/2019 - 17h28

Por Estadão Conteudo

O escritor suíço Friedrich Dürenmatt: desmistificação da

Divulgação

O escritor suíço Friedrich Dürenmatt: desmistificação da "trama perfeita" é aplaudida por colegas brasileiros

O conflito que habitualmente existe entre realidade e sua representação artística sempre fascinou o escritor e dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) - apesar de conhecido por suas peças teatrais (A Visita da Velha Senhora é a mais notável), ele enveredou pela literatura policial, à qual conferiu um nível filosófico. É o que se observa com a chegada agora do livro A Promessa /A Pane, reunião de um romance e um conto, pela editora Estação Liberdade.
O que torna especial a publicação de A Promessa é a possibilidade de se observar como Dürrenmatt não apenas apresenta uma trama de mistério como principalmente subverte as convenções do gênero – ali, ele desmerece o que, para muitos, é considerado um feito: a construção de uma trama perfeita.
Com o subtítulo Réquiem para um Romance Policial, a obra - que inspirou um filme estrelado por Jack Nicholson - começa quando um escritor (o próprio Dürrenmatt) é abordado por um ex-chefe de polícia, logo depois de um debate sobre esse gênero literário.
“Nunca tive os romances policiais em alta conta e sinto muito que o senhor também os escreva”, diz o homem. “Em seus romances, o acaso não tem vez e, se algo parece acaso, é ao mesmo tempo destino e coincidência; desde sempre, a verdade é jogada aos lobos por vocês, escritores, em detrimento de regras dramatúrgicas.” E completa: “Vocês, da escrita, não tentam lidar com uma realidade que vive escapando entre os dedos, mas montam um mundo que é administrável. Esse mundo talvez seja perfeito, possível, mas é uma mentira.”
Em seguida, o policial oferece uma carona ao escritor na volta para Zurique e, durante o trajeto, passa a narrar a história da derrocada de Mattäi, um experiente inspetor. É aqui que Dürrenmatt se revela original, pois, após apresentar a tese que despreza a forma comum de se escrever uma trama policial, essência daquele discurso do ex-chefe de polícia, o autor suíço apresenta um exemplo do que, de fato, é um caso de suspense.
Mattäi é designado para solucionar o brutal assassinato de uma menina. Trata-se da terceira garota morta em semelhantes condições e as suspeitas recaem sobre um caixeiro-viajante que, apesar das muitas evidências que o recriminam, nega veementemente. Ele acaba preso, depois de confessar sob condições pouco lícitas. E, na cadeia, enforca-se. Mattäi, no entanto, não acredita em sua culpa e, contrariando o desejo de todos, satisfeitos com o que acreditam ser um caso solucionado, promete que vai, de fato, desvendar aquele crime.
É o início da derrocada, com o inspetor arriscando sua carreira, princípios e até a própria sanidade. É o suficiente para Dürrenmatt fazer uma reflexão sobre justiça, culpa, virtude e acaso, temas que sempre lhe foram muito caros.
A Agência Estado consultou escritores brasileiros de romance policial, todos com obra respeitável. Os autores ouvidos aplaudiram a tese do colega suíço. “Considero perfeita a ponderação da personagem”, observa Alberto Mussa, autor do Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, conjunto de cinco romances nos quais investiga, por meio de histórias policiais, a confluência das tradições ameríndias, africanas e do Brasil popular na composição do imaginário e do panorama mitológico da cidade. “É uma crítica a uma longa tradição do romance cerebral, como os de Conan Doyle e Agatha Christie, em que o detetive tem controle absoluto sobre os fatos e domínio sobre o aspecto psíquico das pessoas. Ainda hoje, muitos autores seguem essa linha.”
Pela mesma trilha segue Tony Bellotto, músico e autor de uma série de livros policiais com o detetive Remo Bellini como protagonista. “Uma das coisas que sempre me incomodaram em algumas histórias policiais foi exatamente essa necessidade de todos os fatos se encaixarem logicamente, como num quebra-cabeças. Convenhamos, nem todos nascem com o talento da Agatha Christie”, comenta ele.
Já Raphael Montes, que vem se consagrando como expoente da nova geração brasileira de autores de livros policiais, acredita que já não funciona mais um acordo tácito que havia entre escritor e leitor. “Em sua origem, o romance policial era uma espécie de livro-jogo, um desafio entre autor e leitor”, afirma. “O crime rompia a ordem das coisas e o detetive vinha justamente para restabelecê-la. Como? Através do método lógico-dedutivo. Justamente por seu aspecto de ‘jogo’, era inadmissível que o autor se utilizasse de coincidências, encontros ao acaso ou intuições em geral. Seria como roubar do leitor a chance de descobrir o criminoso de igual para igual.”
ESTANTE
A PROMESSA/A PANE
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Tradução: Petê Rissatti e Marcelo Rondinelli
Editora: Estação Liberdade (368 págs., R$ 45)

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Estadão Conteudo