Publicado 27 de Janeiro de 2019 - 20h13

Por France Press

Os trabalhos de buscas as retornaram (...) por terra, com helicópteros e com cães

AFP

Os trabalhos de buscas as retornaram (...) por terra, com helicópteros e com cães", explicou do centro operacional de Brumadinho

A busca por 287 desaparecidos foi retomada neste domingo (27) em Brumadinho, após ser descartado o risco de outro rompimento de represa nesta cidade a 60 km de Belo Horizonte, onde o rompimento de uma barragem na sexta-feira (25) deixou pelo menos 37 mortos.

"Já não há mais risco" na segunda barragem, disse o tenente-coronel Flávio Godinho, porta-voz da Defesa Civil de Minas.

"Os trabalhos de buscas as retornaram (...) por terra, com helicópteros e com cães", explicou do centro operacional de Brumadinho, cidade com 39 mil habitantes.

A Vale informou que acionou as sirenes às 5h30, "ao detectar o aumento dos níveis de água nos instrumentos que monitoram a barragem VI", que contém entre 3 e 4 milhões de metros cúbicos de água.

Cerca de 3 mil pessoas foram evacuadas para locais altos em meio ao pânico e à confusão.

"Eu estava em casa. A sirene tocou às 5h30 e, logo depois, veio o pessoal da Defesa Civil, abrindo o portão e pedindo que todo mundo evacuasse. Tive que sair, com minha família, meus filhos. Até agora estamos na rua, porque não podemos ficar dentro de casa. Ficamos chateados, tensos, porque deixar nossa casa não é fácil. Faz 15 anos que moramos aí. Agora temos que deixar tudo e sair correndo pelo risco de mais uma barragem trazer problema pra gente", desabafou José Maria Silva, de 59 anos, à AFP.

A Vale informou que o nível de risco tinha diminuído de 2 para 1, então as pessoas que deixaram suas casas foram autorizadas a retornar.

Muitos optaram, porém, por ficar nos locais seguros. "As pessoas têm medo de que a sirene volte a soar, voltar às suas casas e não saber o que fazer", disse o médico Maicon Nunes.

Até agora, as autoridades conseguiram recuperar 37 cadáveres, dos quais apenas 16 foram identificados. O último boletim oficial, na tarde deste domingo, dá conta de 287 desaparecidos.

Desespero e espera

Durante o sábado, dezenas de helicópteros sobrevoaram a região em busca de sobreviventes na grande área dominada por um rio de lama que sepultou casas, veículos e estradas, além de ter devastado a vegetação.

O desespero domina as famílias que perderam, ou não sabem o paradeiro de seus parentes.

O presidente Jair Bolsonaro sobrevoou a zona de helicóptero no sábado e se comprometeu no Twitter a "apurar os fatos, cobrar justiça e prevenir novas tragédias como as de Mariana e Brumadinho".

Bolsonaro aceitou a ajuda tecnológica oferecida pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para a busca de desaparecidos.

O governo de Minas Gerais informou que 136 agentes e 16 toneladas de equipamentos israelenses chegarão à noite na região.

Bloqueio de ativos da Vale

A empresa - que também era uma das responsáveis pela barragem de Fundão, no município de Mariana, a 125 km de Brumadinho, que rompeu em 2015 e matou 19 pessoas e provocou o pior desastre ambiental da história do Brasil - está sofrendo as consequências legais do acidente.

A Justiça já bloqueou 11 bilhões de reais da Vale para compensar os prejuízos e danos ambientais provocados pelo rompimento da barragem em Brumadinho.

O Ministério Público de Minas Gerais informou que, no sábado à noite, a Justiça congelou 5 bilhões de reais. Este valor é adicionado a duas ações de sexta-feira, uma de 5 bilhões e outra de 1 bilhão.

Também no sábado, o governo federal anunciou a aplicação de uma primeira multa de R$ 250 milhões à Vale por crimes ambientais, enquanto o governo de Minas Gerais aplicou outra multa de R$ 99 milhões.

"A Vale foi inconsequente e incompetente. Nós esperávamos que a Vale fosse ter uma lição pelo que aconteceu com Mariana. Aconteceu lá há três anos e aconteceu agora na nossa cidade", criticou o prefeito de Brumadinho, Avimar de Melo.

A empresa "ainda não entrou em contato com a gente. Vamos ver se toma providencia e indeniza a gente, não merecemos isso", afirmou Lauriane Oliveira de Souza.

Segundo a Vale, a represa não era usada há três anos e era verificada regularmente.

A tragédia provocou duras críticas de organizações ambientalistas, como Greenpeace e SOS Mata Atlântica, de líderes políticos e de especialistas em gestão de riscos.

"Este é um governo que não indica que atuará no sentido de maior controle na questão ambiental, de maior cuidado com o comportamento corporativo. Ele vai considerar que as corporações a priori funcionam de maneira responsável, e o que a gente vem vendo é o contrário", disse à AFP Luiz Jardim Wanderley, especialista em mineração da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Wanderley afirmou que, em Minas Gerais, "quase 10% das barragens, ou não estão com sua estabilidade garantida, ou não há informação suficiente para definir a condição da barragem".

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