Nutrição amorosa
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Publicado 09/04/2018 - 15h37 - Atualizado 09/04/2018 - 15h47

Por Katia Camargo

Nutricionista cria uma relação mais amistosa com a comida e fala da importância de ouvir as necessidades do corpo

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Nutricionista cria uma relação mais amistosa com a comida e fala da importância de ouvir as necessidades do corpo

 
A nutricionista Márcia Daskal é criadora da nutrição amorosa, uma forma mais gentil de comer, baseada nas vontades do corpo. A profissional começou a carreira há 20 anos como nutricionista em academias de esportes, em São Paulo, e escreveu o livro Nutrição Esportiva: Uma Visão Prática (Manole). Depois de um tempo resolveu mudar seu caminho e, após muitos estudos, criou a ‘nutrição amorosa’. Para ela, quando passamos a escutar as nossas vontades, o ‘milagre acontece’ porque entramos em sintonia com nossas necessidades. Em entrevista à Metrópole ela fala um pouco deste trabalho que vai muito além da nutrição. Ela também alerta que as redes sociais e até profissionais da saúde ajudam a reforçar esses padrões de corpo que são impossíveis.
Revista Metrópole - O que é a nutrição amorosa?
Márcia Daskal - Nutrição amorosa é uma abordagem criada por mim para aproximar as pessoas de um comer que faz sentido para elas. É baseada em escolhas que alimentam e não apenas nutrem, levando em consideração as histórias, as vontades. Trata-se de um resgate ao respeito e amor por si mesmo. É um comer mais confortável e com menos regras. As regras, em princípio, existem para facilitar, mas quando elas engessam, nos distanciam do principal: o que funciona para cada um.
Como descobrir o que o corpo está necessitando?
O corpo avisa quando sente fome, sede, vontade de doce, de salgado, frio, vontade de ir ao banheiro. A gente pode atender ou ignorar, ou pior, brigar – vivemos brigando com o corpo – para ir ou não ir ao banheiro, para comer ou não comer, para dormir, acordar, entrar numa roupa que não é nosso número. Fazemos as coisas de forma punitiva, como se o corpo fosse um grande animal descontrolado que precisa ser domado. Quando pararmos de brigar e ficamos mais atentos aos sinais do corpo, a mágica acontece. Paramos de reagir e começamos a ouvir o corpo, e ele passa a funcionar de forma mais harmônica.
A transformação é de dentro para fora?
A transformação é de dentro para fora, mas não significa que ela não possa começar de fora para dentro. Quando comemos algo nutritivo, colocamos um pouco do que está fora para dentro, e nos fortalecemos. Da mesma maneira, quando comemos algo vazio, de nutrientes ou de significado, estamos colocando para dentro algo que não alimenta. Note que não estou falando de calorias, mas daquilo que deixa o corpo bem, que sacia. E isso varia de pessoa para pessoa.
Ler rótulos é muito importante para uma nutrição mais real?
Sim, é importante para uma alimentação mais consciente. Lendo rótulos, a parte que cita os ingredientes, a gente descobre que come coisas que não são o que dizem ser. Por exemplo: tem muito requeijão que tem amido, muito iogurte que tem gelatina. Saber o que se está consumindo é muito importante. A nutrição mais real envolve gratidão pelo alimento, algo que as religiões já ensinavam. Envolve a espera pelo tempo de cada alimentos - de colher, de plantar, de nascer, de preparar. Envolve entender que aquele chocolate já foi um cacau em alguma parte do globo, que o sal veio do mar ou de alguma rocha. Muito interessante fazer esse exercício. Porque o leite não vem da caixinha, e até um ketchup precisa de tomates de verdade.
Dá para perceber que as pessoas se cobram muito para manter um padrão estético exigido pela sociedade?
Claro, somos expostos, desde que nascemos, a padrões estéticos. Que variam de acordo com as eras. O padrão mais bonito já foi o cheio de curvas e dobras. Hoje é uma magreza antinatural. As redes sociais e até profissionais da saúde reforçam esses padrões impossíveis. Resultado: nos sentimos fracassados. Sempre estamos devendo, nunca conseguimos atingir: aquele corpo, aqueles dentes brancos, cozinhar, estar em dia com os exames, falar línguas, ter MBA... Estamos eternamente insatisfeitos. Isso gera um ciclo negativo que culpa a pessoa por não conseguir chegar a um padrão que não é o dela.
O termo dia do lixo, muito usado em dietas, deve ser banido?
Comida nunca é lixo. Comida é comida. Como essa comida pode ser absorvida se não a aproveitamos, se achamos que estamos comendo lixo? Que energia ela traz para você?
Lixo é algo ruim, estragado, que não serve mais. Tratar a comida como lixo, usar termos depreciativos como gordice e veneno, é atribuir características ou funções que vão além do papel esperado do alimento: saciar a fome, fornecer nutrientes, matar a vontade de comer algo específico, agregar pessoas. Quando atribuímos valores positivos ou negativos para uma comida é sinal de que estamos muito desconectados de nós mesmos. Comida não é lixo, não é veneno! Porque você comeria lixo ou veneno? Pensar assim é uma agressão consigo mesmo.
Existe fome real e fome emocional?
Está tudo ligado, não é mesmo? Não comemos apenas porque temos fome fisiológica. Os alimentos têm uma carga emocional, cultural, afetiva. Comemos porque está gostoso, porque é um prato diferente, porque estamos cansados, frustrados, irritados, para agradar alguém que fez uma comida especial, para acompanhar. E ok, comer é assim mesmo. O homem é um ser social. Diferentemente dos animais, não comemos apenas para nos nutrir. A comida é a primeira rede social que existe. Através da comida nos tornamos humanos. O importante é identificar porque estamos comendo naquele momento. A partir do momento em que sabemos e entendemos porque o corpo pede e o que ele precisa, fica mais fácil identificar porque estamos comendo, mesmo que seja por motivos emocionais. Comida nenhuma sacia buracos emocionais.
O tamanho dos pratos e dos copos aumentou?
Muito. Basta observar o tamanho dos sacos de pipoca oferecidos pelo pipoqueiro que conseguimos ter uma ideia mais clara. Hoje, comemos até quarenta por cento a mais simplesmente porque usamos utensílios maiores. Às vezes, para emagrecer, basta diminuir um pouco as porções.
A comida é um resgate de como a gente se trata?
A comida é uma das formas de resgates. Pode ser uma porta de entrada muito poderosa para o acesso a nós mesmos. Porque comida não é só nutriente. Comida é sensação, é memória, é afeto. Porque comemos desde dentro do útero, e lá já sentimos os sabores, até o último dia em que vivermos. No consultório percebo uma mudança nítida no semblante e nos gestos das pessoas quando falam das comidas que comem e dos alimentos que gostam.
A comida está medicalizada?
Claro, falamos em nutrientes, em componentes, como carboidrato, gordura, colesterol, proteína, índice glicêmico, glúten. Recebemos prescrições: coma/não coma; prefira/evite. Como se todo mundo precisasse comer igual. Como se a quantidade pudesse ser estipulada de fora pra dentro.
O açúcar faz parte da nutrição amorosa? E ele é liberado?
Sim, tudo faz. O açúcar está presente em alimentos que usamos para presentear, comemorar, agradar. Ele é a sobremesa, o esporádico. Ninguém mata a fome com açúcar. Aí você me diz: ‘ah, mas os industrializados...’.Você sabia que, no Brasil, a maior quantidade de açúcar consumido é o que nós mesmos colocamos no café e no chá dentro de casa? O açúcar é liberado no sentido que pode ser consumido, e não para consumo à vontade. Como qualquer outro alimento.
Muitas pessoas pensam que o alimento é um vilão?
Nossa sociedade que polariza o bem e o mal, então vivemos atrás de vilões e heróis: na política, no esporte, nas novelas, na alimentação. Nenhum alimento vai te adoecer e nenhum vai te curar – é o conjunto da alimentação que importa. Mas aí entra a responsabilidade de cada um com o que consome. Isso dá um pouco de trabalho. Então, melhor culpar a comida, ou atribuir a ela poderes mágicos. Culpamos glúten, leite, açúcar. Antes já tínhamos culpado o ovo, a manteiga, a gordura. Não funcionou. Desde que a ciência passou a reger o que comemos, desconectamos de vez da comida, do nosso corpo, e do efeito que o alimento tem em nós. Precisamos urgentemente tomar parte nesse processo. Estamos fazendo isso pelo avesso: assistindo programas de gastronomia, comprando apartamentos com varanda gourmet, e gastando dinheiro em utensílios de cozinha e livros de culinária que não vamos usar.
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Katia Camargo