Por que gostamos do canto do canário?
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Publicado 21/03/2018 - 10h38

Por que gostamos do canto do canário?

A resposta é clara. O canário canta de um modo harmônico e agradável aos nossos ouvidos. Entretanto, queremos ter uma ideia melhor de como ele faz para cantar assim, e com isso tentar entender um pouco melhor o funcionamento de nosso aparelho fonatório. Físicos Argentinos e Americanos fizeram um modelo simples da produção sonora no órgão vocal de canários, e conseguiram reproduzir surpreendentemente bem o canto desses pássaros. Os pesquisadores sabiam de antemão, a partir de dados experimentais anteriores, que o órgão vocal do canário, a siringe, gera som através da vibração de suas membranas, que abrem e fecham a passagem do ar entre a garganta e os pulmões. Em seu modelo os pesquisadores consideraram que essas membranas funcionam como uma mola simples, abrindo e fechando de modo harmônico, para modificar o tamanho da passagem de ar. Eles também assumiram que o pássaro controla o barulho emitido através de dois mecanismos: mudança controlada na pressão do ar nos pulmões e controle muscular para modificar a elasticidade e dureza das membranas da siringe. 
A siringe é órgão que produz o som vocal das aves, sendo associado ao tubo respiratório. Pode localizar-se na traqueia, bifurcação entre traqueia e brônquios, ou ainda, nos brônquios. Este órgão possui membranas que vibram quando ocorre a expiração do ar durante o processo respiratório; possui músculos que promovem a maior ou menor distensão das partes vibratórias, produzindo os mais variados sons. Algumas aves são desprovidas de siringe (ex: urubu), mas mesmo assim podem produzir sons vocais pela vibração de outras partes do tubo respiratório. Além do som vocal, as aves produzem sons instrumentais, que independem das vias respiratórias. Por exemplo, tamborilar do bico nos pica-paus, canalização de ar pelas penas de voo dos beija-flores e bater uma das maxilas contra a outra, nos tucanos.
Ao variar esses dois únicos parâmetros, o modelo consegue recriar de modo satisfatório três notas emitidas por canários. Desse modo, eles verificaram que modificações muito simples em um sistema básico podem gerar uma riqueza vocal complexa, gerando sons complicados. Esse resultado é interessante, pois ainda não se sabe ao certo qual é a parcela do som que provêm de instruções complicadas do cérebro (processamento central), e qual é decorrente da física complexa dos órgãos vocais (origem periférica).
Esses estudos podem ajudar a compreender também o fenômeno da fala humana, uma vez que tanto em espécies de pássaros quanto em seres humanos essa habilidade não está presente no nascimento, mas é aprendida logo no início da vida. E certamente a boa música, proveniente dos canários ou dos homens, é algo que sempre comove, seja pelas emoções que provocam, seja também pela beleza da física envolvida em cada nota emitida...
Referência:
Simple Motor Gestures for Birdsongs, Tim Gardner, G. Cecchi, M. Magnasco, R. Laje, and Gabriel B. Mindlin, Phys. Rev. Lett. 87, 208101 – Publicado em 26/10/2001 (http://link.aps.org/abstract/PRL/v87/e208101)