Limbo de Fronteira
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Publicado 29/01/2018 - 07h46

Limbo de Fronteira

Há situações na vida onde basta um pedaço de papel, uma assinatura, ou simplesmente um carimbo, para tornar um fato banal em um potencial momento crítico para o nosso futuro. Aconteceu comigo em 1991: ia de Budapeste para Košice, para participar de um congresso de Física. Dada a facilidade do transporte ferroviário e a possibilidade de conhecer lugares pitorescos, escolhi naturalmente esse meio como forma de me locomover, apesar da distância razoável entre as duas cidades. Eram umas quatro horas da madrugada quando o trem parou na fronteira entre a Hungria e a Eslováquia para o controle de passaportes por parte da polícia de fronteira eslovaca. Apesar de ser agosto, fazia frio de madrugada, e aqueles policiais enormes iam entrando nas cabines com ar assustador. Ao inspecionar o meu passaporte, comecei a sentir um frio na barriga pelo olhar inquisidor do brutamontes bigodudo que olhava para minha foto e para mim em pequenos relances de poucos milisegundos de duração. E não deu outra: o meu pressentimento ruim foi confirmado. Ele chamou o seu supervisor, que investigou com o mesmo cuidado o passaporte, e, depois de longos minutos, solicitou a presença do chefe, que devia estar dormindo tranquilamente em seu posto de comando. Após algum tempo juntaram-se ali, discutindo naquela língua eslava incompreensível, uns cinco policiais, que começaram a esboçar um interrogatório. O problema de comunicação surgiu imediatamente, pois as pouquíssimas palavras que eles balbuciavam em outra língua que não fosse o eslovaco eram em russo ou alemão. Nada de inglês, espanhol, italiano, quanto menos português. Mesmo assim consegui entender que eles acreditavam que meu visto, tirado no consulado eslovaco em Veneza, tivesse a assinatura da consulesa falsificada. Nessas horas não adianta argumentar, discutir, chorar, implorar. Nada. Simplesmente mandaram ficar quieto, pegar as minhas malas e descer do trem, que já estava atrasando demais a viagem do restante dos passageiros honestos.
Então lá estava eu, às cinco horas da manhã, em um minúsculo posto de fronteira entre a Hungria e a Eslováquia, sem perspectivas de solução, pois não conseguia me comunicar com ninguém, e pior, sem passaporte, que havia ficado retido com os policiais eslovacos. O desespero tomou conta de mim, e uma profunda dor de cabeça se apoderou do pouco que restava de minha capacidade de tomar decisões. Fazia frio, e decidi então descansar um pouco no interior do posto policial.
Lá encontrei uma dúzia de pessoas na mesma situação que a minha. Alguns ciganos, alguns árabes, e um russo, que veio me oferecer umas pequenas maçãs em fase de deterioração dispostas em uma cesta. Sentia-me mal para comer, e agradeci, indicando que não tinha fome. Ele me respondeu em um inglês macarrônico que seria melhor eu aceitar, pois aquilo era o único que havia de alimento por ali. Ele já estava esperando há cinco dias, e praticamente todo o alimento de que dispunha era fornecido por uma velha macieira que ele havia encontrado nas redondezas. O sentimento de desespero chegou ao seu ápice naquele momento, e a sensação de impotência é tamanha diante de tanta arrogância e desentendimento, que o futuro se torna incerto, e o destino passa a depender uma maldita assinatura em um ínfimo papel.
Horas se passaram, e havia uma espécie de gozação mútua entre os policiais de fronteira. Os húngaros riam e imitavam os eslovacos, insinuando que ainda não haviam conseguido superar tantos anos de ditadura em seu modo de agir. Os eslovacos, por sua vez, sisudos e carrancudos, respondiam xingando em sua língua, e mostrando os diversos passaportes apreendidos, inclusive o meu, como troféus de vitória. Já no final da tarde, exausto, deprimido, encolhido e sem opções, fui chamado pelos guardas eslovacos, que aparentemente disseram que foi um erro, e que estava tudo bem, e que poderia prosseguir no próximo trem que passasse em um par de horas. A sensação de alívio não foi imediata, demorou horas para ocorrer, como um lento processo de relaxação. Fiquei à mercê de um bando de policiais de fronteira, mantido em uma espécie de limbo geográfico, por algumas horas, sem passaporte, e, portanto, sem mobilidade, sem país, sem comunicação, sem perspectivas. Esse espaço limitado de não-ser é geralmente criado pelo mero exercício de poder de funcionários de escalões inferiores que, cansados de receber ordens e culpas diariamente, recorrem à vingança descontando nos únicos pobre-coitados que estão abaixo deles na hierarquia ou fazendo sofrer quem depende deles para escapar de algum limbo cotidiano. Com isso sentem prazer, e descarregam a sua raiva. Situações similares ocorrem diariamente em postos policiais, em consulados, na previdência social, nos postos de saúde, e nas fronteiras.
É sobre essa temática que trata, por exemplo, o filme “O Terminal” de Steven Spielberg, focando na vida de um passageiro que enfrenta uma situação similar à relatada acima, só que em um megaterminal de trânsito nos EUA. O filme retrata a angustia de uma pessoa honesta ao se deparar com uma situação da qual ele não consegue escapar por culpa de uma brecha na legislação e por causa da intervenção decisiva de um funcionário que torna o assunto em uma questão pessoal. Apesar de ser em momentos comovente e ter um roteiro que flui com tranqüilidade, o filme retrata uma polícia norte-americana caridosa, solidária e simpática. Quem já entrou nos Estados Unidos, principalmente após os atentados de 11 de setembro de 2001, sabe muito bem que a situação não é bem assim. Hoje basta qualquer indício de suspeita para ser preso, interrogado, preso ou deportado, sem direito a advogado, nem telefonemas ao consulado. É a nova configuração do terror que espalha o medo, e alastra o limbo da fronteira para a vida diária, onde não somos mais nada, a não ser potenciais, vítimas ou terroristas.