Direto ao ponto E Braille
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Publicado 30/04/2017 - 12h48 - Atualizado 30/04/2017 - 12h48

Por Fabiana Bonilha

Percebo que a questão terminológica ainda é uma confusão na cabeça das pessoas. Procurando ser politicamente corretas, grande parte delas não sabe exatamente como se referir a quem tem alguma deficiência. Na verdade, ao buscarem pelo certo, elas adotam uma postura mais assistencialista do que reflexiva. Ao invés de tentarem entender o sentido do termo que usam, elas querem ser vistas como "boazinhas", como alguém que não usa expressões ofensivas nem intolerantes.
Então fica claro que esta postura precisa evoluir. O uso deste ou daquele termo não é uma questão moral, uma intenção caritativa ou altruísta. É uma questão de concordância, de alinhamento com determinada forma de ver as singularidades e as diferenças individuais. Todo termo traz consigo alguma concepção, e ao utilizá-lo fica implícito que o indivíduo concorda com a sua visão subjacente.
O problema é que raras vezes as pessoas param para tentar compreender o que dizem, e, por imitação ou achismo, cada hora falam de um jeito. Uma mesma pessoa pode dizer que tem um amigo portador de deficiência, que o filho da vizinha é especial, ou que trabalha com alguém que tem problema de visão. Em todos estes casos, ela busca se referir a indivíduos com impedimentos sensoriais, físicos ou intelectuais, e dá a esta condição nomes conforme cada situação convém.
Sei que muitas e muitas vezes já abordamos esta questão, aqui nesta coluna, ou em contextos diversos sobre a divulgação do tema. Mas sinto que precisamos explica-la de uma forma que definitivamente entre no coração das pessoas, e que para elas realmente faça sentido.
Então vamos direto ao ponto! Ao longo do seu dia, você porta muitos objetos: as suas chaves, a sua carteira, os seus documentos, entre outros. Para fazer alguma inscrição, geralmente é pedido que você seja portador de CPF ou de RG. Por algum infortúnio, você pode vir a portar uma doença, algo que deve aparecer e felizmente desaparecer em sua vida.
Mas uma deficiência você não porta. Nunca! Ninguém é portador de deficiência, porque esta é uma característica da pessoa, uma condição permanente e não temporária, uma qualidade que não podemos escolher sair com ela ou deixa-la em casa. Pronto, então você já pode riscar o termo "portador" da sua lista, ao referir-se a alguém que tem essa condição.
Agora vamos à grande confusão que gira em torno do "especial". Ocorre que "especial" é uma palavra associada a coisas bonitas. É maravilhoso ganhar um presente especial, ou receber uma surpresa especial no aniversário, ou mesmo estar ao lado de alguém especial. Então, de algum lugar surgiu a péssima ideia de atribuir o adjetivo "especial" às pessoas com deficiência. Por um lado, é uma espécie de eufemismo, uma tentativa de se dar um nome bonito àquilo que não se conhece direito. Por outro lado, é um índice de superioridade, ao colocar em um grupo chamado "especial" aquilo que é diferente de você, que por sua vez se acha pertencente ao grupo dos comuns.
No século XXI, período em que as máscaras parecem estar prestes a cair, e em que estamos nos aproximando cada vez mais da verdade, este termo já não faz mais sentido. Então pronto. Pode também riscar da sua lista o termo "especial" para se referir a quem tem uma deficiência. Ele não serve para qualificar essas pessoas e muito menos suas necessidades.
O que vou dizer agora talvez possa ser surpreendente. Uma pessoa com deficiência não é alguém que, por causa disso, tem problema. Os problemas por nós enfrentados estão nas inadequações do ambiente e nas dificuldades atitudinais de se conviver com as diferenças. Então ninguém tem problema de visão ou problema de audição, mas pode ter problema de discriminação ou de falta de acessibilidade.
Vamos portanto superar estes eufemismos e assistencialismos? Vamos descomplicar? Alguém que não enxerga é cego ou tem deficiência visual, e pronto. Alguém que não ouve é surdo ou tem deficiência auditiva, e pronto. Alguém que é cadeirante tem deficiência física, e pronto. Outros termos para se referir a essas características são modismos ou invenções, de forma que você não precisa mais se preocupar com eles!

Escrito por:

Fabiana Bonilha