Quando menos é maisE Braille
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Publicado 25/04/2017 - 22h07 - Atualizado 25/04/2017 - 22h07

Por Fabiana Bonilha

Muitas barreiras fazem parte da vida de todos nós que temos alguma deficiência. Embora essa contingência pareça clara para as pessoas que não vivem nossa realidade, penso que elas não podem imaginar de que forma exatamente as barreiras afetam nosso cotidiano.
Experimentamos situações que vão além dos obstáculos evidentes, que transcemdem por exemplo à falta de rampas, de intérpretes de LIBRAS ou de livros acessíveis. Deparamo-nos com empecilhos nem sempre visíveis, ligados muitas vezes às sutilezas de atitudes que discriminam e excluem.
Por isso, o tema "barreiras" é complexo e deve ser exposto com precisão e realismo. Algumas maneiras didáticas de abordar o assunto, que a princípio parecem interessantes, são na verdade métodos inúteis e representam um des-serviço à divulgação do tema. Aquela famosa vivência em que as pessoas são convidadas a fecharem os olhos para experimentar como é a realidade de quem não enxerga é, para mim, o exemplo mais típico de equívoco e de má instrução. Nesta vivência, geralmente conduzida de forma sentimental e assistencialista, os participantes não vivem nenhuma das barreiras que nós cegos na prática experimentamos, e saem com um entendimento distorcido e inverossímil do que significa ser cego.
Fazer pedagogicamente com que as pessoas videntes fechem os olhos para sensibilizá-las sobre a condição dos cegos realmente é um "desastre", uma prática que transmite o conceito ultrapassado de que as barreiras originam-se na falta da visão e não na inadequação dos ambientes. O verdadeiro contato com as barreiras é estabelecido apenas por aqueles que têm deficiências reais ou por aqueles que se relacionam de forma direta e engajada com essas pessoas.
A partir desse contato, quem conhece de perto nossos obstáculos aprende sobretudo a aplicar, no dia-a- dia, a máxima de que "menos é mais". Cada exercício de superação criativa possui um valor singular, e cada estratégia adotada para solução de problemas nos torna mais fortes diante deles.
Vamos concretizar um pouco. No campo da mobilidade, as pessoas videntes caminham naturalmente por muitos trajetos, sem fazerem um grande esforço para memoriza-los. Os cegos, por sua vez, necessitam memorizar e elaborar a execução de percursos geralmente pouco sinalizados e nada acessíveis, o que faz o aprendizado de cada caminho ser único e ter um mérito particular. No campo das artes, notamos que hoje em dia os músicos que não têm deficiência visual possuem à disposição praticamente todas as partituras de que precisam e podem escolher o repertório de sua preferência. Nós, músicos cegos, só temos disponíveis aquelas partituras que algum dia puderam ser transcritas em Braille. Então, o material que existe em menor quantidade acaba tendo para nós um maior valor.
Na mesma perspectiva, as pessoas videntes têm à sua disposição muitos materiais impressos: prospectos de eventos, revistas, jornais, folhetos para acompanhar cerimônias religiosas, entre vários outros. Os cegos, porém, não usufruem de tantas impressões. Precisamos lembrar que uma página em tinta equivale a aproximadamente 4 páginas em Braille. Devemos ter em mente que as impressoras Braille são raras, e tanto elas quanto o suprimento de impressão têm um custo bem mais elevado do que os equivalentes em tinta.
Assim, cada material impresso em Braille é único e precioso aos nossos olhos e às nossas mãos. A ideia de que menos é mais nos remete ao princípio da simplicidade, de fazer muito com o pouco que se tem. Para tanto, é preciso des-complicar o cotidiano, superar a comoção e o assistencialismo, buscando sermos práticos, ágeis e resilientes na solução de nossos problemas.

Escrito por:

Fabiana Bonilha