Nossa memóriaE Braille
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Publicado 03/04/2017 - 18h11 - Atualizado 03/04/2017 - 18h11

Por Fabiana Bonilha

Muitas pessoas costumam afirmar que a maioria de nós cegos tem uma ótima memória, e arriscam dizer que nossa capacidade de memorização é privilegiada e superior à dos videntes.
Compreendida de forma isolada, esta constatação não é verdadeira, e representa mais um entre tantos mitos associados à deficiência visual. Nossa memória, tal como a dos videntes, é sujeita a fatores motivacionais, emocionais e de aprendizado, e não é um dom inato ou uma faculdade sobrenatural. Aliás, neste tempo em que se faz necessária a absorção de tantas informações, quem dera eu tivesse nascido com deficiência visual e, de brinde, eu tivesse ganho uma memória extraordinária!
Então, já que nós cegos não nascemos com superpoderes ou com talentos inerentes à nossa condição, o que fundamenta este mito tão difundido entre as pessoas?
O fato é que a deficiência visual não nos presenteia com uma boa memória, mas nos oferece um valioso convite para desenvolvê-la. Nas situações do dia-a-dia, ela é um apoio importante na superação de nossos limites, de modo que vale a pena empreender esforços para torná-la cada vez melhor.
As pessoas que enxergam são guiadas pela própria visão, e a têm como seu auxílio.
Elas não precisam, por exemplo, mapear com tantos detalhes os trajetos que realizam, já que durante o percurso elas vêem o caminho. Nós que somos cegos precisamos de antemão estabelecer e gravar referências sobre cada itinerário, razão pela qual colocamos nossa memória em ação.
O mesmo acontece a respeito da localização de utensílios no ambiente. Enquanto as pessoas que enxergam se localizam a partir do que veem, nós cegos nos localizamos com base em nossas estratégias de planejamento e de organização. Criamos nossas próprias regras para dispormos os objetos no espaço, e assim conseguimos interagir com eles sem nos perdermos. Aliás, possivelmente nossas regras fazem com que nos percamos com menor frequência do que os videntes, que por sua vez confiam na visão, uma referência nem sempre tão precisa.
Quando uma pessoa cega se dedica a alguma atividade, ela também se vale de sua memória para realizar tarefas requeridas pelo ofício. A música é um exemplo muito típico. A impossibilidade de ler uma partitura e ao mesmo tempo executar a peça à qual ela corresponde requer de nós sempre memorizá-la, o que traz ganhos significativos à nossa instrução e performance musical.
As vozes das pessoas com quem convivemos também ficam armazenadas em nossa memória. Assim como os videntes identificam traços de fisionomia, nós aprendemos a reconhecer nuances de timbres de voz, associando-os a cada um de nossos amigos.
Mas todas estas necessidades cotidianas não se traduzem no fato de que os cegos têm a priori uma memória excepcional. Esta habilidade não está pronta em nós, e é construída a cada dia, de acordo com nossas experiências. Somos humanos, e não seres dotados de faculdades sobrenaturais. E o fato de sermos gente faz com que seja necessário desconstruir este ou qualquer outro mito que nos discrimine ou que nos coloque em condição especial.
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Fabiana Bonilha