Saldanha, a minha rua
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Publicado 11/04/2017 - 20h08 - Atualizado 11/04/2017 - 20h08

Por Gustavo Mazzola

Nos últimos anos da década de 50, eu morava na Rua Saldanha Marinho, exatamente no número 904. A casa antiga, de frente estreita e portão de ferro, ainda está lá desafiando o tempo, espremida entre construções mais modernas. A rua, que começa perto do Viaduto Cury, não tem mais o bonde 9, que virava na General e vinha rebolando e soltando faíscas no alto. Até um simpático hotelzinho é, agora, vizinho da minha antiga casa.
Hoje, quando vou pela velha Saldanha, e me vejo diante do portãozinho do meu lar de menino, em 1957, não consigo me distanciar de tantas recordações: as minhas saídas para as aulas no Culto à Ciência, após o almoço — aos treze anos, de paletó e gravata, como mandavam as rigorosas normas do colégio—-, o aperto da campainha para que minha mãe viesse abrir o cadeado quando eu chegava, nos finais das tardes de domingo, da matinê no Carlos Gomes, no Voga, no Rádio... ou até no Santa Maria.
E os amigos e conhecidos da rua. Ah, eram poucos, mas vale lembrá-los, um a um: bem à minha esquerda, a figura, ainda para mim enigmática naquela época, do radialista Lombardi Neto, que passava todos os dias em frente à minha casa. Meu pai me dizia que ele era um torcedor de coração da Ponte Preta e fazia um programa famoso na Rádio Educadora, pela manhã, “A hora do trabalhador”.
À minha direita, do outro lado da rua, um colega do ginásio, tinha um nome de curiosidade peculiar: chamava-se Washington Luiz Pereira de Souza — e não era nem parente do ex-presidente. Às vezes, íamos juntos para as aulas de ginástica no “Ginasião”, do saudoso professor Pedro Stuchi.
No ponto em que a Saldanha Marinho faz um triângulo urbano com a Marquês dos Três Rios e a Silveira Lopes, logo mais à frente, bem na esquina com a Silveira, morava o Carlos Roberto Signorelli. Amigo de todos, bom aluno, nem sonhava que, um dia, seria um conhecido médico oftalmologista em Campinas. Estava sempre conosco na pracinha.
E, no fim da rua, quase na esquina da Saldanha com a Avenida Barão de Itapura? Lá era a casa do meu grande amigo, o inesquecível José Geraldo Barreto Fonseca. Religioso já desde pequeno, mariano no Coração de Jesus, aos quatorze anos já me surpreendia com pensamentos profundos, como este: “Gustavo, o médico cura o nosso corpo, o advogado cuida das coisas da nossa alma”. Nas nossas inocentes fantasias de imaginação do absurdo, prometia que, quando crescesse, faria uma aliança com Portugal (tinha uma simpatia especial pelos portugueses) e dominaria o mundo. Fez quase isso, pois se tornou um juiz de renome, com decisões abaladoras na sociedade, e depois, um desembargador, ainda, lembrado no Tribunal.
Um fato, até meio surreal, marcou aqueles anos na minha rua: caminhava, um dia, em direção ao ginásio, quando senti alguém me batendo com os dedos no ombro. Virei-me, surpreso: era o meu professor de História do ano anterior, o Pedrinho. Naquele ano eu tinha aulas com o professor Ércio.
— Está indo para o colégio? Então, vamos juntos. Vou aproveitar para falar pra você um pouco dessa rua. Você sabe quem foi o Saldanha Marinho, o jornalista, sociólogo e político Saldanha Marinho?
Estranhei aquele contato inesperado. Tinha pouca intimidade com Pedrinho. Para mim, um grande professor, mas discreto, muito sério... e de humor incerto. Tremíamos quando ele, no começo de cada aula, perguntava a um de nós: “O que sabe o senhor sobre a aula próxima passada?”
Mas, ali estava ele, ao meu lado, dando uma verdadeira aula para mim, exclusiva: “O Saldanha Marinho, teve uma grande vida, principalmente, como político brasileiro. Quando era Presidente da Província de São Paulo participou da fundação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, cuidando do levantamento de recursos para a construção do trecho inicial da ferrovia, de Jundiaí e Campinas”. E aí seguiu com outras informações sobre o patrono da minha rua.
De repente, para minha surpresa, resolveu subir em direção à Andrade Neves, quando eu já ia para as minhas aulas. Despediu-se de mim com um aceno de mãos na esquina da Marquês dos Três Rios. Fiquei sabendo, naquele dia, que ele estava de licença: fazia algum tempo que não ia ao colégio. Não o veria nunca mais, pois, mais algumas semanas, e eu já estava de mudança para a pequena Avaré, no Interior de São Paulo.
Ficaram comigo suas palavras sobre a minha rua, a Saldanha Marinho.

Escrito por:

Gustavo Mazzola