Um grão de milho sobre a mesa
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Publicado 30/04/2017 - 07h00 - Atualizado 29/04/2017 - 12h10

Por Antônio Contente

O improvável pode ter várias dimensões. E, no seu oscilar do pequeno ao grande, posso dizer que, de repente, me vi diante de um de exíguo tamanho. É que tendo sentado, como faço pelo menos três vezes por semana, para tomar um chá, no Café Regina, de repente avistei, num cantinho da mesa meio sob o recipiente que abriga guardanapos de papel, um bago de milho. Imediatamente o acaso me remeteu a duas crônicas que escrevi, no passado não remoto, porém bastante recuado, contando sobre duas pessoas que também encontraram sementes de cereais; que, de alguma forma, mexeram com suas vidas.
Bom, no caso das criaturas das minhas narrativas o achado não pintou em lugares improváveis. Pois uma encontrou viçoso bago de feijão num balcão de armazém de secos & molhados, na Vila Industrial. Enquanto outra topou com um de milho no chão do Mercadão, ao se abaixar para pegar nota de dinheiro que caiu na hora do pagamento de conta num box de sapatos.
Nos meus textos, saídos neste mesmo Correio, narrei a saga do que representou, no dia a dia dos personagens, os singelos achados. Pois um acabou se tornando proprietário de esplêndido milharal; enquanto o outro, com a inesperada semente do feijão a plantou no seu próprio quintal. Até conseguir produção suficiente para elaborar suculenta feijoada que ofereceu aos amigos.
Pois é, mas voltando a mim, ali estava eu diante do baguinho que me olhava na mesa do famoso café. Até que, convencido pela certeza de que não poderia deixar o dourado espécime ao léu, o envolvi num guardanapinho e enfiei no bolso.
Isto feito, fui remetido à outra avaliação, embutida na pergunta: como a pequena semente chegou ali? Pensei imediatamente, uma vez que minha imaginação não é de todo infértil, em várias possibilidades. Para, contudo, estacionar na que me pareceu a mais provável: o milho, com certeza, escorrera do pacote que algum alimentador dos pombos do Largo do Rosário depositou em cima da mesa, na hora de saborear seu moka. E mais não especulei sobre o tema.
Mas foi na hora de esvaziar os bolsos, já no quarto deste tugúrio que me abriga, na Chácara da Barra, que voltei a encarar o bago de milho. Num primeiro momento confesso, até meio envergonhado, pensei em atira-lo, pura e simplesmente, no lixo. Porém, uma espécie de voz a falar aos meus ouvidos, certamente a mando da Mãe Natureza, me repreendeu. A dizer que o mais certo, o mais razoável, seria plantar a semente. “Para que”?, indaguei. “Ora – a voz da natura retrucou, a me chamar, sutilmente, de burro – para que nasça”!
Com a ordem posta às minhas responsabilidades de prestante servidor das maravilhas da vida, a primeira resolução acabou sendo de que deveria plantar o milhinho no quintal, ao pé de frondoso arbusto que sombreia o pequeno, porém decente, espaço. Assim, munido de pontuda faca saí para cavoucar a terra a fim de, nela, inocular o bago. No instante, todavia, de bota-lo no fundo da cova, mudei de ideia. Pois alguma orientação, certamente mandada do imponderável, me afirmou que o correto seria efetuar a semeadura numa lata de leite vazia que certamente encontraria na despensa. E assim foi feito.
Durante o tempo regulamentar que ocorre entre o plantio e o nascer de uma semente de milho (cerca de 7 dias), confesso que pensei pouco na inusitada vida prestes a brotar num cantinho da área de serviço. Agora, o que me é absolutamente impossível deixar de reconhecer, é que fiquei emocionadíssimo quando o milhinho deu sinal de vida. Brotou, devo garantir, com pompa e circunstância; como se o fizesse aos acordes da “A Primavera”, de Antonio Vivaldi. Com o detalhe de que, dado o primeiro sinal de que a vida estava ali desabrochando, o resto se processou com a rapidez de um “vivace” que se seguisse ao “moderato cantabile”.
Finalmente, com o passar dos dias em que tratei quase a leite de cabra e pão-de-ló o recém-nascido, percebo que ele não poderia mais permanecer na pequena lata onde estava. De cara recusei a possibilidade de transplanta-lo para a área do quintal, pois sobrenadou em minha mente que o arbusto certamente se sentiria deslocado entre duas roseiras, algumas margaridas e pequenos tufos de “guarujás”. Encontrava-me, certamente, diante de um problema.
Que durou pouco, diga-se, pois lembrei de um amigo que, possuindo linda chácara em Joaquim Egídio, mantinha pequena plantação de milho para consumo próprio e de sua criação de aves. Imediatamente, com a latinha, fui para lá.
Assim aconteceu que, de fato, o meu milho do Café Regina acabou inserido no seu meio de vivências e amplitudes. E outro impacto sobre o assunto só vim a ter passado mais de mês. Quando o amigo dono da chácara ligou me convidando para comer um curau:
— Curau? — Berrei, olhos brilhantes — Adoro curau!
— Então venha. Ele foi feito com o milho do pé que você trouxe para cá.
Só que, mesmo adorando a iguaria, não fui. Pois não poderia ver num prato, diante de mim, algo feito d’alguém que cuidei como se meu filho fosse. Bom dia.

Escrito por:

Antônio Contente