Nossas relaçõesE Braille
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Publicado 27/03/2017 - 20h23 - Atualizado 27/03/2017 - 20h23

Por Fabiana Bonilha

As experiências cotidianas nos revelam que a deficiência visual abre muitos caminhos de interação com o ambiente e com as pessoas. Ela traz consigo um universo de estratégias e de artefatos que despertam curiosidade e interesse em quem está à nossa volta.
O mundo não-visual é cheio de criatividade e de descobertas. Uma vez que todas as coisas são a priori pensadas e feitas para quem enxerga, nossa condição enquanto pessoas cegas requer que sempre estejamos engajados em construir formas de transpor obstáculos e de superar desvantagens.
Conviver com a deficiência visual é uma arte, cujas obras apreciamos mostrar e compartilhar.
É maravilhoso, por exemplo, ler e compartilhar uma notícia de que alguém criou alguma tecnologia que poderá nos auxiliar no dia-a-dia e melhorar nossa qualidade de vida! É muito interessante termos contato com novas ferramentas, testar suas funções e identificar possibilidades de acesso a meios de que não dispúnhamos antes!
É igualmente maravilhoso contar às pessoas sobre a forma como nós cegos utilizamos este aparato tecnológico e sobre como realizamos nossas tarefas diárias. De fato, a interface entre os mundos visual e não-visual permite uma aproximação muito saudável entre os indivíduos que pertencem a cada um deles. Por um lado, aqueles que enxergam ficam entusiasmados ao conhecerem nosso mundo, e ampliam suas próprias visões sobre a realidade. Por outro lado, ao compartilharmos nossas vivências, nós que somos cegos aprendemos mais sobre quem somos e sobre aquilo que realizamos.
O Braille é especialmente um recurso que propicia o fortalecimento de vínculo entre as pessoas. É fascinante mostrar a alguém que desconhece este código a forma pela qual nós lemos e interagimos com um texto escrito. Nestas interações, costumamos expor com orgulho nossos artefatos: a máquina Braille, a reglete, os dispositivos com síntese de voz, a bengala, os materiais falados e com audiodescrição! Geralmente, nossos interlocutores gostam de conhecer todos estes recursos e de entender como estes objetos funcionam. Eles passam a ver que existem outras formas de escrever, de caminhar, de acessar o mundo digital e até mesmo de assistir a um filme ou a um programa de televisão.
A interação entre videntes e não-videntes faz ver aos dois lados que o mundo é plural e rico em possibilidades! Este contato representa um aprendizado mútuo e constante para ambas as partes. Por isso, não nos importamos em responder perguntas, em dialogar sobre aspectos que nos diferenciam dos que enxergam e em pesquisar formas de conectar estes dois universos.
O mundo de quem vê nos põe em movimento, nos faz sair de nossa zona de conforto e nos impele a transmitir, em uma linguagem inteligível a ele, nossas percepções e perspectivas!

Escrito por:

Fabiana Bonilha