Carinho e amor
Publicidade

Publicado 27/03/2017 - 07h00 - Atualizado 26/03/2017 - 20h40

Por Tadeu Fernandes

Semana passada atendi um jovem casal com a recém-nascida Vitória, foi a primeira consulta médica após o nascimento. Chamou atenção o grau de estresse dos pais, naquela tarde, onde sol brilhava forte e nenhum galho das árvores se mexia, a bebê estava enrolada em uma manta, com toca, luvas e sapatinhos; eles a seguravam como se carrega um grande vaso de cristal, sentaram e de dentro de uma das várias bolsas da mãe saíram duas ou três folhas de papel sulfite totalmente preenchidas com perguntas, “algumas dúvidas” segundo ela. Logo na primeira pergunta senti que seria uma consulta difícil, segundo a mãe, a bebê com 10 dias não estava aceitando o seio materno, então ela já estava complementando com fórmula infantil, tentei insistir destacando a importância da amamentação, mas a resposta foi dura e seca: “Doutor, eu não tenho paciência para amamentar, meu seio dói e não suporto ver a Vitória chorando!”.
O pai percebendo minha decepção tentou justificar: “Minha esposa teve depressão durante a gestação, ela engravidou por acaso, estávamos namorando e aconteceu...”. Ela estava passando por um momento de transição na empresa onde trabalha, a promoção que estava para acontecer ficou prejudicada pela gravidez, ela esperava muito por isso...
Mais um caso típico de gestação inesperada, mãe despreparada, pai perdido e decepcionado que encararam a gestação como um “desafio de amor”. Vemos diariamente casos como esse e já sabemos o final da história, no quarto mês, finda a licença-maternidade, o casal volta a ter a mesma vida de nove meses atrás, e a Vitória, será terceirizada a um cuidador: creche, escolinha, babá, tia, avó ou sei lá, alguém. A infância será recheada de decepções, frequentemente separações e muito estresse materno infantil. Muitos estudos estão sendo publicados, afinal essa situação descrita é universal.
Adversidades e estresse no início da vida podem levar a problemas de saúde no futuro e até mesmo à morte prematura, segundo uma série de estudos apresentados no encontro anual da Associação Americana de Psicologia, na Califórnia. Os estudos sugerem que o estresse na infância provocado pela indiferença ou por abusos pode levar a doenças cardíacas, inflamação e acelerar o envelhecimento celular, é chamado de estresse tóxico. Segundo os responsáveis pelas pesquisas, as experiências no início da vida podem deixar “marcas duradouras” sobre a saúde. Em um dos estudos, pesquisadores analisaram a relação entre viver em um ambiente adverso e os sinais iniciais de doenças cardíacas em 200 adolescentes saudáveis. Aqueles que vinham de famílias onde os atritos eram constantes, as artérias eram mais endurecidas e uma pressão sanguínea mais elevada. Ambientes imprevisíveis e com estresse levam as crianças a ficarem “hipervigilantes” em relação a percepções de ameaças. Por outro lado pessoas que recebem carinho em abundância de suas mães quando bebês são mais capazes de lidar com as pressões da vida adulta.

Escrito por:

Tadeu Fernandes