Uma grande dor de cabeça
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Publicado 05/03/2017 - 17h40 - Atualizado 05/03/2017 - 17h41

Por TADEU FERNANDES

Leonardo é o nome original, mas todos o conhecem como Léo, um típico adolescente com a face marcada pela acne e o boné encobrindo os cabelos moldados a gel. Léo é filho único de pais rigorosos, educado dentro de regras e limites rígidos, ele sempre se destacou como um dos melhores alunos da classe, frequentemente elogiado pelos professores, ele cultivou nesses últimos anos alguns inimigos na sala de aula.
Chamado de nerd ou quatro olhos, por causa dos indispensáveis óculos oriundos de um uma miopia herdada da árvore genética paterna, Léo sempre ficou na dele, poucos amigos se arriscam a ficar com ele no intervalo, alguns por simpatia, outros por segundos interesses, principalmente nos dias que antecediam as provas mensais. Na verdade, esses interessados colegas tinham medo que a ira da turma do fundão também caísse sobre eles, e acabasse sobrando algum apelido para eles também.
O chefe da turma do fundão é o Dinho, um repetente, maior na idade e na massa muscular que usa a força para liderar os meninos e o charme de seus olhos claros e os longos cabelos esvoaçados para xavecar as meninas.
É o filho mais novo de um casal, que se separou quando ele ainda não tinha completado um ano. Por ordens judiciais ele passava parte do tempo na casa da mãe e outra parte na casa do pai.
Atualmente ele mora com a mãe, o pai casou-se com a secretária e mudou-se para uma capital do nordeste onde gerência uma rede de supermercados. A mãe ficou com o apartamento e uma minguada pensão.
Ela trabalha em uma loja de departamentos e atualmente namora um senhor mais velho, divorciado, pai de dois garotos que frequente se encontram com o Dinho em jantares e passeios de final de semana na casa da praia que ele tem no Guarujá.
A irmã mais velha do Dinho, devido às brigas frequentes com a mãe, foi cursar o segundo grau lá no Interior de Minas, onde mora a avó materna. Dinho estuda de manhã e no período da tarde fica em casa sozinho zapeando na TV ou se divertindo na internet, no Facebook ou em outra mídia qualquer. Ele já criou algumas comunidades virtuais tendo como alvo os professores mais enérgicos da escola, um ficou famoso e deu a maior confusão quando o professor Alves de matemática teve uma foto manipulada no Photoshop e correu na velocidade internética, foto e boato, que ele se travestia nas noites de sábado e virava a Senhorita Camélia.
A mãe do Dinho foi chamada várias vezes na escola e aconselhada a levar o Dinho a uma psicóloga, mas alegando dificuldades financeiras e falta de tempo, ela apenas concluía as reuniões com a promessa que ia conversar com o garoto e se ele não se comportasse iria mandá-lo morar com o pai, lá no Nordeste.
Enquanto isso o Léo está cada vez mais triste, isolado, começou a chorar com muita facilidade, perdeu a vontade de ir à escola alegando dores de cabeça, já rodou vários médicos, fez um sem numero de exames, tomografia, eletro da cabeça, trocou os óculos e nada resolveu.
Hoje o Léo veio para uma consulta com o pediatra e a mãe pergunta: Como tratar essa dor de cabeça?
E que dor de cabeça! ! !
Todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder é o que chamamos de bullying, um termo que vem da palavra “Bully”, de origem inglesa e significa “valentão”.
O levantamento realizado pela Abrapia (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência) envolvendo 5.875 estudantes de 5ª a 8ª séries, de 11 escolas localizadas no município do Rio de Janeiro revelou que 40,5% dos alunos entrevistados admitiram ter estado diretamente envolvidos em atos de bullying e cyberbullying.
Para enfrentarmos esse problema, a conscientização das comunidades escolares com relação ao problema é o primeiro passo, envolver os pais é o segundo, convocar a Sociedade e os Poderes Públicos é o terceiro e fundamental passo. Precisamos educar, mas ao mesmo tempo termos legislação para punir com responsabilidade, criar meios de comunicação apropriados com pessoal treinado a acatar denúncias e intervir, antes que essa grande dor de cabeça se transforme em um câncer dentro de nossa sociedade.

Escrito por:

TADEU FERNANDES