Bela, magra e jovem
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Publicado 10/03/2017 - 19h42 - Atualizado 10/03/2017 - 19h42

Por Joaquim Motta

A mulher de 2017 vive um panorama existencial complexo e difícil. É solicitada a trabalhar, ter autonomia, ser mãe, esposa, sexualmente ativa, politizada, cuidar de familiares idosos, atualizar-se nas redes sociais, manter cuidados terapêuticos e atividade física que a sustentem saudável e bonita, e ainda administrar suas vicissitudes particulares.
Comparada à mulher de um século atrás, a diferença é gigantesca. A bisavó tinha essencialmente o compromisso de bem atender as demandas do marido e dos filhos. E isso podia acontecer até sem participação prazerosa no sexo. Muitas recebiam intimamente os maridos para servi-los, sem que o casal se preocupasse com a excitação, lubrificação e a satisfação femininas. Só importavam os interesses dos homens, dentro dos critérios machistas e valores patriarcais da época.  
À medida que a mulher foi repensada como pessoa e foram surgindo os defensores dos direitos femininos, isso se revolucionou. A revolução ainda não terminou, entretanto. A equivalência de gêneros não se consolidou, o mercado necessita nivelar salários de homens e mulheres, a violência contra elas precisa regredir e as mesmas necessitam se rever no ponto atual: o que já conseguiram, o que conservariam inalterado e o que escolherão como novos objetivos.
Toda transformação cultural implica prejuízos e vantagens, há resistências e resiliências conservadoras e exageros radicais. É fácil de ver como as transições acontecem em imagens concretas. Por exemplo, nos corpos tatuados da atualidade. Hoje, é difícil ver alguém entre 15 e 35 anos sem um desenho encravado na pele. As tatuagens representavam contestação, coragem inovadora, há três décadas. No tempo atual, parecem simples modismo convencional. Talvez, aqueles que exageram, cobrindo grande parte da epiderme, sejam os que tentam mostrar uma ousadia que os distinga da convenção.
As mulheres contemporâneas enfrentam grande convocação publicitária, induzidas pelas diretrizes da chamada "ditadura da beleza". Manequins muito magras nas passarelas, que às vezes assustam pela aparência de desnutrição, corpos modelares de atrizes, cantoras e outras sugeridas como “celebridades”, produções exponencialmente maquiadas e outros apelos estéticos exigem que as mulheres estejam belas, magras e com aparência rejuvenescida.
Tal contexto demanda um furacão comercial, em cujo olho estão as mulheres. Elas são chamadas a empenhar tempo e dinheiro pela aparência compatível com o padrão. Beleza, esbelteza e jovialidade custam plano de saúde, plástica, cabeleireiro, academia, treinamentos, maquiagem, detalhes modistas e peculiares.
Sem radicalizar, como a feminista que não pode ser feminina, nem regredir, apoiando a nostalgia machista, as mulheres podem se nivelar aos homens ou superá-los, natural e espontaneamente. Algumas sobras lipídicas, ptoses e rugas fazem parte do charme amadurecido.

Escrito por:

Joaquim Motta