Sacrifício? Para quê?
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Publicado 05/03/2017 - 17h41 - Atualizado 05/03/2017 - 17h42

Por Fábio Toledo

Certa vez presenciei uma conversa entre dois estudantes universitários. Estavam na cantina da faculdade, quando um recusou a oferta de um salgado, dizendo que não comia carne naquele dia, por motivo de convicção religiosa. O outro não conteve o riso e o comentário um tanto sarcástico: — Mas em pleno século 21 você ainda acredita nisso?
O estudante que fazia aquele pequeno sacrifício não respondeu à indagação, talvez porque o amigo não estivesse com boas disposições para saber os verdadeiros motivos. Assim, com um simpático sorriso e muita naturalidade mudou de assunto. E então a conversa transcorreu sobre outros temas. Falaram sobre tatuagem, academia, relacionamentos, dentre outros.
O diálogo poderia passar despercebido. Confesso ao leitor, porém, que me causou forte impressão o exemplo de fortaleza daquele estudante cristão, que aceitou com bom humor e naturalidade a crítica do colega.
Mas mais impressionante ainda, talvez seja o confronto com os demais temas tratados. O mesmo rapaz que criticava a abstinência de carne por convicções religiosas, contou os inúmeros desconfortos causados pela nova tatuagem, que tomava parte considerável do seu corpo. A paciência durante as horas de aplicação, os medicamentos e cuidados posteriores, os alimentos de que se privou para evitar reações etc. E isso sem contar as horas de academia, com disciplina e determinação, necessárias para obter e manter aquele porte físico “sarado”, como diziam.
Diante desse diálogo, agora dando asas ao pensamento, talvez ele nos remeta a um dado universal no ser humano: o sofrimento. Com efeito, já dizia Francisco Otaviano em seu poema mais célebre: “Quem passou pela vida em branca nuvem,/ E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça;/ Quem passou pela vida e não sofreu;/ Foi espectro de homem, não foi homem —/Só passou pela vida, não viveu”.
De fato, todos nós fazemos sacrifícios em maior ou menor medida nas nossas vidas. A questão que se coloca, então, é saber em que e para que nos sacrificamos. Para obtermos um porte físico ou modificarmos a nossa aparência? Para crescer na fé religiosa? Ou ainda para fazer o bem ao próximo?
E a resposta a tais indagações não é indiferente. Dela depende, em grande medida, a nossa realização e a nossa felicidade.
Já se afirmou que o coração humano possui uma porta projetada para abrir para fora. Se tentarmos abri-la para dentro, quanto mais esforço empreendemos nesse sentido, tanto mais a fechamos. Com essa linguagem simbólica, quer-se dizer que a nossa felicidade depende da nossa abertura solícita aos demais. Ao contrário, buscar sempre o próprio interesse egoísta é fonte de tristeza e desilusões.
Nesse contexto, ocupa lugar de relevo em nossas vidas a disposição com que nos sacrificamos pelos demais. Uma mãe bondosa não fica todo o tempo recordando as horas de vigília e de preocupação que passou ao lado de um filho pequeno ou doente. Também um missionário, por exemplo, não conta as penas e sofrimentos que padece no cumprimento da sua missão. Ao contrário, movem-lhes uma convicção profunda e um desejo sincero de fazer o bem ao próximo.
E essa questão assume especial importância no relacionamento conjugal. É que a intensidade e a veracidade do amor entre um homem e uma mulher se constatam, em grande medida, na capacidade de se sacrificar generosamente pelo outro. Por isso, marido e mulher deveriam questionar-se, vez por outra, sobre o que se faz que agrada ou aborrece o outro.
Com isso, poderiam constatar que, com gestos simples e pequenos, como guardar os objetos de uso pessoal no lugar, ou esforçar-se para sorrir apesar do cansaço, seriam como que pequenos tijolos que, ordenadamente colocados, dia após dia, constroem sob bases sólidas a felicidade do casal e dos filhos, com notória projeção na sociedade em que vivem.

Escrito por:

Fábio Toledo