E ele só pensava em cinema
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Publicado 26/03/2017 - 07h00 - Atualizado 25/03/2017 - 00h00

Por Antônio Contente

os vários anos em que nas “Folhas” (de S. Paulo e da Tarde) e Última Hora, segunda fase, anos 70, trabalhei nas Editorias de Cultura (Variedades) não conheci ninguém que pensasse mais em cinema do que o produtor Oswaldo Massaini (1920-1994). Dono da produtora Cinedistri, ele foi, junto com o diretor Anselmo Duarte com seu O Pagador de Promessas, responsável pela única Palma de Ouro que o cinema brasileiro ganhou, no Festival de Cannes de 1962. E, desde 2015, a película está incluída, pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
Naquela tarde ao chegar na redação da Última Hora, já então na Barão de Limeira, para o trabalho diário, havia um recado no meu escaninho de correspondência: o produtor Oswaldo Massaini desejava falar comigo. Sobre esse encontro narro no prefácio do meu livro Sirva-se do Azul, Comandante, lançado, quase ao final do ano passado, pela Editora Lince, de Campinas. É que tal obra contém exatamente o resumo do papo que mantive com Massaini, já lá se vão mais de 40 anos. Afinal, os seis contos e a novela que a obra abriga são o resultado de algo que ele, mais o compositor e ator Adoniran Barbosa me sugeriram que redigisse como ampliação dos contos que eu então escrevia no jornal. E apontados, pelo autor do Trem das Onze, como possíveis argumentos para filmes.
Bom, de lá para cá muita água rolou sob a ponte, com encontros e desencontros que as mortes, tanto de Adoniran quanto de Oswaldo, acabaram por atrapalhar. Mas estou contando isso porque, recentemente, ao levar meu livro para o atual dirigente da outrora Cinedistri, que hoje se chama Cinearte, o produtor Aníbal Massaini Neto, fui informado que ele está envolvido no preparo de uma grande série de TV, que depois será transformada em filme de tamanho normal, contando a movimentada vida de Oswaldo Massaini, seu pai, um homem que pensava em cinema sempre que estava acordado. Se bem que, ao dormir, era também com lances da Sétima Arte que sonhava.
O roteiro, a estrutura do trabalho televisivo foi muito bem bolado pelos seus realizadores. É que a história de Massaini aparece contada por dezenas de vozes, com depoimentos de atores, atrizes, diretores, autores, produtores, cantores, críticos e historiadores, reunidos para o desenrolar da saga. Outra parte de extrema importância para a enorme montagem serão as centenas de entrevistas que o, se podemos chamar assim, biografado concedeu para emissoras de rádio e televisão. O papo que bati com Massaini Neto certamente não foi uma entrevista, mas o velho espírito do repórter, num dado instante, se apossou de mim, quando perguntei:
— E não entrarão cenas de filmes que foram realizados pelo seu pai como produtor?
— Certamente — veio a resposta.
Daí detalhou que estarão no grande painel trechos das principais películas do famoso realizador, certamente escolhidas entre as mais atraentes.
— Além de tudo — Massaini Neto me lembrou — vamos utilizar também um vasto material de arquivos que contêm registros de reportagens de telejornais e cinejornais que cobriram suas realizações, as pré-estreias dos seus filmes, as importantes premiações nacionais e internacionais, além de outros marcantes eventos e acontecimentos cinematográficos vivenciados por Oswaldo Massaini.
Outra coisa importante de lembrar nestas rápidas anotações sobre o importante homem de cinema, é que, recentemente, o professor e jornalista Luciano Ramos fez uma tese de doutorado, defendida no Instituto de Artes da Unicamp, intitulada Oswaldo Massaini: um Produtor na História do Cinema Brasileiro.
Afinal, para mim, já agora no viés da “hora da saudade”, vale sempre lembrar as “happy hurs” que, todo fim de tarde, ocorriam nos escritórios da Cinedistri, no passado. Lá se reuniam para um uisquinho com Oswaldo diretores, atores, atrizes, músicos etc. para bate papos que se prolongavam até o começo da noite. Foi num desses agradáveis encontros que conheci Adoniran Barbosa, que, para minha surpresa e alegria, disse-me ser assíduo leitor dos contos diários que eu então publicava na Última Hora. Grandes tempos de um tempo que, afinal, está, de alguma forma, inserido na própria história do cinema nacional em um dos seus momentos mais criativos. Como se tivesse na mão, agora, aquele scotch servido ali por 1973, levanto o copo, para saudar:
— Tim tim, meu caro Oswaldo Massaini. Você é, sempre, uma boa lembrança para todos que realmente se interessam pela história, nos seus lances mais criativos, do cinema em nosso país.

Escrito por:

Antônio Contente