Amores d´outrora
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Publicado 19/03/2017 - 07h00 - Atualizado 18/03/2017 - 12h50

Por Antônio Contente

Ele começou me perguntando se eu gostava de encontrar meus amores antigos. Respondi, até meio embaraçado, que, nestes casos, nem sempre o que a gente quer bate com o desejo do outro lado. Ou seja, existem parceiras na vida de certas pessoas que não querem revê-las nem se pintadas, para aguçar o patriotismo, de verde e amarelo. Avistando-as lá longe, a caminhar pela calçada, imediatamente passam para o outro lado da rua.
— Não — meu amigo estalou uma gargalhada — estou me referindo, naturalmente, aos amores gratos.
— Como assim, amores gratos?
— Ora, aqueles que foram muito curtidos, muito vividos; e que terminaram por alguma razão relativamente tênue, deixando algo no ar.
Daí fui arrastado até o bar da esquina. O parceiro pediu uma cerveja, deu longo gole, limpou a espuma dos lábios com a costa da mão e só então respirou longamente. Por fim, olhando nos meus óculos, diz:
— Como você gosta de escrever, vou te contar uma história interessante.
— Daí lembrou que, dias antes, trançava pernas pelo centro da cidade. De repente, ao perambular pela praça Bento Quirino, na altura do prédio do Jockey, sentiu baita vontade de comer um pãozinho na chapa, transbordante de manteiga. Não teve então nenhuma dúvida em atravessar até a Barão de Jaguara, em busca da padaria Orly. Entrou e nem dera ainda três passos dentro do estabelecimento, quando viu a moça. Que outra não era senão Laura (nome fictício), o maior amor da vida do rapaz, com quem fora casada. Examinaram-se mutuamente. Meu amigo então murmura, olhos nos olhos dela, a voz embargada:
— Puxa, há quanto tempo...
— Vários anos – ela mostra nos dedos.
— E nesse monte de meses — ele se recupera do susto — não houve um só dia em que tua imagem não passasse pela minha cabeça, como uma luz benigna.
— Lá vem você...
— Verdade, Laura, por incrível que pareça você esteve muito mais entranhada na minha vida depois que me chutou do que quando vivíamos juntos.
— E você acha que acredito nisso?
— Pois acredite. E nas horas de sossego, como ao deitar à noite, por exemplo, é em você, nos lances lindos que vivemos, que eu penso até hoje. Você nunca deixou de dormir comigo...
Daí ele pousa a mão no braço dela para dizer, a voz trêmula:
— E sabe o que eu acabo de concluir? Simplesmente que me alimento de você. Ao te avistar, neste momento que já classifico como sagrado, alguma coisa tomou conta de mim, como se eu estivesse renascendo...
— Você não está me cantando, está?
— Não, claro que não. Mas eu me sinto agora como Santiago, o personagem do livro
“O Velho e o Mar”. É que, na sua luta contra o marlin na ponta da linha, quando o pescador se sentia sem forças pegava um pedaço de pescado cru no fundo do barco,
comia, e a vitalidade voltava.
— O que você quer dizer com isso?
— Que, na verdade, eu estava morrendo. Ao te ver, renasci. Como o pescador ao comer o naco de peixe.
Há um breve silêncio entre ambos. Por fim, o camarada volta:
— Faz o seguinte, Laura, me diz apenas onde posso te ver, de vez em quando. Você não precisa nem falar comigo. Eu ficarei de longe, exercitando uma terapia de salvação. Só te sacar, como o pescador do livro do Hemingway eu me alimentarei de ti; e irei em frente, vital, renascido. Ao precisar de nova dose de vitalidade, procurarei te rever.
Nesse ponto, no barzinho, ele para de me contar e dá outro gole na cerveja. Depois, retira do bolso um papel e me mostra:
— Aqui está uma espécie de mapa que ela fez, com todos os lugares que costuma frequentar. O ponto onde almoça, a rua do trabalho, a igreja que frequenta, a casa da irmã que costuma visitar, o supermercado das compras etc.
Peguei a coisa, olhei, para só então murmurar:
— Legal, a Laura é uma pessoa muito legal. Meu Deus, com tantos anos de separados permitir que você se alimente dela... Isso é maravilhoso e...
— Pois é — ele me interrompe — assim seria.
— Assim seria por que?
— Apenas porque, na mesma noite da manhã em que a encontrei na padaria, segundo me contaram, ela viajou para Israel, a fim de fazer um curso sobre religiões aramaicas, na Universidade de Jerusalém. Só volta daqui a dois anos...
Diante daquilo nada mais disse, e, logo após, fui embora. Afinal, o saldo positivo foi que, ao chegar em casa, corri à velha estante e peguei “O Velho o Mar”, que meu amigo citou no papo comigo. Reli, emocionado, para concluir que o livrinho continua tão maravilhoso como certos amores d’outrora.

Escrito por:

Antônio Contente