Convivendo com a destruição
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Publicado 06/03/2017 - 18h40 - Atualizado 06/03/2017 - 18h40

Por Antônio Contente

A maioria das pessoas que sabe, por ouvir falar ou ter lido nos jornais, algo a respeito do abandono do Centro de Convivência Cultural, realmente não faz a menor ideia do quanto a coisa é cruel, selvagem, inimaginável para uma cidade do porte, da importância cultural e econômica de Campinas. É que se num fim de semana, por exemplo, você passa pelas imediações daquilo que foi um teatro percebe, claro, que a coisa está esculhambada. Porém a situação é pior, muito pior do que sua vã filosofia poderia imaginar.
Dia desses, nas chamadas Redes Sociais, li um pungente lamento da psicóloga Marilúcia Nucci Vachiano sobre a triste situação do Centro. O comentário, pra mim, teve peso muito maior, pois Marilúcia é ligadíssima aos meios pensantes da cidade onde foi, na administração Lauro Péricles Gonçalves, secretária de Cultura. E o que ela escreveu no Facebook alcançou repercussão imediata, imensa. Uma vez que logo outras pessoas que têm peso na vida campineira também se manifestaram. Aliás, chamou minha especial atenção o dito pelo administrador hospitalar Renato Maudonnet, ex-presidente do Tênis Clube, que classificou como sendo de “cortar o coração ver o Centro de Convivência do jeito que se encontra”.
Dias antes do comentário de Marilúcia o escritor e historiador Jorge Alves de Lima, autor do esplêndido livro 'Sou e Serei Sempre o Tonico de Campinas', que conta sobre os últimos dias do compositor Carlos Gomes em Belém do Pará, concedeu entrevista ao programa 'Antena Paulista', da Rede Globo/EPTV. Na oportunidade falou sobre a deterioração daquele que foi um maravilhoso espaço cultural. Ora, amigos, vamos falar a verdade, o que foi mostrado na telinha é, como bem acentuou Maudonnet, de cortar o coração. Isso porque exibiram as entranhas do verdadeiro Armagedon que se desenrola atrás das paredes do Centro de Convivência, transformado em ruínas. São móveis quebrados, o maravilhoso lustre da entrada estilhaçado e a desabar, camarins arrebentados, cenários em decomposição, banheiros reduzidos a destroços, teto com infiltrações medonhas por todos os lados e paredes descascadas, esburacadas. Nesse ambiente tétrico correm, entre pedaços de madeira tortos e até pedras, vistosos insetos peçonhentos e ratos, isso sem falar em baratas imensas, quase do tamanho de um cágado. Pode-se dizer, amigos, sem nenhum medo de errar, que, ruinas por ruinas, o ex-Centro de Convivência Cultural de Campinas está em muito pior estado do que o Coliseu de Roma, as catacumbas da mesma cidade, ou o Partenon, da Grécia, que dorme, morto, ao sol de séculos d’história.
Com o tema em pauta pintou, em setores dos bastidores do poder, no ano passado, uma luz no fim do túnel. É que então foi levantada a possibilidade de, por estar para sair verba estadual destinada à construção de um Teatro de Ópera no Monsenhor Salim, a atual administração do Jequitibás pegaria a grana a isso destinada, algo como uns R$ 80 milhões, e a realocaria para a reconstrução do Centro de Convivência Cultural.
Como várias pessoas, na seção de cartas deste Correio opinaram, a favor e contra, também, naturalmente, acho que tenho direito de dizer o que penso. Obrará muito bem o prefeito Jonas Donizette se levar adiante esse intento. E a razão, afinal, é simples, cristalina: que tradição de espetáculos de óperas existe em nossa cidade? Certamente apenas residual, e até possuo argumento para ilustrar isso: frequento Campinas com regularidade desde 1959, sendo que aqui passei a morar a partir de 1970. Isso significa mais de 60 anos de convivência e, em tanto tempo, nunca vi, neste chão de Barreto Leme, ser montado o mais simples, remoto, longínquo, abúlico, desnutrido, exangue espetáculo operístico.
Diga-se, a bem da verdade, aliás, que, no Brasil, apenas duas capitais possuem tradição de Festivais de Óperas anuais, e não são elas nem Rio nem São Paulo. Mas sim Manaus, Amazonas, no belo Teatro Rio Negro, e em Belém do Pará no não menos maravilhoso Theatro (com h) da Paz. Religiosamente, uma vez a cada 365 dias as duas casas abrigam esplêndidos espetáculos, em geral montados por companhias europeias, com público em casas lotadas. E nem só de nativos, pois até pessoas de outros Estados para lá se locomovem levados pelo amor à musica dramática. E aí está o jornalista campineiro Marcus Ozores, que cuida dos programas de rádio e TV da Unicamp, que não perde uma temporada amazonense.
Nessas condições, pelo menos de minha parte fica a torcida para que a grana saia e o Centro de Convivência Cultural volte a ter vida. As óperas, para quem delas for amante, podem muito bem esperar. O nosso lindo e destroçado espaço, encravado no coração do Cambuí, não. Mãos à obra, senhor prefeito!

Escrito por:

Antônio Contente