A forma da escritaE Braille
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Publicado 07/02/2017 - 21h17 - Atualizado 07/02/2017 - 21h17

Por Por Fabiana Bonilha

A linguagem escrita tem particularidades que vão além da decodificação de letras e palavras. Existe, associada a esta representação, uma estética, uma composição visual que caracteriza o texto e que comunica seu propósito. Na escrita em tinta, são utilizados diversos tipos de fontes que se aplicam em diferentes tamanhos, assim como existem cores de letras, variados tipos de realces (como negrito e itálico) e diferenças de margens ou espaçamento. Esta formatação auxilia o leitor a hierarquizar as informações do texto e a lê-lo de acordo com o que sugere sua estética.
Certamente, a formatação de um convite de casamento não se assemelha à de um artigo científico ou a de um texto de jornal. Todos os parâmetros variam de um gênero a outro, e são aceitáveis dentro dos padrões convencionados para cada um.
A escrita em tinta requer cuidado em relação ao ajuste destes detalhes, pois eles interferem na visualização e apreciação do material.
E Em Braille? Como é construída a estética da escrita?
Conforme vocês leitores talvez já saibam, em Braille não é possível variar o tipo nem o tamanho da fonte. A cela Braille, espaço ocupado pelos pontos, tem um tamanho único, assim como cada ponto possui uma dimensão imutável. Letras maiores e menores não fazem sentido para o leitor do Braille, e toda tentativa de confeccioná-las em diferentes tamanhos dificulta a compreensão dos caracteres. Também não á como produzir letras rebuscadas ou enfeitadas, nem como realçá-las em azul ou em vermelho.
A princípio, a estética da escrita Braille aparenta ser mais pobre e com menos
possibilidades em relação à escrita em tinta. O Braille é formado simplesmente por pontos brancos, que parecem constituir uma escrita monótona e inteiramente igual.
Mas até que ponto esta constatação corresponde à verdade?Embora não possamos contar com diversos recursos da escrita em tinta, é fato que o Braille tem sua estética peculiar e seus recursos próprios.
O texto em Braille, tal como o produzido em tinta, pode estar disposto na página de diferentes maneiras, sendo alguns de seus aspectos comunicados por meio desta diagramação. Mesmo não havendo tanta variação de margem e espaçamento entre as linhas, o texto pode estar centralizado ou recuado para um dos lados, o que nos ajuda a identificar e realçar as informações nele contidas.
Apesar de não existir em Braille uma forma de destacar as letras, existem símbolos colocados antes delas, que nos indicam a presença de negrito e de itálico.
Curiosamente, com os mesmos pontos formadores das letras em Braille podemos também compor desenhos bastante criativos para ornamentar um texto. Tomando-se por exemplo as letras "õ" (O com til) e "O", uma em seguida da outra, podemos compor um pequeno círculo de pontos que ocupa duas celas, respectivamente com pontos 2-4-6 e 1-3-5. Este círculo é usualmente utilizado como marcador de tópicos, ou como moldura de um texto.
As "Normas técnicas para a produção de textos em Braille" e a "Grafia Braille para a Língua Portuguesa" são documentos de referência para a produção e para a transcrição de material. Produzir e diagramar um texto em Braille é uma arte, praticada pelos seus mais experientes adeptos. Por isso, não basta ter um arquivo no computador e imprimi-lo em uma impressora em Braille. É preciso trabalhar a forma do texto, recriá-lo de um modo a ficar legível, interessante e agradável ao leitor cego que dele vá fazer uso.

Escrito por:

Por Fabiana Bonilha