Ensaiando uma respostaE Braille
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Publicado 31/01/2017 - 10h21 - Atualizado 31/01/2017 - 10h21

Por Fabiana Bonilha

"Como você faz para tocar piano?" Quando eu me deparo com esta pergunta, tão frequentemente dirigida a mim, confesso que eu fico um pouco confusa quanto àquilo que meu interlocutor realmente quer saber.
Pode ser que ele queira saber como é o processo de qualquer pianista para desenvolver a habilidade de tocar um instrumento. Ou pode ser que ele queira saber como alguém que não enxerga, como eu, torna-se um pianista. Ou pode ser que ele esteja perguntando como um pianista cego tem acesso às partituras e como ele faz para memorizá-las. Ou ainda, pode ser que ele queira saber todas essas coisas!
Então, para responder, eu geralmente começo pelo começo. Costumo dizer que aprender um instrumento e dedicar-se seriamente a ele deve ser um projeto de vida. Não se trata de uma atividade secundária, um passatempo, alguma coisa que a pessoa faz para relaxar depois de um dia exaustivo de trabalho. Muito embora tocar um instrumento traga um imenso prazer e uma indescritível satisfação, o caminho a ser percorrido demanda um trabalho dirigido e sistemático, permeado pela aquisição de competências técnicas e musicais específicas. Se a intenção da pessoa é não tocar "de qualquer jeito", ou não tocar apenas "como fica bonito", mas sim a de realmente penetrar na esfera estilística e interpretativa de cada compositor, faz-se necessário que ela abrace uma causa posta como a essência da sua vida.
Não sei precisar – e talvez ninguém saiba – quantas horas diárias de estudo são suficientes para que alguém se torne um bom pianista. Às vezes, duas horas de estudo conscientes e bem orientadas valem mais do que quatro horas de estudo mecânicas e com repetições automáticas. Independente disso, o fato é que é imprescindível estudar, e estudar muito, estabelecendo uma rotina diária e exigente de trabalho. Fazendo uma comparação um pouco rudimentar, arrisco dizer que assim como almoçar, escovar os dentes e tomar banho são tarefas inevitavelmente cotidianas para todas as pessoas, o estudo deve ser obrigatoriamente diário para um pianista que deseja se tornar bom no que faz.
Feitas estas considerações gerais, volto à parte da questão que se refere a como uma pessoa cega pode tocar um instrumento. Na verdade, vários órgãos dos sentidos atuam de modo integrado na atividade da execução. Ao que parece, para quem enxerga, a visão tende a ter um papel bastante secundário neste processo, em relação ao tato e à audição. Tanto é que muitos executantes costumam até mesmo tocar de olhos fechados. Para nós, cegos, é imprescindível que tenhamos uma boa consciência corporal e que estabeleçamos boas referências espaciais do instrumento. A imagem dele e dos desenhos formados por cada trecho musical precisa estar gravada em nossa memória, a ponto de termos a impressão de que enxergamos o piano enquanto tocamos.
A terceira parte da questão requer uma explicação um pouco mais detalhada, que talvez possa ser aprofundada em um outro momento. Mas adianto dizendo que as pessoas cegas lêem partituras por meio do código Braille, notação concebida pelo próprio inventor deste sistema, Louis Braille, que, para nossa felicidade, era também músico. Assim como a notação convencional em tinta é consolidada e tem séculos de história, a chamada Musicografia Braille é a notação tradicional e universalmente adotada pelos cegos. Isto quer dizer que não faz sentido ficar "inventando moda", em direção à tentativa de criar uma notação paralela voltada às pessoas com deficiência visual, alegando-se que o Braille parece muito difícil e pouco prático. Para querer que uma nova notação substitua um código que tem 200 anos de História, o inventor em questão precisa se considerar mais genial do que o próprio Louis Braille, o que me parece muita pretensão!
Diante de propostas alternativas, os alunos cegos precisam ter consciência de que o caminho mais fácil e confortável pode não ser o mais confiável e seguro.
Com estas palavras, penso que eu tenha elaborado - também para mim mesma – uma resposta que seja razoável e satisfatória ao tema em questão, e assim, espero ter contemplado algumas inquietações sobre ele.
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Fabiana Bonilha