Medo
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Publicado 31/01/2017 - 19h26 - Atualizado 31/01/2017 - 19h26

Por Gustavo Mazzola

O medo, esse tirano implacável. Ele se instala, às vezes, antes de um voo qualquer, ainda, naqueles momentos de espera para o embarque no portão do aeroporto. Depois, já acomodados, tudo piora: a gente percebe que a grande aeronave inicia o deslanche louco pela pista e se ergue nos ares. Peço logo um ou dois cálices de um bom vinho - que é para me sentir mesmo meio adormecido -, não sem antes pensar comigo: esse gigante, em algum momento, em algum lugar, precisa aterrissar... sem falhas. Se estou no meu velho carro e tenho problemas, vou para o acostamento, espero, tranquilo, pelo socorro da Concessionária, do seguro, sem lá de quem, nem que for por um dia inteiro. Mas, em cima do oceano, onde está o acostamento? De repente, acordo com uma desesperada turbulência, me seguro na poltrona, rezo, rezo muito. Uma vez, durante um voo para Porto Alegre, começou a tal turbulência, e um aviso da cabine informava, simplesmente: “lamentamos informar que”... Quase morri nesse momento, quando aquela voz do infinito continuou com um “vamos atrasar nosso pouso em razão do intenso tráfego aéreo no Aeroporto de Pampulha”. Aquele “lamentamos informar” foi desastroso, inadequado, inoportuno para quem, como eu, estava ali com o coração nas mãos.
Sim, leio as estatísticas: morre mais gente nas estradas do que em voos comerciais. Os aviões, hoje, reúnem dentro deles o que existe de mais moderno e sofisticado em tecnologia, são ricos em informática, contam com eficiente apoio em terra, passam por revisões periódicas, estipuladas pelo fabricante. Sei de tudo isso, mas não adianta, ainda tenho medo.
O medo é difícil de ser controlado, em muitas circunstâncias da nossa vida. Você consegue falar em público, descontraidamente? Alguns conseguem.
No entanto, outros tremem como varas verdes nos momentos que antecedem a sua chamada para “usar da palavra”, ou coisas assim, mesmo os mais acostumados com isso. Chacrinha dizia, em entrevistas, que até quando já era sucesso nacional na televisão, sentia-se acometido de diarreias crônicas nos momentos que antecediam a entrada no auditório para apresentar sua Discoteca. E Roberto Carlos. O rei tem aversão à cor marrom, que lhe desperta uma superstição, um medo, que traz da infância: ouvia histórias de seu avô que nunca montava um cavalo vestido dessa cor.
Muitos sentem medo, durante suas vidas, de muitas outras coisas, até banais: medo do trovão, de chuva forte na estrada, do escuro, de sair de casa à noite -“será que não vou ser assaltado?”. E o medo de adoecer, de ter um AVC? Às vezes, esse medo é ainda maior do que o medo de morrer.
Existe também o medo do futuro, de perder o emprego. E isso, infelizmente, acaba bloqueando muitos em suas trajetórias profissionais. Abatem-lhes o desafio de arriscar, de partir para algo de novo na sua vida: “e se não der certo, o que eu faço?”
Voltando aos aviões - ah, o meu trauma, outra vez -, lembrei-me de uns estresses que passei num voo para Curitiba: aguardava a saída de Congonhas, já dentro do avião e com as turbinas ligadas há mais de meia hora, quando as luzes do teto foram se apagando, uma a uma, seguindo-se à desaceleração, até parada total dos motores, lá fora. A porta se abriu, dois mecânicos entraram com ferramentas às mãos, soltaram uma placa no teto, trocaram certos dispositivos eletrônicos, parafusaram tudo, e saíram sem dizer palavra. As turbinas rugiram novamente, as luzes se acenderam, tudo voltou ao normal. Mas eis que, minutos depois, tudo acontecia novamente: as luzes se apagando sequencialmente, a desaceleração das turbinas, os mecânicos voltando, tirando a tampa etc. Depois, mais uma vez, tudo em ordem e, enfim, decolamos. Quinze minutos de voo, já no meio do caminho e, de repente, vejo as luzes do teto da cabina se apagarem sequencialmente. Qual foi a minha conclusão imediata? As turbinas vão desacelerar e parar outra vez! Felizmente, nada aconteceu, e chegamos vivos ao nosso destino.
É isso aí, meu amigo: o medo nos persegue, impiedosamente. Agora, por exemplo, assim que terminar esse texto, vou subir aquelas escadas que me levam para a parte superior da minha casa. E se eu, de repente, escorregar entre os degraus de ferro, lisos... e bater a cabeça, ficar desacordado? Quem vai me socorrer hoje que, por coincidência, estou só aqui em casa, todos saíram para compras no shopping? Valha-me Deus, que medo!

Escrito por:

Gustavo Mazzola