Alô, alô, aviadores do Brasil!Gustavo Mazzola
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Publicado 27/09/2016 - 21h44 - Atualizado 27/09/2016 - 21h45

Por Gustavo Mazzola

“Alô, alô, aviadores do Brasil, aqui fala Jorge Veiga. Queiram dar o prefixo de suas aeronaves”. Assim o cantor popular dos anos 50 começava suas apresentações na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. A abrangência da emissora carioca avançava, em Ondas Curtas, por todo o Brasil, com uma programação variada, que ia das novelas, como “O direito de nascer”, e programas de humorismo - “Edifício Balança, mas não cai” é um bom exemplo - a apresentações de artistas famosos, como Francisco Alves, Orlando Silva, Marlene e Emilinha Borba. Quando, ao som de uma vibrante característica de abertura, Eron Domingues anunciava que o Repórter Esso, em edição extraordinária, estava no ar, o País inteiro parava, e toda a atenção ia para o que informaria. Era mesmo “a testemunha ocular da história”.
Ah, o rádio. Três dias atrás, em 25 de setembro, ele comemorou o seu dia, bem na data de nascimento de Roquete Pinto, considerado o pai da radiodifusão no Brasil. Durante décadas vem cumprindo um papel de integração nacional, atingindo milhões de lares em todo o País.
Nos anos 60, em São Paulo, o locutor da emissora queridinha dos ouvintes dizia: “Excelsior, o maior auditório do Brasil: uma poltrona em cada lar”. A Rádio Cultura distinguia-se como “o melhor som de São Paulo”; a Rádio Record era “a maior”. Mas, a maior popularidade mesmo ficava com a Bandeirantes, na Rua Paula Souza, com seus programas famosos, como “Telefone pedindo bis” e o consequente “Atendendo o ouvinte”, com Enzo de Almeida Passos. Também eram esperados o “Qual é a música”, com Henrique Lobo; o “Pick-up do pica-pau”, com o disk jockey Walter Silva.
A Eldorado firmava-se como um padrão marcante: operava em Ondas Médias, dentro do prédio do Estadão, na Major Quedinho, com abrangência na capital, chegando a algumas cidades do Interior paulista.
Seus locutores tinham quase todos o mesmo diapasão de voz, a mesma solenidade ao microfone. Sua grade de programação se caracterizava por títulos simples e discretos: por exemplo, o programa de música clássica na hora do almoço era “Concerto do Meio Dia”. Já o de música popular, “Música Popular Brasileira” e as músicas americanas anunciadas como “Música Popular Norte Americana”. O jornal falado era simplesmente “Jornal de trinta minutos”, e os boletins informativos, sempre no mesmo estilo: “Com notícias fornecidas pelos jornais O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, a Eldorado informa”.
E o rádio no Interior: um mundo à parte, que eu participava com paixão. Sou do tempo em que radialista que se prezasse, trazia, como “boton”, um microfoninho de metal barato, banhado a ouro, espetado na lapela do paletó. E isso, nos meus quinze, dezesseis anos, enchia-me de orgulho: impressionava a família, os amigos... as meninas do ginásio, distinguindo-me dos “demais mortais” como alguém que podia ser ouvido em toda a cidade: podia anunciar as músicas solicitadas pelos ouvintes ou surpreender com os noticiários que irrompiam no ar inesperadamente.
A operação de som, por exemplo, a “técnica” como a chamávamos, era onde a gente sentia a estação nos dedos, desde quando rodava o 78 rotações com o prefixo de abertura - Aquarela do Brasil - em um de seus dois “pratos” na mesa de som analógica, até o momento do “Boa Noite”, no final das transmissões. Uma vez, quando a luzinha vermelha dentro do estúdio se apagou, indicando que o microfone tinha sido desligado - na verdade, descobriu-se, depois, que a lâmpada havia queimado -, o locutor do horário, descontraindo-se depois de várias horas de trabalho, certo de que não era mais ouvido por ninguém, mandou todos seus ouvintes para a... bem deixa pra lá. Acabou dispensado por justa causa.
A programação da pequena emissora fechava-se com um famoso texto, que ia ao ar sem qualquer crise de consciência: “encerramos aqui nossa programação. Rádio Avaré, transmitindo para Avaré... São Paulo... Brasil”.
E pensar que, com os modestos 100 watts de potência em que operava, seu alcance não ia além das cidadezinhas mais próximas da região.
Mas “o tempo rodou num instante”. Jorge Veiga, hoje, teria que mudar sua “entrada” ao microfone: Talvez dissesse qualquer coisa assim como “Alô, Alô, aviadores de todo o mundo...”. Sua voz, além do Brasil, estaria disponível em todos os quadrantes da Terra, globalizada pela Internet, a maravilha das comunicações do nosso tempo.
 

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Gustavo Mazzola