Lições de humildadeGustavo Mazzola
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Publicado 13/09/2016 - 22h30 - Atualizado 13/09/2016 - 17h58

Por Gustavo Mazzola

Um dia, de manhã, quando passava pelo Balão do Castelo, eu o vi de joelhos à beira da calçada pregando um cartaz de propaganda do Jornal do Castelo. Muitas vezes, ele passa pela minha rua entregando, pessoalmente, o mesmo jornal, de porta em porta, cuidadoso em até dar uma palavrinha de amizade ao ver, de repente, algum conhecido do bairro pelo meio do caminho. Participa do dia a dia da comunidade junto aos trabalhos de apostolado de sua igreja, a Cristo Rei, orienta os amigos com lições de companheirismo através de sua página no Facebook, participa de movimentos em prol da segurança - o Conseg é um bom exemplo disso -, alertando para perigos que sofre a comunidade no enfrentamento à bandidagem que corre solta.
Quem é ele? É Clovis Cordeiro, nada mais, nada menos, do que o proprietário e editor do próprio Jornal do Castelo, publicação mensal preparada com carinho aos moradores do seu bairro e adjacências. Quem não o conhece - são poucos - nem imagina que está ali um experiente profissional de comunicações que, embora ainda jovem, já traz atrás de si um belo curriculum de vida. Já coordenou noticiários na Jovem Pan, exerceu atividades nas rádios Central, Cultura, CBN, no SBT e na TV Tathi, foi redator de esporte amador no Jornal Hoje, deu aulas na Puc-Campinas... e hoje, dirige o seu próprio jornal.
O que faz uma pessoa entregar-se, assim, a procedimentos simples, destituído de qualquer sentimento de prepotência ou arrogância à sombra de seu passado? A palavra certa é humildade. Clovis se sente bem vivendo assim, dando bons exemplos de cordialidade, respeito e amor ao próximo.
Os resultados de tudo isso acabam vindo. Na última sexta-feira, dia 9, recebeu na Câmara Municipal de Campinas, das mãos do vereador Jota Silva, o título de “Mérito Jornalístico”. Nada mais justo que uma demonstração de reconhecimento como essa. Dentro de seu jeito humilde de ser, agradeceu, dizendo, entre outras palavras, um singelo “obrigado!”.
Há outros bons exemplos desses gestos de humildade: quando, no começo da década de 80, eu acompanhava de perto os movimentos da indústria automobilística, conheci o presidente de uma grande multinacional instalada em São Caetano do Sul - Joseph J. Sanches -, que dava entrevistas a jornalistas do país inteiro, literalmente, sentado no chão. Foi o caso, por exemplo, do lançamento pela sua fábrica de um novo carro no mercado. E ele nunca foi criticado ou sentiu-se menor por isso. Pelo contrário, era estimado pela crônica especializada por essas atitudes de humildade, em geral, profissionais acostumados a demonstrações de arrogância de alguns executivos do mesmo nível, de outras montadoras.
E Sílvio Santos, heim? Meses atrás surpreendeu muita gente em uma entrevista na Vejinha. O Homem do Baú, uma das pessoas mais ricas do País, quando está em sua casa em Orlando, nos Estados Unidos, longe dos seus compromissos de grande executivo, gosta de fazer um bom supermercado, lavar a louça depois do jantar, andar pelas ruas de camisão florido. Quem diria!
Lá pelos meados da década de 60, Dari Barcellos era um milionário conhecido na minha cidade da adolescência. E de atitudes excêntricas. Humilde? Sem dúvida, pois demonstrava uma simplicidade de doer, a ponto de poucos saberem que se tratava de um homem de grandes posses econômicas: costumava sair de casa, em Campinas, sozinho em seu mercedão 58 e, horas depois, aportar no Bar Itapoan, no centro da pequena Avaré, no meio do Estado. Ali ficava, tomando o seu whisky, rodeado de amigos durante todo o dia. Uma vez, chamou o garçom e pediu gelo para a bebida, sendo logo informado que não tinha, pois a geladeira do bar estava quebrada, sem conserto. Ele tirou do bolso seu talão de cheques, assinou e mandou a “ordem”, sem rodeios:
— Tome, vá comprar a geladeira. Mas traga logo o gelo para o meu whisky. Poucos, na cidade, ficaram sabendo dessa história. E ele repetiu gestos assim muitas vezes, sempre no anonimato.
Não são lições de humildade? Clovis, Sanches, Sílvio Santos e Dari, talvez nem tenham sentido, um dia, a grandeza que tudo isso significa. Mas, quem observa tais atitudes, um comportamento humano por onde pautam suas vidas, percebe isso.
Com certeza.

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Gustavo Mazzola