De olho em coisas do alheioGustavo Mazzola
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Publicado 16/08/2016 - 21h36 - Atualizado 16/08/2016 - 21h37

Por Gustavo Mazzola

Se eu lhe disser que, por diversas vezes, já fui assaltado talvez exagere um pouco. Na verdade passei alguns sustos nesse quesito, de gente querendo me arrancar alguma coisa de qualquer jeito. Lá isso é verdade mesmo.
Faça comigo, leitor, um exercício de memória: você já viveu o estresse de, um dia, chegar em casa e encontrá-la toda revirada, os móveis arrastados de seus lugares, descobrir que lhe levaram seus aparelhos eletrônicos comprados com tanto sacrifício, dois ou três objetos de estimação, aquele enfeite da sala - que não valia nada - e, no entanto, significava tanto como recordação de um bom tempo da sua vida? Pois, eu enfrentei tudo isso e, lhe digo, não é nada agradável: encontrar os documentos do seu imóvel jogados no chão, com sinais de pisadas de barro, as gavetas do quarto da filha escancaradas, as roupas espalhadas pelo chão. Não é brincadeira. O susto, o trauma fica na família: durante meses, não deixávamos a casa completamente vazia. Quando um saía, o outro ficava, pois achávamos que, se alguém não estivesse por ali, a casa seria assaltada novamente.
Outras vezes, já me levaram o rádio do carro, pacotes do supermercado no porta-malas, celular, coisas assim. Mas uma ação desse gênero que me ficou na memória aconteceu quando ia com a esposa, descontraído, pelo calçadão da praia de Copacabana numa viagem de férias. Minha estampa denunciava logo eu ser um autêntico paulista, com aquela carinha de paulista, de roupas sociais e pele bem branquinha. De repente, fui envolvido por banhistas (banhistas?), que vinham em grupo caminhando calmamente por ali. Senti logo um dedo passar pelo meu pescoço e arrancar uma correntinha que usava havia anos.
— Não faça nada - alertou-me uma senhora “da terra” — deixe-os passar, numa boa. Se estrilar, é bem capaz de levar uma estileteada certeira.
Tenho um amigo que já viveu esse drama, também: uma vez, passeava em plena Via Imperiali — aquela avenida larga que termina no Coliseu, em Roma —, quando foi cercado por algumas meninas. Diziam qualquer coisa que não entendia, pareciam pedir esmolas. Num dado momento, sentiu que seu passaporte já tinha sumido do bolso da calça e, com ele, uma única cédula de “cinquantamila lire” que guardava entre suas páginas. Ele e sua mulher ficaram desesperados: sem dinheiro e sem passaporte? Procurou aquelas duplas educadíssimas, solícitas, os “carabinieri”. Bem, conseguiu reaver o passaporte, mas as liras, nunca mais.
Agora, incrível — e engraçado, depois do ocorrido, é claro — aconteceu aqui em casa mesmo. Depois que fomos assaltados, instalei um alarme poderoso e, mais ainda, uma espécie de ferrolho na porta de entrada, que a travava pelo lado de dentro: sentia com isso mais segurança quando fechava tudo na hora de nos recolhermos, à noite.
Aconteceu que a haste de metal desse tal trinco acabou caindo no seu local certo no momento em que, um dia, saíamos para um passeio... fechando-a “por dentro”. Ao retornarmos, não conseguia abrir a porta, começando a forçá-la com tal energia, que acabou por disparar a sirene do alarme. Então, desesperado, aquele som altíssimo estourando por toda a rua e, eu, sem conseguir entrar na minha casa. O que fiz: peguei o primeiro pedaço de madeira que encontrei no quintal e abri, ou melhor, arrombei uma janela envidraçada que dava para o escritório, numa das laterais da casa. Por ela, passei meu filho — naquele tempo, com nove anos ou dez anos —, que entrou sem dificuldade, logo desligando o alarme e abrindo a porta.
Tudo resolvido? Nada disso: com o alarme tocando altíssimo, os vizinhos acabaram chamando a polícia. A patrulha chegou minutos depois, tomou suas providências de praxe, afastando os curiosos e concentrando-se na ocorrência. Deparou-se comigo na frente da casa, suado, cabelos desgrenhados, com as roupas sujas e um ar de espanto. Os policiais me olharam meio desconfiados e a pergunta veio certeira: — Quem é o senhor? O que está fazendo aí: estava assaltando a casa?
Assim, depois de tantos dissabores, prejuízos materiais, ainda foi preciso que me desse ao trabalho de explicar aos guardas que era mesmo o dono da propriedade, não um bandido. E isso, sem falar na necessidade de apresentar documentos provando, com alguma dificuldade em meio aquela confusão toda, que a minha afirmação era verdadeira. Enfim, para encurtar a história, quase fui preso por acharem que eu estava assaltando a minha própria casa. É possível?
 

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Gustavo Mazzola