Diário de um sonhoGustavo Mazzola
Publicidade

Publicado 02/08/2016 - 22h47 - Atualizado 02/08/2016 - 22h48

Por Gustavo Mazzola

Acordou com uma certeza. As férias na empresa, que começavam naquele dia, seriam a realização de um sonho na sua vida, alguma coisa que já planejava havia tempos: uma viagem à Europa. No arrojo transbordante de sua juventude, solteiro, um dinheirinho guardado, passaporte em dia, passagens, o roteiro, tudo, já podia, agora, fazer o que queria - apesar da não concordância em casa, onde essa viagem estava planejada para mais à frente, com toda a família. Conferiu se tinha em mãos a mala em ordem, pegou os documentos, os cheques de viagem e, em meio a despedidas emocionadas, foi saindo, em direção ao aeroporto. No bolso, um diário, ainda em branco, prontinho para registrar cada passo dessa aventura.
Depois de muitas horas de voo, já desembarcava na Inglaterra, no grande aeroporto de Gatwick, próximo a Londres. Era a primeira experiência na Europa. Deslumbrante, a começar do próprio hotel: impressionava com seu pessoal de serviço vestido com roupas medievais, aquela atmosfera britânica a entrar pelos poros. Na primeira saída, o impacto da visita à Abadia de Westminster. “Foi construída durante 1000 anos, tem enterrados no seu subsolo figuras célebres, como, por exemplo, Willian Shakespeare”, explicavam os folhetos em várias línguas. Nos dias seguintes, novas experiências, como acompanhar a troca da guarda da rainha em frente ao Buckinghan, visita aos palácios de Windsor e Hamptcourt. Num passeio no Hyde Park ouviu, ao longe, sons de uma banda. Que banda? Na saída do país, ficou sabendo: eram os Rolling Stones, que davam um concerto do outro lado do parque. Perdeu essa oportunidade de ver a famosa banda.
A França, o novo destino. O metrô levando-o a qualquer lugar de Paris, por mais longe e peculiar que fosse. Até a Pigale, a área boêmia da cidade. Outro encontro memorável: um jovem amigo de Campinas, que morava num pequeníssimo apartamento no Quartier Latin, mas frequentava aulas na cinemateca da Sorbone. Com ele, ficaram mais fáceis os passeios ao Louvre, à catedral de Notre Dame, à Torre Eiffel, tudo com bilhetes usados, que “lavava” e reusava sem constrangimentos.
Agora Portugal, Lisboa. Um povo acolhedor, simpático aos brasileiros: as pessoas com quem conversava nas ruas, desde Alfama até Mouraria, já o aconselhando, naquele seu linguajar cuidadoso, “não deixe de estar no Mosteiro dos Jerônimos e na Torre de Belém, amigo”. Em Cascais, o encontro com um intelectual lusitano, mulher e filhos (conhecidos de um amigo do Brasil) engrandeceu aqueles momentos vividos em Portugal. Altos papos, até sobre a política no país.
A mais interessante visita na Espanha: Toledo, próxima a Madrid, cercada de muralhas, com suas ruas estreitas e casario da Idade Média. De volta à capital, acompanhou, de repente, a passagem de carros oficiais pelas ruas, cercados por batedores. Pode ver pela janela de um deles, rapidamente, quem? Nada menos que o Generalíssimo Franco.
Na Itália, uma visita ao Vaticano... sem o Papa, que estava em sua residência de verão, Castel Gandolfo. É a vida, vira Franco, mas não vira o Papa. Da Via Imperiali, em Roma, podia observar ruínas de todos os lados. Numa visita às catacumbas, o guia respondeu a uma turista, que lhe arguia sobre uma escultura no chão: “ah, essa é nova, tem só quinhentos anos”. Depois, um passeio em Veneza, com seus canais lindos e malcheirosos.
A Alemanha se abriu em Munique, às vésperas de sua Olimpíada, a de 1972. De começo, uma ida a Stuttgart e, em seguida, à próxima Vernau, onde se localizava uma grande fábrica de aquecedores. Ali, o encontro com um ex-colega de trabalho. No Brasil, um simples funcionário; na Alemanha, de poder inimaginável em toda a área fabril, reverenciado por todos. Sob suas ordens, veio-lhe logo um carro para voltar a Stuttgart.
O último país da viagem, a Holanda. Amsterdam, uma metrópole delirante, marcada pela presença em toda parte de hippies, pornoshops, canais de navegação urbana, gente muito à vontade. Na tarde derradeira, a ansiedade para voltar ao Brasil. E ainda tanto a ver... As muitas e muitas informações acumuladas em um mês e o cansaço desanimavam até a sair do hotel.
De repente, dois dedos tocando-lhe na nuca. Era seu pai que o acordava: “Ei, rapaz, hoje não tem trabalho. Não vai aproveitar as férias? Ânimo!”
Então, fora tudo mesmo um sonho? Nunca saíra de casa? Ao levantar-se, viu, aos pés da cama, um caderno. Abriu. Era o diário de uma viagem à Europa.
 

Escrito por:

Gustavo Mazzola