Publicado 19 de Junho de 2016 - 16h21

Formação original dos Titãs: de pé, Charles Gavin, Tony Bellotto, Branco Mello, Arnaldo Antunes e Sérgio Britto; sentados, Paulo Miklos, Marcelo Fromer e Nando Reis

Cedoc/RAC

Formação original dos Titãs: de pé, Charles Gavin, Tony Bellotto, Branco Mello, Arnaldo Antunes e Sérgio Britto; sentados, Paulo Miklos, Marcelo Fromer e Nando Reis

Imagine se, nos dias de hoje, uma nova banda promissora no cenário nacional lançasse uma música em que diz “Eu não gosto do terço, eu não gosto do berço, de Jesus de Belém. Eu não gosto do papa, eu não creio na graça do milagre de Deus”. Já pensou no burburinho nas redes sociais? Pois, se isso hoje parece um absurdo, imagine se tivesse acontecido em 1986, com o País recém-saído de uma ditadura militar, ainda imerso em uma cultura conservadora. Difícil? Impossível? Pois, foi o que fizeram os Titãs, com seu clássico 'Cabeça Dinossauro', disco que completa hoje 30 anos (foi lançado oficialmente em 20 de junho de 1986).

O álbum encabeça (ops!) listas e mais listas das obras mais importantes do rock nacional, e não é difícil explicar porquê: foi ele que mostrou que letras como a citada acima, entre outras, poderiam alcançar o grande público. Os arranjos redefiniram a forma de fazer música para os Titãs, que tinha lançado dois discos com músicas de mais fácil digestão — mais pop —, e trouxeram uma uniformidade sonora, ora pesada, ora ska, ora “experimental” que nunca mais seria perdida pelo grupo. Além de influenciar uma série de artistas da mesma geração.

O disco foi também, é claro, um grande sucesso comercial em uma época em que o LP era o auge da tecnologia musical. Uma fábrica de hits que até o ouvinte mais conservador carrega na ponta da língua: 'Família', 'Homem Primata', 'Polícia'. “Quando fizemos o disco, tínhamos a convicção de que ele seria um fracasso comercial. Mas sentíamos que seria algo diferente, pois estávamos nos permitindo ser muito verdadeiros e profundos no processo”, afirma o guitarrista Tony Belotto, um dos sobreviventes da banda ao longo das três décadas de história, em entrevista por e-mail ao Caderno C.

O jornalista Ricardo Alexandre, que atuou na linha de frente da imprensa musical brasileira nos anos 80, diz que os méritos de 'Cabeça' estão em abrir espaço para outros trabalhos tão ousados quanto ele. “Foi um disco muito marcante porque conseguiu provar que o radicalismo tinha espaço nas FMs, nas paradas de sucesso e nos programas de TV. Sem ele a gente talvez não tivesse álbuns que buscaram o extremo das possibilidades, como o 'Selvagem?' dos Paralamas (do Sucesso), ou o próprio RPM, que era uma banda totalmente sombria, se transformando numa prioridade da CBS (uma das maiores gravadoras da época)”, diz.

Os 30 anos podem parecer bastante tempo, mas a verdade é que 'Cabeça' envelheceu muito bem. Algumas letras, não tão conhecidas, como as de 'Porrada', 'Tô Cansado', 'Estado Violência' e 'Dívidas', com críticas à força policial, ao governo, ao comportamento da burguesia e ao sistema econômico, continuam assustadoramente atuais. “Difícil dizer o que deu errado no Brasil. De certa forma, ficou andando em círculos, eu acho”, opina Belotto.

Mas, se os problemas do País ainda são basicamente os mesmos, onde está o 'Cabeça Dinossauro' da nossa geração? “Isso é complicado de responder. Eu não sei. Acho que houve uma mediocrização geral e o Brasil ficou ainda mais apático do que já era nos anos 1980. O que é péssimo”, palpita o guitarrista.

Para Ricardo Alexandre, o rock naquele período atendeu o desejo por mudança após o período sombrio da ditadura. “A demanda popular não era pelo rock, era por uma inserção no mundo. O Brasil vinha de 20 anos de isolamento mental e cultural, e a linguagem disponível foi a linguagem do rock, que no mundo inteiro já estava caduco, de certa forma. Além de tudo havia uma indústria cultural disponível para abraçar o rock como fenômeno”, afirma.

E a falta de representantes da rebeldia na música nacional, pelo menos no mainstream, acaba atestando a própria decadência do rock enquanto indústria no País. “O rock ainda pulsa pelo Brasil, basta ver o sucesso que fazem os shows internacionais por aqui. Mas ele está sumidão dessa mídia viciada, meio que regionalista, que impera pelas plagas do Bananão. A gente, por exemplo, ainda vive disso”, analisa Belotto. Mais um ponto para 'Cabeça'. Um disco maior que o tempo, e talvez, maior que o próprio rock brasileiro.