Publicado 06 de Fevereiro de 2016 - 18h11

Por Rogério Verzignasse

Em sua casa, Neldo Cantanti segura a foto que fez de quando o austríaco Niki Lauda venceu o Grande Prêmio de Interlagos, em São Paulo, em 1976

Leandro Ferreira

Em sua casa, Neldo Cantanti segura a foto que fez de quando o austríaco Niki Lauda venceu o Grande Prêmio de Interlagos, em São Paulo, em 1976

O cidadão que aparece na porta tem a mesma aparência há décadas. Parece que o tempo não passou pra ele. Lá no final dos anos 80, quando era o responsável pelo departamento fotográfico do jornal, Neldo já tinha o mesmo cabelo branco, o mesmo bigodão, a mesma entonação de voz. O jeito de olhar é idêntico. As frases ainda são objetivas, claras. Mas o homem está mais magro. Há uma década, ele enfrentou o câncer. Passou por intervenções na pele e na próstata. Perdeu uns quilinhos. Mas nada que o impeça de caminhar todas as manhãs pelas ruas do Centro, ou de passar horas proseando com velhos amigos do Café Regina ou da Galeria Trabulsi.

Foto: Neldo Cantanti

Madre Teresa de Calcutá em Viracopos

Madre Teresa de Calcutá em Viracopos

Beirando os 80 anos de idade, o cidadão carrega uma história ímpar no jornalismo campineiro. Suas lentes, por quase quatro décadas, focalizaram milhares de celebridades e rostos comuns. Cobriu festas e tragédias. Circulou por favelas e por palácios. E ajudou a formar pelo menos três gerações de repórteres fotográficos.

Neldo Cantanti, paulista de Itápolis, guarda na memória as imagens da infância. Ele conta que seu pai, Aurino, era dono de uma empresa de transportes. A jardineira, movida a carvão, corria por toda aquela região. E o paizão não perdia bons negócios. Resolveu mudar de ramo quando encontrou um bar para comprar, na Ponte Preta. A família se mudou de mala e cuia para Campinas, em meados dos anos 40. E o então menino Neldo, aos 8 ou 9 anos, viu o Majestoso brotando da terra. Claro, virou torcedor da Macaca.

Mas a paixão pela foto vinha lá de Itápolis. Neldo lembra que, garotinho, junto com o irmão, juntou umas peças velhas de cobre e vendeu tudo em um ferro-velho. Com o dinheiro, comprou uma pequena Kodak Box. E começou a fotografar.

Foto: Neldo Cantanti

Visita do presidente João Figueiredo a Campinas

Visita do presidente João Figueiredo a Campinas

Já em Campinas, mocinho, ele arrumou emprego da Casa Ópera, loja de instrumentos musicais da Rua Conceição. Os patrões da época — Cláudio e Plínio Ruggiero — investiam na instalação de um departamento de fotografia na empresa, que passou a ser comandado por Celso Afonso, mestre na arte, que já fazia serviços autônomos e era conhecido por toda a cidade.

O recém-contratado Neldo, em meados dos anos 50, começou fazendo fotos de batizados na Matriz do Carmo. Aí ele foi apresentado por Afonso no Diário do Povo, e começou ajudando seu mentor na produção de imagens para a Rococó, coluna social da época. O jovem fotógrafo não sabia. Mas ali começava uma carreira profissional para toda a vida. Em uma época de jornalismo romântico, o jovem repórter não tinha horário definido, nem setor específico para atuar. O baile refinado e o distrito policial, o campo de futebol e a rua lamacenta da periferia, tudo virava pauta.

Do começo dos anos 60 ao começo dos anos 90, Neldo acumulou uma acervo bárbaro de imagens. Os contatos e negativos hoje são guardados no Centro de Documentação do Grupo RAC, que publica o Correio Popular, que em 1996 assumiu a direção do Diário do Povo. A rede integrou os dois jornais diários campineiros. Repórteres e fotógrafos, rivais de antes, passaram a fazer parte da mesma redação. E o acervo de Neldo, hoje em dia, serve de inspiração para profissionais em início de carreira.

Foto: Neldo Cantanti

Leão em pleno Centro de cidade, em 1982

Leão em pleno Centro de cidade, em 1982

Agora

Neldo, pai de dois filhos e avô de quatro netos, se diverte dizendo que ficou casado apenas oito anos. De 64 a 72. Depois, namorou muito. Mas nunca mais quis saber de aliança no dedo. Coisa da profissão, ele acha. “Não se tinha hora e dia para trabalhar. Eu não ficava sem equipamento pendurado no ombro. A paixão era fazer reportagem. Não dava tempo de ter outro compromisso”, diz.

Hoje, Neldo Cantanti mora no 10º andar do Edifício Flórida, condomínio de apartamentos da Rua Ferreira Penteado. Os cômodos amplos e os cacos cerâmicos do piso denunciam que o prédio é das antigas. O homem vive por ali há menos de seis anos. Antes, passou mais de três décadas morando no Conceição 40, o velho e inesquecível Joga-Chave. Neldo se divertiu muito por lá, fez uma legião de amigos. Mas um dia resolveu se mudar para um apartamento maior, mais sossegado. E bem lá no alto. Longe da calçada movimentada, da portaria barulhenta. Em paz. O homem confessa que nem tem mais as antigas máquinas fotográficas. As emoções da carreira, fala, estão guardadinhas no coração.

Foto: Neldo Cantanti

Irmão de João do Pulo no Irmãos Penteado

Irmão de João do Pulo no Irmãos Penteado

SAIBA MAIS

As pessoas interessadas em bater uma prova divertida de horas com o Neldo Cantanti podem marcar uma visita pelo teleofne (19) 3233-0792.

Acidente marca estreia no jornalismo

O “batismo de fogo” na profissão de repórter fotográfico de Neldo Cantanti foi a cobertura do trágico acidente com o avião da Aerolíneas Argentinas, que em 61 se espatifou no barranco, logo depois de decolar de Viracopos. Morreram 52 pessoas. E Neldo registrou, para as páginas do Diário do Povo, as imagens chocantes da fuselagem retorcida e da mata em chamas. O número de celebridades fotografadas ao longo do tempo é absurdo. Ele clicou a rainha da Inglaterra que visitava Campinas, em 68.

Eternizou a imagem de Niki Lauda em 76, quando o austríaco ferrarista se tornou o primeiro europeu a vencer o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, em Interlagos. No comecinho dos anos 80, fez fotos de João do Pulo no hospital, depois do acidente trágico que lhe amputou uma perna. Madre Teresa de Calcutá aparece rodeada de repórteres e fãs no aeroporto; Gianfrancesco Guarnieri fala a uma multidão de estudantes da Unicamp. Tinha notícia, Neldo estava por perto. Vivendo, fala, o prazer incomparável da reportagem.

 

Escrito por:

Rogério Verzignasse