Publicado 28 de Fevereiro de 2016 - 5h00

Por Angela Kuhlmann

Nayara Di Rito (à esq.) e Isabella Paulino, estudantes de Medicina: vocação começou ainda na infância

Dominique Torquato/ AAN

Nayara Di Rito (à esq.) e Isabella Paulino, estudantes de Medicina: vocação começou ainda na infância

A tendência a uma maior presença de mulheres entre os médicos mais jovens vem se desenhando desde a década de 1980. O ano de 2009 representou um marco histórico no processo de feminização da Medicina, quando pela primeira vez entraram no mercado mais mulheres do que homens, numa proporção de 53,3% para elas, e 46,6% para eles na faixa etária até 29 anos.

E a participação do gênero feminino vem evoluindo. Um perfil populacional dos médicos inscritos nos conselhos regionais de Medicina (CRMs), segundo a pesquisa Demografia Médica do Brasil, realizada pelo Conselho Federal de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), revela que em 2013, a porcentagem já era de 54,5% de mulheres e 45,5% de homens da mesma faixa etária que entraram no mercado de trabalho.

O levantamento traz ainda uma projeção para as próximas décadas na qual está previsto que as mulheres passarão os homens em 2028, quando serão 50,23% contra 49,77% no total das especialidades da profissão. Embora caminhe lentamente, a feminização da Medicina se firma a cada ano, tal como vem ocorrendo nos países ricos. Para 2050, estão estimados em 500 mil o número de mulheres médicas no País, ou 55,66% do total de profissionais em atividade. A pesquisa do Cremesp, coordenada por Mário Scheffer, traz ainda um comparativo com o ano de 1980, quando 78,76% dos médicos eram homens, tendo caído para 70,01% em 1990, para 64,74% em 2000 e 60,30% em 2010. Em 2020, a participação masculina cairá para 53,32%.

As mulheres já estão na frente em 13 das 53 especialidades da medicina, com índices que chegam a 72,9% na dermatologia; 69,6% na pediatria; 66,5% na ginecologia e obstetrícia; 65% na endocrinologia e metabologia e 60,8% na alergia e imunologia.

Em Campinas, a tendência segue os mesmos parâmetros do estudo. Em duas das três faculdades de Medicina da cidade, observa-se uma adesão maior das mulheres à carreira médica. Na Faculdade de Medicina São Leopoldo Mandic, em seu último vestibular para início do curso neste semestre, 63% dos alunos ingressantes são do sexo feminino.

O mesmo fenômeno ocorre na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nos dois últimos anos, as mulheres ingressantes foram mais numerosas do que os homens. Em 2015, foram 61 novas alunas contra 49 homens, numa proporção de 55,5% para 44,5%, respectivamente. Em 2014, elas também foram em maior número: 60 mulheres (54,1%) para 51 homens (45,9%). Os dados do vestibular 2016 ainda não estão disponíveis. A PUC-Campinas, que também oferece o curso de medicina, não forneceu os dados solicitados pela reportagem por norma interna da instituição.

Várias razões levam as mulheres a exercer a Medicina, entre elas a afinidade com o universo da saúde e a convivência desde pequenas com familiares que atuam na área. Essas duas características levaram duas alunas da Faculdade de Medicina São Leopoldo Mandic a optar pela profissão. Isabella Carnio Paulino, de 20 anos, está no quarto ano do curso e diz que a escolha da carreira vem desde a infância. Com avós e pai médicos, ela frequenta os ambientes cirúrgicos e hospitalares desde os 10 anos. “Meu pai é oftalmologista e ainda criança já o acompanhava durante as minhas férias escolares e fui tomando gosto pela profissão”, afirma. Na visão dela, a carreira tem mais a ver com as mulheres pelas características prevalentes nelas de maior apego maternal, afetividade e sensibilidade. “Todas as mulheres podem desenvolver o lado científico e têm de ser valorizadas”, pondera. Outra motivação que a levou a abraçar a Medicina é sua vontade de ajudar, cuidar de todo tipo de pessoa desde as crianças até os idosos, e estabelecer um vínculo afetivo com seus pacientes.

Isabella já definiu a especialidade que pretende exercer. Vai seguir os passos do pai e tornar-se oftalmologista. Até chegar lá ela ainda tem dois anos de curso regular e outros três de especialização. Entusiasmada com a escolha, ela vive dias de ansiedade pois no próximo mês vai fazer seu primeiro plantão em unidades básicas de saúde da rede pública de Campinas. “Vou começar a sentir a vida de médico, a atender todas as ocorrências que chegam, estou ansiosa para começar”, comenta.

Vocação

Aluna do terceiro ano de medicina, também na São Leopoldo Mandic, Nayara Pelizaro Di Rito, de 22 anos, revela que sempre quis ser médica. “Desde criança já queria fazer Medicina mas o que me levou mesmo a confirmar minha vocação foi quando ajudei minha mãe a cuidar de meus avós. Meu avô tinha problemas cardíacos e minha avó, câncer, e doeu muito ver o sofrimento deles ao mesmo tempo que despertou em mim uma vontade de buscar conhecimento, descobrir alguma coisa no futuro que possa aliviar os problemas causados por essas doenças”, analisa.

Levada à medicina pelas circunstâncias familiares e influenciada pelas experiências vividas, ela iniciou o curso planejando se especializar em oncologia. Porém, ao tomar contato com outras especialidades passou a gostar da área estética da dermatologia. “Gosto muito dessa área, mas ainda posso mudar, tenho mais quatro anos pela frente e sei que muita coisa ainda pode acontecer”, disse.

Relação médico-paciente

A pesquisa do Cremesp avalia como positiva a feminização da Medicina. De acordo com as considerações do estudo, as mulheres são mais propensas do que seus colegas médicos a harmonizar a relação médico-paciente, pois adotam estilos mais democráticos de comunicação, promovem relacionamentos colaborativos, discutem mais os tratamentos e envolvem os pacientes em tomadas de decisão. “Estudos já demonstraram maior satisfação dos pacientes com médicas mulheres. Além disso, suas condutas e práticas conduzem a uma melhor eficácia das ações preventivas; se adequam mais facilmente ao funcionamento e à liderança de equipes multidisciplinares de saúde; contribuem com a utilização otimizada de recursos, pois são menos inclinadas a incorporar tecnologias desnecessárias; atendem mais adequadamente as populações vulneráveis; e respondem a situações que requerem a compreensão de singularidades culturais e de preferências individuais dos pacientes”, analisa o coordenador do estudo.

Outra conclusão considera que o aumento de mulheres na Medicina pode moldar positivamente o futuro da profissão, influenciar o modelo de cuidados de pacientes e contribuir com a reorganização dos sistemas de saúde. Um melhor equilíbrio entre os sexos pode ser positivo numa prática profissional marcada pela diversidade de campos de atuação, longa formação, qualidades humanas e trabalho continuado, avalia a pesquisa.

Escrito por:

Angela Kuhlmann