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Publicado 08/01/2016 - 05h00 - Atualizado 14/01/2016 - 23h11

Por Pasquale Cipro Neto

No texto da semana passada, empreguei a palavra “óptica” na seguinte frase: “As flexões do infinitivo podem ser analisadas sob a mesma óptica”. Eu me referia ao fato de que a escolha da flexão verbal pode revelar a posição do falante ou aquilo que se quer pôr em evidência.
Pois bem. Muita gente pergunta se a forma “óptica” é obrigatória nesse caso ou se em seu lugar é possível empregar a forma “ótica”.
Vamos lá, pois. Talvez seja bom dizer logo que as duas formas encontram registro nos nossos dicionários. Quando se procura “óptica” no “Aurélio” ou no “Houaiss”, por exemplo, encontra-se a referência à forma variante “ótica”, que o “Houaiss” registra como típica do português do Brasil.
A julgar pelo que se vê no “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea”, da Academia das Ciências de Lisboa, o “Houaiss” tem razão (o dicionário português não registra a forma “ótica” como variante de “óptica”, isto é, com o sentido de “parte da física que estuda as leis relativas às radiações luminosas e aos fenômenos da visão”).
E que sentido a obra portuguesa dá à palavra “ótica”? Esse dicionário diz que os adjetivos “ótico” e “ótica” significam “que é relativo(a) ao ouvido” ou “que se emprega no tratamento de doenças dos ouvidos”.
Os nossos dicionários também dão aos adjetivos “ótico” e “ótica” esse sentido, mas dizem que essas formas podem ser também variantes de “óptico” e “óptica”, respectivamente.
Não entre em pânico, por favor. Vamos dar ordem a isso. Entre nós, as palavras “ótica” e “ótico” podem aparecer:
1) como variantes de “óptica” e “óptico”, ou seja, podem referir-se aos fenômenos da visão; 2) como adjetivos relativos ao ouvido.
Quando relativo ao ouvido, o adjetivo “ótico” (de origem grega) pertence à família da qual também fazem parte palavras como “otite” (inflamação do ouvido), “otorrinolaringologia” (ciência que estuda o ouvido, o nariz e a garganta), “otalgia” (dor no ouvido) etc.
Moral da história: entre nós, pode-se dizer (e escrever) algo como “Sob a óptica dos ditadores, essas questões se resolvem com...” ou “Sob a ótica dos ditadores, essas questões se resolvem com...”.
Nesse caso, as palavras “óptica” e “ótica” significam “modo de ver as coisas” (“Sob a óptica/ótica dos ditadores...” = “Sob o modo de ver/ de pensar dos ditadores...”).
Formas variantes de certas palavras não raro põem o usuário da língua em situações embaraçosas. Já existe registro, por exemplo, da forma “detetor”? A primeira edição do “Houaiss” (de 2001) já registrava; a edição de 2010 do “Aurélio” ainda não trazia essa forma (não sei há alguma edição mais recente); a edição de 1999 do “Vocabulário Ortográfico” também não registrava, mas a edição atual já registra.
A forma “detector” tem registro em todas essas obras. Há corretores ortográficos que aprovam “detetor”, mas condenam “detector”. E agora? Esse é só mais um dos tantos e tantos casos que o uso se encarrega de resolver e legitimar.
Um par que merece citação é o formado por “contacto” e “contato”. Entre nós, parece que a forma vitoriosa (no uso) é a segunda, embora volta e meia se ouça e leia “contacto”. As duas formas estão presentes no “Aurélio” e no “Vocabulário Ortográfico”.
Estranhamente, a primeira edição do “Houaiss” não registrava “contacto”, embora seu “primo” — o “Dicionário Houaiss de Sinônimos e Antônimos” — registrasse “contacto” e “contato” como equivalentes.
As últimas edições do “Houaiss” desfazem o equívoco e registram as duas formas. Isso é comum, caro leitor. Lembre-se de que não existe obra perfeita.
Por fim, para comprovar que a questão é mesmo enjoada, anote aí: o “Vocabulário Ortográfico” registra (há um bom tempo) “veredicto” e “veredito” (que o corretor ortográfico ainda grifa).
No início, o “Houaiss” só registrava “veredicto”, mas acabou rendendo-se ao uso, ou seja, acolheu também a forma “veredito”. O “Aurélio” tem o mesmo histórico. O dicionário da Academia de Lisboa só acolhe a forma “veredicto”.

Escrito por:

Pasquale Cipro Neto