Publicado 12 de Dezembro de 2015 - 19h26

Por Maria Teresa Costa

Embora existam fotos, disse Moraes, elas não representam muito bem Madre Paulina, porque são o tipo de imagens feitas a partir de negativos pintados

Divulgação

Embora existam fotos, disse Moraes, elas não representam muito bem Madre Paulina, porque são o tipo de imagens feitas a partir de negativos pintados

Nas fotografias, Santa Paulina aparece sempre com o rosto sério, compenetrado, bem diferente do que era em vida. A primeira santa brasileira, canonizada em 2002, era uma religiosa alegre, sorridente, segundo suas companheiras de convento em Bragança Paulista, que conheceram Madre Paulina, falecida em 1942. E é assim que o rosto da primeira santa brasileira foi reconstruído pelo especialista em reconstrução facial em 3D, Cícero Moraes, a partir de imagens do crânio da santa, e com uso da tecnologia do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), de Campinas.

Arte

Embora existam fotos, disse Moraes, elas não representam muito bem Madre Paulina, porque são o tipo de imagens feitas a partir de negativos pintados, como era comum naquele período. O trabalho de reconstrução resultou em dois bustos que serão entregues hoje à Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, no convento onde está sepultada, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, e dia 20, no Santuário Santa Paulina, em Nova Trento, onde passou a maior parte de sua vida de religiosa. O conhecimento público do busto só ocorrerá depois da entrega às religiosas.

O projeto inicial, segundo Moraes, era reconstruir o rosto do franciscano Frei Galvão, falecido em 1822 e que está sepultado no Mosteiro da Luz, em São Paulo. Mas as condições do crânio, quase todo esfarelado, não permitiu a produção de imagens necessárias ao processo de reconstrução. “Ficamos decepcionados. Seria muito importante poder descobrir como era o rosto dele e chegar a um busto o mais fiel possível do que era em vida”, disse.

A reconstrução de Santa Paulina foi sugerida pelo advogado José Luís Lira, presidente da Academia Brasileira de Hagiologia (que estuda os santos). Contato feito com as religiosas da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, Moraes teve acesso ao crânio da religiosa. “Ele está em perfeitas condições”, disse. O crânio e os demais ossos estão guardados em uma no convento já que, no processo de canonização, o corpo de Madre Paulina foi exumado.

Diante da impossibilidade de fazer uma tomografia do crânio, porque ele não poderia ser retirado do convento, Moraes fez uma série de 120 fotos de todos os ângulos. Em reconstruções anteriores, como o rosto de Santo Antônio, foi utilizado um conjunto de tecnologias para fabricar objetos físicos a partir de fontes de dados gerados por sistemas de projeto auxiliado por computador. Com Santo Antônio, o escaneamento de imagens do crânio permitiu a reconstrução com uso da técnica de prototipagem rápida pelo CTI de Campinas — onde a reconstrução 3D de estruturas anatômicas é obtida por meio do software público InVesalius.

Dessa vez esse software não foi utilizado para reconstruir Madre Paulina, porque, informou o chefe da Divisão de Tecnologias Tridimensionais do CTI, Jorge Vicente Lopes da Silva, todo o trabalho de reconstrução virtual do rosto chegou pronto.

As imagens fotográficas feitas por Cícero foram levadas ao computador e um algorítmo tratou de cruzar os registros. Isso resultou na formação de uma nuvem de pontos com o volume do crânio. A tecnologia ajudou a colocar, em cima desse “rosto virtual” os tecidos moles, como músculos e pele. “Convertemos esses pontos em uma malha 3D com superfície e com isso o pessoal do CTI conseguiu fazer a impressão 3D de Madre Paulina”, disse.

Camada por camada

No CTI, informou Jorge da Silva, a impressão foi feita em equipamento profissional de impressão 3D pelo processo de Sinterização Seletiva a Laser que utiliza como matéria-prima pó extremamente fino (40 microns de diâmetro) em poliamida, um tipo de nylon muito fino. Camada por camada do rosto foi sendo impressa, em um trabalho que durou dois dias de trabalho ininterrupto da máquina. O busto saiu do CTI branco, e por isso foi necessário um trabalho mais detalhado para dar cor a Madre Paulina. A artista plástica Mari Bueno se encarregou dessa tarefa.

SAIBA MAIS

16 de dezembro de 1865

Nasce Amábile Lúcia Visintainer, em Vigolo Vattaro, Trentino Alto Ádige, Itália

Outubro de 1875

Amábile e seus pais chegam a Santa Catarina, no Brasil

12 de Julho de 1890

Amábile funda a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, em Vígolo, Nova Trento (SC)

7 de dezembro de 1895

Amábile faz seus votos religiosos e passa a ser conhecida como Irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus, a Madre Paulina

2 de fevereiro de 1903

Madre Paulina transfere-se para São Paulo, onde inicia a obra da “Sagrada Família”, ajudando filhos de ex-escravos e idosos no bairro Ipiranga

29 de agosto de 1909

Madre Paulina acaba deposta de seu cargo de superiora geral, sendo transferida para Bragança Paulista

19 de maio de 1933

Recebe o Decreto de louvor de sua obra, concedido pelo Papa Pio XI

18 de março de 1938

O braço direito da Madre, que era diabética, é amputado

9 de julho de 1942

Madre Paulina morre, aos 76 anos

23 de setembro de 1966

Eluíza Rosa de Souza (Imbituba-SC) sobrevive a uma hemorragia interna e choque irreversível. Em seu peito foi colocado um pedaço de roupa de Madre Paulina e ela foi curada

18 de outubro de 1991

Madre Paulina é Beatificada, em Florianópolis, por João Paulo II

5 de junho de 1992

Iza Bruna Vieira de Souza nasce com um tumor da cabeça. Operada, sofre convulsões cerebrais e, aparentemente, sem chance de sobreviver. A avó coloca um retrato de Madre Paulina perto da menina. Em 24 horas, depois de ser batizada, a menina recupera a saúde

19 de maio de 2002

Madre Paulina é canonizada, na Praça de São Pedro, e passa a ser chamada de Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

Escrito por:

Maria Teresa Costa