Publicado 04 de Outubro de 2015 - 16h46

Nilton Rennó nasceu em São José dos Campos e fez engenharia civil na Unicamp; hoje ele é professor de ciências planetárias e engenharia espacial na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos

Cedoc/ RAC

Nilton Rennó nasceu em São José dos Campos e fez engenharia civil na Unicamp; hoje ele é professor de ciências planetárias e engenharia espacial na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos

Ele foi um dos primeiros pesquisadores do mundo a apontar evidências da existência de água em Marte. E, justamente por isso, foi taxado de maluco por muitos colegas da comunidade acadêmica. Hoje, o brasileiro Nilton Rennó — de 55 anos,  nascido em São José dos Campos e formado em engenharia civil pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — pode bater no peito e dizer orgulhoso que estava certo.

No último dia 28 de setembro, cientistas da agência espacial norte-americana (Nasa) anunciaram a descoberta de água salgada líquida na superfície do planeta vermelho.

A confirmação foi feita a partir de imagens da sonda espacial Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), na órbita do planeta desde 2006. O próximo passo agora é desvendar a grande questão: Há vida fora da Terra? “Com certeza”, crava, mais uma vez, Rennó, que atualmente é professor de ciências planetárias e engenharia espacial da Universidade de Michigan (UM), nos Estados Unidos.

Tudo começou em 2008. Ao ver algumas fotos enviadas pela sonda da Missão Espacial Phoenix, lançada pela Nasa no ano anterior para buscar mais dados sobre Marte, o brasileiro percebeu algo que pareciam ser pequenas gotículas no trem de pouso da espaçonave. Seria água?

A partir desse questionamento, foram realizados no campus da UM diversos estudos e experiências sobre o assunto. Em laboratório, o professor e seus alunos simularam as condições de Marte e o processo realmente mostrou pequenas quantidades de água líquida sendo formadas próximas à superfície do planeta, mais precisamente na região polar. Até então, a Terra era o único lugar onde sabidamente isso poderia acontecer. Em relação a Marte, o que se sabia até então era a existência de água congelada em seus polos e no subsolo.

A água em Marte não é cristalina como na Terra. Ela é uma salmoura aliada a elementos químicos como o perclorato de magnésio e de sódio. Extremamente salgada, essa água não congela e não evapora facilmente. Segundo as pesquisas apontam, mesmo a -70°C, ela pode continuar fluindo.

Ansiedade

Os resultados do estudo “Transient liquid water and water activity at Gale crater on Mars” foram divulgados na revista Nature Geosciences. “Essas descobertas nos mostram que estamos no caminho certo para entender o processo de formação da água líquida, não só em Marte, mas também nos outros planetas do chamado Mundo Gelado, como algumas das luas de Júpiter e Saturno”, comentou Rennó, em uma entrevista concedida à agência Deutsche Welle (DW-Brasil). “Procuro não me envolver emocionalmente com as pesquisas porque trabalhamos com hipóteses que levam tempo para serem comprovadas. Mas o anúncio recente deixa toda a comunidade científica ansiosa”, disse.

Após a publicação dos resultados da pesquisa da equipe de Rennó, as buscas no planeta pela Nasa continuaram e em várias outras imagens captadas foi possível detectar sinais de minerais hidratados em áreas com estrias em encostas.

Segundo apontam os pesquisadores da agência espacial, as manchas escuras encontradas nas imagens são, na verdade, córregos sazonais, que aparecem em vários pontos do planeta e comportam essa salmoura corrente no período do Verão marciano. Os córregos surgem quando as temperaturas por lá estão acima dos -23ºC. Nas estações mais frias, eles desaparecem.

As estrias já haviam sido observadas antes, mas a resolução das imagens não permitia garantir do que se tratava e nem que havia qualquer tipo de líquido nesses lugares. Os dados transmitidos pela sonda MRO possibilitaram descobrir que as manchas escuras estão associadas a depósitos de sal, que podem alterar o ponto de congelamento da água, permitindo que ela fique líquida por mais tempo, mesmo em baixíssimas temperaturas, e possa continuar a fluir.

A descoberta levanta a questão da existência de vida, mesmo que microbiana, no planeta vermelho. Os cientistas apontam que Marte, mesmo muito frio e deserto, é o planeta que mais de assemelha com a Terra no sistema solar.

O professor é um interessado por tudo que envolve as questões marcianas e atualmente integra o grupo de pesquisa do Curiosity — um jipe-robô enviado pela Nasa que vasculha o solo de Marte desde 2011. A paixão de voar em planadores, que vem desde a adolescência e ainda persiste, levou Rennó a investigar os mistérios do espaço. Da Universidade de Michigan, ele concedeu uma entrevista ao Correio. Leia, a seguir, o que disse o brasileiro que está cada vez mais perto do planeta vermelho.

 

Correio Popular - Recentemente, foi revelada a notícia da existência de água líquida em Marte. Qual o significado dessa descoberta?

Nilton Rennó - A descoberta de água é importante porque ela é essencial para a vida. Onde tem água, tem vida na Terra, por exemplo. Não importa quão extremas sejam as condições da água: alta temperatura, baixa temperatura, ácida, básica, salgada... Seguimos a água no universo. Porque na Terra, em todo lugar que tem água líquida, tem vida bacteriana. Então procurar lugares onde a vida pode ter se desenvolvido é procurar lugares onde tem água.

Estamos a um passo de encontrar vida fora da Terra - ou de afirmar que ela já existiu? Como seria esse tipo de vida?

Ainda não encontramos vida fora da Terra. Não sabemos se a vida fora da Terra seria diferente. A probabilidade de que seja feita dos mesmos materiais químicos que aqui na Terra é muito alta.

 

O que uma descoberta como essa — da chance de existir vida em outro planeta — pode contribuir para a nossa existência aqui?

Em primeiro lugar, ela colocaria nosso lugar no universo em perspectiva. Indicaria que a vida não é uma coisa muito rara e que no universo, provavelmente, haveria vida muito mais evoluída do que na Terra.

Podemos ter avanços científicos significativos com essa nova realidade?

Se a vida descoberta for bem diferente, pode ter um significado muito grande.

 

Suas pesquisas já apontavam essa possibilidade de água em Marte em 2008. Gostaria que o senhor explicasse como foi o trabalho na época.

Em 2008, nós descobrimos a existência de sais e gelo (no planeta) e concluímos que a combinação dos dois formaria água líquida salgada. (nota: isso nunca havia sido observado em outro lugar a não ser no planeta Terra).

 

Qual foi a reação das pessoas na época?

Acharam que eu tinha ficado maluco...

 

Isso torna possível que os seres humanos imaginem viver em outro planeta?

Sim, com certeza.

 

Há a possibilidade de que exista água e, por consequência, vida em outros planetas além da Terra e Marte?

Com certeza.

 

Agora estaríamos prontos para um contato com vidas “inteligentes” fora da Terra?

Acho que nunca estaremos.

SONDA ESPACIAL PHOENIX

A Phoenix foi uma sonda espacial não-tripulada da Nasa, lançada de 

Cabo Canaveral em 4 de agosto de 2007 com o objetivo de procurar por moléculas de água na região do Polo Norte do planeta Marte. A sonda

pousou no planeta vermelho em 25 de maio de 2008 e operou até 2 de

novembro do mesmo ano, data da última comunicação com a Terra.

A CARREIRA DO PROFESSOR

Nilton Rennó estudou engenharia civil na Unicamp, com foco em meio ambiente. Fez mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e pós-doutorado no California Institute of Technology (Caltech). Começou a carreira de professor na Universidade do Arizona e foi para a Universidade de Michigan em 2002, onde trabalha até hoje.

MARTE - O planeta vermelho

Marte é um planeta do sistema solar que se encontra situado em quarto lugar a partir do Sol. Tem tamanho inferior ao da Terra. Sua rotação leva 24,6 horas e a translação demora exatos 687 dias, tomando como base os dias terrestres. O diâmetro do planeta é de 6.794 quilômetros e as temperaturas oscilam entre 20ºC e -130ºC. A composição atmosférica em Marte é de dióxido de carbono, nitrogênio, oxigênio e monóxido de carbono.

O planeta vermelho possui particularidades semelhantes às da Terra como, por exemplo, a duração do dia e as estações do ano. Ali está a maior montanha de todo sistema solar, chamada de Olympus Mons.

Fonte: Brasil Escola

A Mars Reconnaissance

Orbiter (MRO) é uma sonda que tem a finalidade de procurar evidências de água em Marte.

Data de lançamento:

12 de agosto de 2005

Velocidade máxima: 

10.440 km/h

Altura da órbita: 24.213 km

Velocidade em órbita: 3,4 km/s

Custo: 720 milhões de dólares

Fonte: Wikipédia