Publicado 24 de Setembro de 2015 - 13h56

Por Delma Medeiros

Uma das mais destacadas regentes brasileiras da atualidade, a maestrina Ligia Amadio

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Uma das mais destacadas regentes brasileiras da atualidade, a maestrina Ligia Amadio

Uma das mais destacadas regentes brasileiras da atualidade, a maestrina Ligia Amadio, que esteve à frente da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas em 2009, quando passou a morar na cidade, notabilizou-se internacionalmente por sua conhecida exigência artística e performances vibrantes. Sua atuação estende-se por cerca de 30 países e lhe rendeu uma infinidade de prêmios. Desde 2011, Ligia tem atuado no cenário internacional, mas revela que está “com as baterias recarregadas” e pronta a desenvolver novos projetos no Brasil. Um pouco de seu trabalho e carisma podem ser conferidos no concerto que ela rege neste sábado (26), à frente da OSMC, dentro da programação do Mês de Carlos Gomes, na Pedreira do Chapadão.

Caderno C: Você se formou em Engenharia de Produção na Escola Politécnica da USP, mas sempre esteve envolvida com a música?

Ligia Amadio: Sim. Creio que sempre, mesmo antes de nascer, porque minha mãe tem uma voz maravilhosa, estudou canto lírico e sempre cantou muito. Com cinco anos, pedi para estudar piano, pois ia aos ensaios do coro, com minha mãe, e me impressionava o maravilhoso órgão que havia na igreja. Aprendi a escrita musical antes mesmo de ser alfabetizada. E foi minha primeira professora de piano, a Maria Cristina da Ponta Fiore, quem me ensinou, simultaneamente, a ler e a escrever.

Quando decidiu que iria se dedicar integralmente à música?

Durante o curso de Engenharia de Produção. No terceiro ano comecei a frequentar o Coralusp e passei rapidamente de cantora a ensaiadora, pois tinha amplos conhecimentos musicais e tocava piano. Minha preferência se definiu totalmente nessa época. Continuei fazendo Engenharia, mas já fui me preparando para prestar o vestibular de Música, assim que concluísse o curso. E foi o que aconteceu. Quando me formei na USP, entrei para a Unicamp, no Bacharelado em Música, para estudar regência.

Você já esteve à frente de grandes orquestras. Poderia citar algumas que foram mais representativas?

No Brasil, fui regente titular e diretora artística da Orquestra Sinfônica Nacional, da Sinfônica de Campinas e da Orquestra Sinfônica da USP; na Argentina, da Orquestra Sinfônica da Universidade Nacional de Cuyo (Osuncuyo) e da Orquestra Filarmônica de Mendoza, em Mendoza; na Colômbia, da Orquestra Filarmônica de Bogotá. Como regente convidada, regi todas as principais orquestras brasileiras e sul-americanas, tendo sido, quase sempre, a primeira mulher a ter regido essas orquestras. Das demais, posso destacar as Orquestras Sinfônicas da Islândia, de Jerusalém, da Rádio Holandesa, da RTV Eslovenas, Orquestra de Câmara de Israel, Orquestras Filarmônicas da Tailândia, da Cidade de Tóquio, de Baden-Baden, do Líbano, Ensemble Contrechamps, Orquestra Sinfônica do Estado do México, e algumas orquestras polonesas.

Por quase 13 anos regeu a Orquestra Sinfônica Nacional (OSN). Como é a experiência de ficar tanto tempo à frente de uma orquestra?

Fui eleita pelos músicos da OSN para ser sua regente titular e por mais de uma década ocupei essa posição. O lado positivo de uma longa convivência reside na possibilidade de imprimir uma personalidade artística a uma orquestra e construir um caminho de desenvolvimento. No nosso caso, em particular, realizamos temporadas de alta qualidade artística, com um crescimento constante de público, além de executar uma série de gravações importantes para o Ministério da Educação (MEC), destinadas a retratar a história da música brasileira. Além disso, a OSN voltou a gozar de seu antigo prestígio, apresentando-se nos principais palcos brasileiros e realizando, sob nossa direção, sua primeira (e, infelizmente, única) viagem internacional.

Seu trabalho à frente da OSN lhe rendeu alguns prêmios. Poderia citar quais foram eles?

Fui distinguida, por meu dedicado labor na direção da OSN com o título de Cidadã Niteroiense, em 2003, e com a Comenda da Ordem do Mérito da Cidade de Niterói, no grau de Grande Oficial, em 2005. Na verdade, os prêmios que recebi no Brasil foram por outros trabalhos: em 2001, recebi o prêmio de Melhor Regente do Ano, pela APCA, devido ao concerto em que dirigi a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) naquele ano — aliás, fui a primeira mulher convidada a reger a nova Osesp. E em 2012, fui premiada na categoria Regente, no Prêmio Carlos Gomes, em São Paulo, pelo excelente trabalho com a Orquestra Sinfônica da USP. Importante destacar que, em 2009, fui laureada com a Medalha Carlos Gomes, concedida pela Câmara Municipal de Campinas, por minha atuação à frente da OSMC.

Você também acumula prêmios em concursos internacionais. Quais os mais importantes?

Na Holanda, fui premiada no Kirill Kondarshin Masterclass, entre 180 candidatos de todo o mundo, com a oportunidade de reger a Orquestra da Rádio e Televisão Holandesa no Concertgebouw de Amsterdam, em 1996. Quatro entre os 180 foram selecionados (entre meus três colegas, estava Kirill Petrenko, que será o próximo regente titular da Filarmônica de Berlim). No ano seguinte, fui premiada no Concurso Internacional de Tóquio, e em 1998, no II Concurso Latino-Americano para Regentes de Orquestra em Santiago do Chile. Em 2003 me foram outorgados os prêmios Lira à Excelência e Raízes, devido ao trabalho que realizei à frente da Osuncuyo entre 2000 e 2003, na Argentina. Fui também honrada com diversas menções nas localidades onde fui a primeira regente mulher a dirigir suas orquestras.

Como foi a experiência de estar à frente da Sinfônica de Campinas?

Estive à frente da OSMC no ano de 2009. Foi uma bonita experiência artística, premiada por um público a cada dia mais entusiasta. Nossos concertos eram disputados e algumas vezes deixamos o público desapontado, pois se esgotavam as entradas para os concertos. Infelizmente, foi um período demasiadamente curto, o da minha gestão, e não pude dar continuidade aos projetos artísticos que tinha em mente. Lutei pelo crescimento da OSMC, uma das mais importantes orquestras brasileiras, mas não recebi o necessário apoio da administração pública naquele momento.

No ano passado você esteve à frente da Filarmônica de Bogotá, num trabalho especial. Como foi essa experiência?

Fui convidada para dirigir a Filarmônica de Bogotá, a mais importante orquestra colombiana, com o intuito de organizar uma programação totalmente voltada para o século 20. Foi uma temporada espetacular, que só as melhores orquestras do mundo poderiam levar a cabo. Apresentamos toda a história musical do século 20, os principais compositores e as principais obras: Bartók, Stravinsky, Schoenberg, Mahler, Webern, Prokofiev, Shostakovich, Debussy, Ravel, Rachmaninoff, Strauss, Villa-Lobos, Ginastera, Chávez, Ligeti, Kodály, Barber, Copland, Bernstein, Gershwin, Martinu, Sibelius, Elgar, Nielsen, Janácek, Scriabin, Khachaturian, Casella, Berio, além dos principais compositores colombianos da mesma época. Eu dirigi 21 programas distintos com repetição, ou seja, 42 concertos da temporada. Esse desafio redundou em uma experiência muito enriquecedora para meu próprio crescimento artístico.

Você tem vários CDs e DVDs gravados. Fale um pouco sobre essa produção?

Produzimos nove CDs e cinco DVDs, seis deles dedicados à música brasileira. Elaborei um projeto intitulado Música Brasileira no Tempo, a fim de gravar um panorama demonstrativo da história de nossa música clássica. O objetivo seria distribuir esse kit de CDs e DVDs para todas as escolas públicas, juntamente com os DVDs de outras disciplinas. Realizamos um total de cinco CDs e DVDs, que agora estão no Portal Domínio Público do MEC, mas o trabalho se interrompeu com minha saída da OSN, infelizmente. Foi um trabalho gigantesco, que demandou uma extraordinária energia de minha parte. Mas hoje, quando olho para o resultado, não me arrependo de tê-los produzido. Talvez algum dia eles cumpram a missão para a qual foram realizados. Entre os demais CDs que produzi, um foi dedicado a obras de Villa-Lobos, três à música argentina, no período que lá trabalhei, e os outros dois acompanhando o pianista Luiz Carlos de Moura Castro nos concertos para piano de Rachmaninoff. Esses foram gravados com a Orquestra da Radio e TV eslovenas, uma orquestra excelente, expert em gravações.

Além do bacharelado em música e mestrado em arte, você fez também vários cursos internacionais de especialização. Quais os mais importantes?

O Bacharelado em Música e o Mestrado em Artes, eu os completei na Unicamp. Meu professor principal de regência foi o saudoso Henrique Gregori, um grande mestre. Tive excelentes professores aqui em Campinas, dos quais muito me orgulho, entre eles a nossa querida e ilustre Niza Tank, que será homenageada em nosso concerto de sábado. Fora da Unicamp, estudei dois anos com Eleazar de Carvalho e 10 anos com Hans-Joachim Koellreutter, que foi meu principal mentor musical. Além de haver cursado inúmeros festivais de música no Brasil e os mais importantes cursos internacionais de regência orquestral da época.

Amanhã, você volta a reger a Sinfônica de Campinas. Como se sente em reencontrar os músicos e fazer um concerto em homenagem a Carlos Gomes?

Sinto-me muito feliz e entusiasmada. Tenho muitíssimos amigos nessa orquestra, entre músicos e funcionários administrativos, os quais conheço desde a época em que estudava na Unicamp e frequentava os concertos regidos pelo maestro Benito Juarez. Também participei em diversas produções coral-sinfônicas com a orquestra desde que estudava engenharia na USP e cantava no Coralusp. Fazer um concerto em homenagem a Carlos Gomes é uma honra e um prazer estético. Amo esse compositor e sempre volto a emocionar-me quando interpreto suas obras. Além disso, reger em minha própria cidade significa muito para mim. Não nasci em Campinas, mas adotei essa cidade maravilhosa, desde que vim trabalhar como regente titular em 2009. Minha casa fica num lugar cheio de verde, de pássaros e de paz, em Sousas.

Você é conhecida por sua exigência artística. A disciplina é fundamental para se fazer boa música?

Creio que disciplina é uma qualidade necessária para qualquer tipo de desenvolvimento, seja físico, intelectual ou espiritual. Sem estudo e sem prática conscientemente dirigida a um objetivo não se chega a muita coisa. Na música, o estudo cotidiano é fundamental não só para um possível desenvolvimento, mas simplesmente para manter o músico em forma, em termos artísticos.

A regência é uma atividade que exige treinamento contínuo?

Eu não diria treinamento, mas sim, estudo. A técnica gestual nós praticamos no período em que somos estudantes. Aí, sim, o treinamento é rigoroso e exigente, por alguns anos, até que tenhamos incorporado a técnica e dominemos a linguagem gestual. Mas não é nisso que reside o trabalho do maestro. A gestualidade é só uma ferramenta de comunicação entre o maestro e o grupo de músicos. O que o maestro estuda é o texto musical, aquilo que ele vai dirigir. E, claro, esse estudo é por toda a vida, todos os dias. Não só porque os textos musicais, as músicas, são infinitos, mas porque, mesmo que realizemos a mesma obra várias vezes, temos que entendê-la cada vez melhor, e o aprofundamento do conhecimento de uma obra só se dá realmente com muito tempo debruçado sobre ela, entendendo sua harmonia, seu contraponto, sua orquestração, seu pathos, as motivações dos compositores, os subtextos, etc...

Atualmente você tem atuado mais fora do País?

Desde o final de 2011, quando terminou meu trabalho com a Orquestra Sinfônica da USP, não estive mais sediada profissionalmente no Brasil. Estive na Argentina e na Colômbia como titular, e regendo orquestras em outras partes do mundo como convidada. Espero poder voltar a realizar um trabalho profícuo e duradouro em meu próprio país, como sempre o fiz. Em 2015 proporcionei-me uma espécie de ano sabático para recarregar as baterias, e já me sinto completamente revitalizada, pronta para novas realizações artísticas.

Escrito por:

Delma Medeiros