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PADRE JOSÉ DE NADAI

Dor infinita!

22/09/2015 - 05h00 - Atualizado em 08/01/2016 - 14h13 | Padre José De Nadai
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Olhando aquela foto da criancinha de apenas 3 anos, o Aylan, aquele corpinho vestido de vermelho e azul prostrado sobre a areia da praia, com sua cabecinha banhada pelas águas do mar, não dá para não ser tomado por um misto de sentimentos de dor, compaixão, ternura, espanto, tristeza e ímpeto de tomá-lo no colo para restituir-lhe, se possível fosse, o alento da vida. Aylan e seu irmão não nasceram para morrer em tão tenra idade. Nasceram, como nasce toda criança, para viver.
Tenho dito tantas vezes que enquanto nascem as crianças é sinal que Deus ainda não desistiu da humanidade. Mas quando Ele, o Deus da Vida, olha para o Aylan e seu irmãozinho morrendo afogados, por conta de buscarem nos braços de seus pais melhores condições de sobrevivência, deve ter ficado decepcionado, indignado e tomado de ira contra esta situação. Com efeito, não é este o mundo de seus sonhos e desígnios.
Nosso Deus, o Deus de Aylan, não é Deus da morte, mas da vida; da vida plena, alegre e feliz. É bem verdade que Jesus de Nazaré, Filho de Deus ainda recém-nascido, teve que refugiar-se no Egito, fugindo de Herodes. Mas sobreviveu. Seus pais José e Maria encontraram um chão para Ele. Os pais de Aylan não tiveram a mesma sorte para seus filhos. É encantador como Jesus, nos Evangelhos acolhia as crianças com carinho e ternura. Abraçava-as, impunha-lhes as mãos em oração.
Que mundo é este que não tem lugar para estas vidas frágeis e indefesas, que dependem totalmente de nós adultos? Que cultura é esta, dita ocidental e cristã, de mesa farta e tanta riqueza acumulada, que tranca as portas dos países europeus aos refugiados de guerras e fugitivos da violência e do terror. Que posso eu fazer diante desta vida ceifada tão precocemente? De coração compungido, chorar? Enviar um beijo? Abraçar Abdullah, o pai desolado? Nada disso traz esta criança de volta à vida.
Posso até me consolar com estes sentimentos humanos. Mas e daí? Quantas outras crianças continuarão morrendo igual?
O mar mediterrâneo torna-se cada vez mais cemitério de imigrantes e refugiados. Uma sensação de impotência toma conta da gente. Chego a questionar o silêncio de Deus. Onde estás que não respondes? Onde escondes que não vês? Então, de novo lembra-me o Senhor: Esqueces que já disse tudo. Não bastasse minha Palavra revelada de muitos modos, também enviei minha Palavra encarnada, meu próprio Filho. N’Ele já disse tudo. Ele é a Palavra Viva — Escutai-o. Prestai atenção no que Ele diz e praticai-o:
“Este é meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu os amei.” (Jo. 14,12)