Publicado 16 de Setembro de 2015 - 20h23

Acervo Entomológico do Instituto IAC foi transferido para o Instituto Biológico de São Paulo

César Rodrigues/ AAN

Acervo Entomológico do Instituto IAC foi transferido para o Instituto Biológico de São Paulo

O prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), enviou nesta quarta-feira (16) um ofício ao secretário de Estado da Agricultura, Arnaldo Jardim, pedindo informações sobre a transferência de acervos históricos do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) para a Capital. Jonas também vai discutir pessoalmente o assunto com o titular da pasta na sexta-feira (18) e no sábado, já que Jardim virá a Campinas para o 4° Fórum Nacional de Agronegócios do Grupo de Líderes Empresariais (Lide).

Na quinta (17), o secretário de Comunicação de Campinas, Luiz Guilherme Fabrini, deve se reunir com pesquisadores contrários à mudança dos acervos, que articulam um movimento para tentar barrá-la.

Nesta quarta, em São Paulo, o Estado impediu que a reportagem do Correio tivesse acesso ao acervo entomológico transferido de Campinas e ao local onde vai ficar a coleção do IAC, no Instituto Biológico, na Vila Mariana.

De acordo com o novo curador da coleção, Sérgio Ide, o material continua armazenado, pois o espaço onde ficará está sendo preparado.

O pesquisador afirmou que não houve tempo hábil para a organização do espaço, entre a comunicação da mudança e a chegada da coleção ao Instituto Biológico. Como os próprios pesquisadores de Campinas já haviam adiantado, a mudança foi feita a toque de caixa e pegou todos os envolvidos de surpresa.

Para Maria Cecília Ladeira de Almeida, diretora da Sociedade Nacional de Agricultura e professora de Direito Civil e Agrário da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, a transferência dos acervos do IAC significa a perda do próprio patrimônio da cidade de Campinas.

“O sucateamento que está acontecendo é uma realidade conhecida de todos já há algum tempo. É uma lástima porque você não pode diminuir um instituo de pesquisa. Tem que aumentar. A lógica me parece ser: não tendo uma produção a gente acaba com ele.”

Maria Cecília observou que o País é eminentemente agrícola. “Se nos salvamos nesses anos de crise foi graças à agricultura do País. O próprio Estado de São Paulo se fez graças à agricultura do café. Fico triste com a perda deste patrimônio.”

Ela defendeu ainda que cada instituto deve seguir com sus acervos e atividades de pesquisa. “O que me pergunto é: esse Instituto com todo esse acervo, nunca se pensou em tombar esse patrimônio? Era o caso de ter sido feito ou de se tentar fazer isso. Com todo o respeito ao Instituto Biológico, para onde foi transferido o entomológico, cada um deve seguir com suas atividades.”

Na quinta, o secretário de Comunicação deve receber uma comissão de pesquisadores. Na sexta (18), em almoço que antecede o 4° Fórum Nacional de Agronegócios do Lide e durante o evento, o prefeito Jonas pretende conversar com o secretário de Agricultura.

O deputado estadual Feliciano Filho (PEN) disse que entrou em contato com a Secretaria de Agricultura e com o IAC e foi informado que não há a intenção de desmonte, mas de otimização e racionalização dos espaços.

“Falaram em remanejamento para que trabalhos possam fluir de forma melhor, com mais resultados e racionalidade. Garantiram que não há intenção de desmonte”, disse. Feliciano afirmou que de forma ativa atua na causa animal, mas que está na Assembleia para votar todas as demandas que chegam e que se for procurado vai trabalhar.

O deputado Davi Zaia (PPS) também disse que contatou a Secretaria de Agricultura e foi informado de que a decisão foi tomada no âmbito dos órgãos técnicos no sentido de centralizar e fazer uma melhor gestão dos acervos. “Do ponto de vista da pesquisa não há perda”, disse.

“Uma questão mais antiga, da defasagem de pessoal, isso de fato é algo sério. Quando fui secretário fizemos todo um trabalho de reestruturação da carreira, porque parte dos pesquisadores que foram contratados acabavam saindo. Chegamos a deixar dentro do governo um projeto de reestruturação pronto na área de RH. Acontece que fomos pegos no meio da crise e todas as contratações foram suspensas até que se tenha um dimensionamento de como é que vai se comportar a economia do País”, afirmou.

A deputada Célia Leão (PSDB) foi procurada, mas até o fechamento desta reportagem não retornou o contato.

SAIBA MAIS

O IAC teve todo o seu acervo entomológico com mais de 8,5 mil amostras de insetos e pragas, coletadas ao longo de 80 anos transferido definitivamente para o Instituto Biológico, na Capital, no início do mês. Também seguirá para o Instituto de Botânica de São Paulo todo o acervo do Herbário do IAC.

A coleção de plantas conta com mais de 56 mil amostras e 11 mil espécies catalogadas. Algumas delas, são anteriores à própria fundação do IAC, há 128 anos.

Em Campinas, os dois espaços são usados para realização de pesquisas. No Herbário, por exemplo, há pesquisas sendo desenvolvidas. Eventualmente, os espaços recebem visitas de escolas.

A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado também apontou como problema grave a defasagem de pesquisadores científicos e encerramento de linhas de pesquisas, ao passo que os funcionários vão se aposentando e não há reposição.

Mudança é parte de reestruturação

O coordenador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), Orlando Melo de Castro, que dirige o IAC, afirmou em entrevista ao Correio que a transferência do acervo entomológico faz parte de uma reestruturação geral.

Diversos departamentos da agência, que administra seis institutos de pesquisa em São Paulo (Agronômico de Campinas, Biológico, de Tecnologia em Alimentos, de Zootecnia, da Pesca e de Economia Agrícola), serão redistribuídos para que os espaços públicos sejam otimizados.

Segundo ele, a mudança da coleção de insetos do IAC para o Instituto Biológico foi amplamente discutida e mais acervos que são subutilizados em Campinas devem ser transferidos. Um deles, que já havia sido confirmado pelo instituto, é o herbário, que teve apenas sete visitas em Campinas desde 2013. O número de consultas ao acervo entomológico é ainda menor: uma vista nos últimos dois anos.

“Cedemos espaço e funcionários para cuidar de um acervo que seria melhor aproveitado no Instituto Biológico. A mudança é uma questão de otimizar os custos e a manutenção. Não dá para alocar duas coleções semelhantes em dois espaços diferentes, que poderiam estar juntas”, disse Castro.

O Instituto na Capital tem o Museu do Inseto, e recebe dezenas de estudantes semanalmente para visitação. A reestruturação incluiu ainda a transferência da atividade de pesquisa na área de pós-colheita, hoje situada em Jundiaí, para Campinas.

A assessoria de imprensa do IAC informou que a coleção de insetos que ficava em Campinas estará à disposição para visitação no Instituto Biológico em outubro. Ela ficará em uma sala que está sendo preparada para acolher o material.

Castro confirmou ainda a defasagem de pessoal do IAC e disse que o local receberia 26 novos pesquisadores e cerca de 90 funcionários auxiliares através de um novo concurso que seria realizado neste ano. “Mas o Estado suspendeu por causa da crise.”

A falta de funcionários, no entanto, não teria influência na qualidade nem na quantidade de pesquisas, segundo Castro.

Um levantamento feito pelo IAC mostrou que de 1932 a 1999 foram criadas 689 cultivares, uma média de dez por ano. De 2000 a 2009, foram 233, média de 23 por ano. A média caiu um pouco de 2010 a 2014: foram 92 cultivares, 18 por ano. Em 2015, no primeiro semestre, foram criadas 15 cultivares.